A ética da torcida brasileira: será que somos incivilizados?

por Luiz PERES-NETO

 

Pouco antes da meia-noite do dia 16 de agosto, o até então campeão olímpico do salto com vara, o atleta francês Renaud Lavillenie, se preparava para o seu último salto nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Precisava, desesperadamente, superar a marca de 6,03 metros alcançada, poucos minutos antes, pelo o saltador brasileiro Thiago Braz, para revalidar o seu título olímpico. Ao se preparar e partir para a sua última tentativa ouviu, em coro, a torcida brasileira presente no Estádio Olímpico Nílton Santos vaiá-lo em uníssono. Falhou. Jamais saberemos se, em outras circunstâncias, Lavillenie houvera conseguido superar o sarrafo. O que sim sabemos é que não conseguiu e, sem sombra de dúvidas, podemos assumir que os brasileiros presentes fizeram jus à condição de “torcer“, de apoiar àquele que se quer ou se admira.

 

O caso em questão teve inúmeros desdobramentos e ganhou maiores proporções quando, lamentando a sua derrota, Lavillenie publicou no seu perfil no Instagram uma foto sua com uma frase na qual comparava as vaias dadas pelo público brasileiros a ele àquelas proferidas pelos nazistas a Jesse Owen, nos Jogos Olímpicos de Berlin, em 1936. Rapidamente, Lavillenie apagou o post e desculpou-se. Mas o estrago já estava feito.

 

Comentadores de redes sociais ou profissionais da opinião, apressadamente, julgaram e condenaram o atleta francês, por sua esdrúxula, inadequada e infeliz comparação. Igualmente, a “torcida brasileira” também foi posta no banco dos réus da opinião pública e julgada pelo seu comportamento, agravado ainda mais quando da cerimônia de premiação, na qual Lavillenie foi novamente vaiado, agora ao receber a medalha de prata. Algumas vozes clamaram pela incivilidade dos torcedores brasileiros que impediu a concentração do atleta. Outras requisitaram à absolvição moral da torcida. Mas, enfim, como podemos problematizar este e outros comportamentos de torcedores brasileiros ao longo dos Jogos Olímpicos à luz da ética?

 

Mores, a manifestação do costume

 

O termo moral tem a sua origem no latim mores, cujo significado é precisamente costume. Mas, afinal, o que entendemos por costume? Grosso modo, poderíamos defini-lo como “práticas habituais” ou “modo de proceder” habitual, corrente. Aristóteles[1] define como o “caráter habitual”. O caráter corriqueiramente manifestado por um indivíduo ou coletividade. Assim, ao trazer a discussão deste post para o terreno da moralidade, da ética, podemos dizer que, ao tomar partido de um atleta ou time, qualquer torcedor, evidentemente o faz a partir de um repertório comportamental e de valores afetivos eminentemente éticos. Neste sentido, o modo como comunica esta escolha também tem como raiz o costume. No caso, é inegável a fonte ou matriz cultural dos esportes mais praticados no Brasil, em particular, do futebol, em cujos estádios é bastante comum ouvir vaias e gritos, sejam de apupo ou de apoio a quem se estima.

 

Evidentemente, a simples transposição de um costume do “torcer” no futebol para outra modalidade esportiva não justifica por si só o comportamento do torcedor, ainda que explique em parte os por quês de algumas condutas manifestadas. Vaiar, neste sentido, seria parte de um hábito do torcedor brasileiro. Não obstante, as vaias, entendo, não deveriam extrapolar o momento da competição em si, dentro dos limites do bom humor, do aceitável, do torcer. Não seriam, a meu ver, justificáveis, neste sentido, as vaias dadas ao atleta francês Lavillenie no pódio, ainda que as mesmas poderiam ser toleradas no contexto da competição. Posterior à polêmica, diversos atletas – como a judoca brasileira Rafalea Silva, medalhista de ouro na Rio 2016 – manifestaram que não é incomum serem vaiados durante competições em outros países.

