A Baleia Azul e os silenciamentos do sofrimento humano

por Mike Akama MAZUREK

Para escrever sobre este tema tive de mergulhar em alguns lugares aos quais por livre e espontânea vontade não iria. Quando nos deparamos com um fenômeno como o da Baleia Azul, é difícil não haver um julgamento que nos coloque os grilhões do senso comum. Vou tentar explicar o porquê. A Baleia Azul é um tipo de “jogo”/grupo que surgiu nas redes sociais digitais (sua origem é desconhecida, mas muitos especulam que tudo tenha começado na Rússia). O jogo é composto por cinquenta tarefas administradas por outros usuários chamados de “curadores”. Normalmente, o jogador deve cumprir com uma tarefa por dia. Existem grupos do Baleia Azul tanto no Facebook quanto no Whatsapp. Porém, hoje em dia, em uma pesquisa rápida, não consegui encontrar facilmente esses grupos, provavelmente devido às ações tomadas pela polícia para prender os curadores de grupos.

No entanto, se formos analisar a lista de tarefas atribuídas aos jogadores existem aquelas simples como, por exemplo, desenhar uma baleia numa folha de papel, até tarefas que levam à automutilação, como: cortar os lábios, furar a palma da mão, cortar braço, ver filmes de terror, missões baseadas em medos, tais como sentar-se na borda de um precipício, isolar-se, entre outras. A última missão/tarefa dada ao participante é o suicídio.

Mas afinal, como qualquer jogo, o jogador poderia optar por parar de jogar, não é mesmo? No caso da Baleia Azul isso não é possível. Os curadores deixam claro que uma vez que se entra no grupo com a intenção de jogar, não é possível sair. Os curadores acompanham os jogadores pedindo provas (vídeos e fotografias) das tarefas sendo cumpridas. Caso um jogador se negue a cumprir alguma tarefa, os curadores o ameaçam de diferentes maneiras, por alguns caminhos como: cyberbullying, humilhação, exposição de algum segredo do jogador e até mesmo agressão de amigos ou familiares.

Ou seja, no caso da Baleia Azul, o jogador não tem liberdade para interromper o jogo, para desistir. Baleia Azul se apresenta como uma comunidade que altera o status de quem se compromete com ela. De acordo com a psicóloga Karen Scavacini:[1]

“Na vida em sociedade, todos precisamos de pertencimento. Jovens que têm uma sensação de não pertencer podem encontrar nesses movimentos a sensação de ser parte de um grupo, de ter alguém que entenda o que está passando. O jogo ainda traz uma questão também de poder falar que está jogando, de ser bacana”

Além disso poderíamos dizer que existe também certo tipo de reconhecimento social atrelado ao grupo Baleia Azul pelos jovens, lembrando do conceito de capital social discutido por Pierre Bourdieu:

“o capital social é agregado à partir dos recursos atuais e potenciais que estão ligados à posse de qualquer rede duradoura de relações mais ou menos institucionalizadas de conhecimento e reconhecimento mútuos – em outras palavras, a associação à um grupo – que fornece para cada membro o apoio de seu capital coletivo”. (BOURDIEU, 1986, p. 1, tradução nossa).

Para alguns desses adolescentes, de acordo com Karen Scavacini, podemos entender que o capital social do grupo possa ser o chamariz para a entrada no Baleia Azul. Porém, considerando que a tarefa final imposta pelo grupo é o suicídio, cabe aqui uma discussão a partir da perspectiva da ética.

 

PERSPECTIVA DA ÉTICA DE SCHOPENHAUER

Tende-se a atribuir à conduta suicida um comportamento desprovido de moral e ética, valorando-o como um ato detestável que caracteriza o seu cometedor como um “homicida e/ou covarde” (MARIANO, MANARI, SILVA, 2013, p. 36).

Para construir uma análise sob a perspectiva ética do suicídio, no entanto, sem cair em rasos moralismos, devemos construí-la a partir de seu contexto, ou seja, entendendo que a decisão do suicida não afeta somente a si mesmo, mas todo seu entorno social “e toda uma estrutura de história, seja ela familiar ou pessoal. Por isso, eticamente analisando, a opção pela morte de si já apresenta em seu âmago uma forte contradição” (MARIANO, MANARI, SILVA, 2013, p. 39). Sobre a consciência das consequências do suicídio para o(s) outros(s), uma segunda perspectiva é a do suicídio altruísta, um tipo de suicídio levantado através da visada social de Emile Durkheim (1982). Nesta, o suicida enxerga justamente o contexto ao seu redor como algo valioso para o qual pensa contribuir com o fim de sua própria vida. Um exemplo desse último tipo de suicídio seriam os kamikazes japoneses.