 

Cabe aqui uma advertência: não pretendo, neste post, elaborar um juízo moralista, que legitime ou deslegitime as vaias. Trata-se, apenas, de problematizar este fenômeno. Um exercício. Seguindo esta linha, se as vaias podem ser entendidas como parte de uma prática social intersubjetiva, como parte da cultura, dos costumes do torcer, caberia uma segunda pergunta: como discriminar bons de maus costumes?

 

Podemos falar de “bons costumes”?

 

A pergunta é capciosa na medida em que permite, por um lado, cair em um dualismo, nem sempre adequado. Se existem bons costumes, inevitavelmente existem maus costumes. Sim, de fato existem bons e maus costumes. A realidade, no entanto, nem sempre é branca ou preta, inteiramente boa ou má, podendo apresentar-se em uma infinidade de tons ou situações intermediárias. A existência de posições dúbias, condutas ambíguas, etc., não exime, contudo, a existência de comportamentos tidos como maus. Um exemplo: no futebol masculino, durante as Olimpíadas observamos a odiosa prática de alguns torcedores brasileiros de gritar a palavra “bicha” quando o goleiro do time adversário se preparava para a cobrança de um tiro de meta. Mais do que um grito satírico, trata-se de um grito discriminatório, que reforça comportamentos preconceituosos que vão em contra do bem comum, da inclusão e da diversidade social. Sem lugar a dúvidas, um péssimo costume que observamos nos estádios brasileiros[2].

 

Por outro lado, se toda e qualquer conduta humana se justificasse unicamente por meio do argumento dos costumes quiçá cairíamos em uma espécie de “vale tudo” moral, sempre e quando se tratasse de algum costume ou tradição. Da mutilação genital feminina à qualquer outra prática bárbara, sempre encontraríamos guarida no argumento ético dos costumes. O que, evidentemente, não nem sempre se justifica. Como exposto no exemplo acima, é preciso ter em mente o bem comum, os valores que permitem o bem estar geral, que contribuem para a tolerância, o respeito e para a manutenção da nossa dignidade humana.

 

O hábito faz os bons costumes?  

 

Durante as Olimpíadas de 2016, uma das provas da natação teve a sua largada atrasada em função do narrador brasileiro Galvão Bueno estar gritando demasiado alto, mesmo após os juízes pedirem o habitual silêncio a todos os presentes, para que os nadadores pudessem escutar o tiro de largada. Tal comportamento foi repreendido pelo locutor da BBC. Em outras provas e modalidades esportivas, nas quais exigia-se em algum momento o silêncio da torcida também foram observados momentos ou comportamentos contrários ao esperado.

 

Alguns comportamentos, tidos como inadequados, são fruto do costume ou da falta de familiaridade com muitas das modalidades praticadas durante as Olimpíadas. Evidentemente, em muitos casos há a má educação. Mas esta não é um patrimônio dos brasileiros, tendo sido observada previamente em outros Jogos Olímpicos. Não caberia, portanto, o argumento de que o torcedor brasileiro não sabe torcer. Afinal, há diversas formas de torcer, razão pela qual exigir do torcedor brasileiro um padrão de conduta tido como “o correto”, civilizado, pode derivar para aquilo que se conhece como imperialismo cultural.

 

Seja como for, é preciso ter claro que não temos apenas uma ética absoluta do torcer, um padrão universal que deva ser seguido sempre por todos os torcedores em qualquer lugar do mundo. Se existisse tal padrão, seguramente o mesmo eliminaria as diferenças entre culturas. Aniquilaria a diversidade cultural. E poderia ser plasmado em um manual a ser doutrinado e seguido por todos. Precisamente por não existir tal manual precisamos praticar o ato de torcer e revisar a nossa conduta. Colocá-la à juízo dos valores que queremos compartilhar e que aceitamos, que toleramos. Por isso, a ética é um costume que se pratica em primeira pessoa em prol dos demais, para os demais e com os demais.

 

 

[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, Livro II, 1, 1103a.

[2] O jornalista esportivo Juca Kfouri comenta magistralmente sobre esta questão, lembrando que, em parte, os torcedores brasileiros copiaram/adaptaram este mau hábito dos torcedores mexicanos, ainda que, no contexto brasileiro, há uma longa tradição de gritos homofóbicos à goleiros de futebol.