Outro elemento que precisa ser posto à baila é a questão da liberdade do suicida. Schopenhauer, com sua perspectiva filosófica pessimista, argumenta que o suicídio não resolverá por inteiro a situação em que o indivíduo se encontra, na eterna busca por satisfazer sua vontade (no caso da vontade schopenhaueriana, o ser humano busca saciá-la sempre se deparando com o tédio seguido ao gozo). Desse modo, poderíamos analisar o suicídio como a manifestação máxima da liberdade do indivíduo. Porém, considerando-se as consequências para o contexto/entorno, tal ato fere o conceito de coletividade e sua preservação. Ainda que a decisão seja do indivíduo, sua escolha transita justamente entre seu individualismo e a manutenção do coletivo em que está inserido,

“eis a grande questão que o suicídio deixa aberta para a reflexão filosófica e pessoal (…). Se o ser humano não se perceber como ser que vai além do individual, o suicídio sempre será justificado.” (MARIANO, MANARI, SILVA, 2013, p. 41).

As questões que o fenômeno da Baleia Azul levanta também giram em torno dessas novas organizações de sociabilidades, pensando em “uma sociedade de rede, feita de nodos que se rearticulam quando as grandes instituições da modernidade, a política, o trabalho e a escola, entraram em crise“ (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.31, tradução nossa). De acordo com Barbero, novas maneiras de “estar juntos” estão se tornando cada vez mais evidentes. A Baleia Azul seria uma delas, em que suas relações não necessitam de um espaço fixo ou de uma harmonia racional e permanente, e sim de identidades plurais, no caso, em torno de objetivos em comum: jogar, jogar junto, jogar com a própria morte.

Não cabe aos adolescentes que buscaram o “acolhimento” nessas comunidades serem julgados e condenados no tribunal do moralismo do senso comum como homicidas ou covardes (de acordo com uma perspectiva mais religiosa).  Um outro viés é toma-los como indivíduos que são, em sua condição humana, de acerto, de erro, de abuso. De certo modo, eles acabaram por ser engolidos por uma baleia azul que dá sentido a nós e a redes de pertencimentos, fazendo com que o percurso para a morte seja transvestido como um jogo com um fim absoluto e não mais temido graças a “companhia” de outros jogadores.

A atenção voltada à prática do suicídio posta à vista pelo jogo da Baleia Azul e também pela série “13 reasons why” (2017) conduz a um último ponderamento. Observa-se ainda uma imensa dificuldade em se colocar o tema em pauta. Essa resistência é usualmente justificada pelo medo de que dar visibilidade a esse assunto poderia detonar um “efeito chamada”, fazendo com que outras pessoas cometam suicídio, desprezando a capacidade de discernimento de cada indivíduo. Mas por outro lado, esse silenciamento reforça o isolamento justamente das pessoas que estão vislumbrando no suicídio uma saída. Com isso, elimina-se a possibilidade de um debate ético, inclusivo e às claras sobre o assunto, mantendo-o ainda hoje como tabu.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. The forms of capital. In J. Richardson (Ed.) Handbook of theory and research for the sociology of education. Nova Iorque: Greenwood, 1986.

MARIANO. Diego de Oliveira; MANARI, Éverton França de Souza & SILVA, João Alberto Mendonça. Ética e suicídio: a condição humana em Arthur Schopenhauer. Revista Multitemas: Campo Grande, n. 44, p. 27-42. 2013

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Razón técnica y razón política: espacios/tiempos no pensados. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación. ALAIC, p. 22-37. 2004.

DURKHEIM, Emilie. O suicídio. Rio de Janeiro: Zahar. 1982.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. São Paulo: Abril Cultural, 1999.

[1] https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/04/14/baleia-azul-jogo-ligado-as-mortes-de-dois-jovens-requer-atencao-dos-pais.html