A guerra invisível do açúcar

por Maria Cláudia da Veiga Soares CARVALHO
Daniela Menezes Neiva BARCELLOS

 

Com ou sem açúcar? Se o leitor tem ou já teve esta dúvida, então esse post pode levá-lo a tomar uma decisão sobre o consumo de açúcar. Mas antes, propomos voltar a Portugal, há dois anos atrás, para situar o contexto desta questão. Em setembro de 2016, foi criado o Grupo de Trabalho para a elaboração de uma Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável (EIPAS) com base em documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Comissão Europeia (CE) na área da promoção da alimentação saudável. Em dezembro de 2017, foi aprovada a campanha financiada pela Direção Geral da Saúde para promoção da saúde dos portugueses com alertas para os perigos que se escondem nos rótulos dos alimentos. A campanha envolveu um protocolo inédito com as principais emissoras de televisão do país –  RTP, SIC, TVI e Porto Canal – onde seria transmitida. Os quatro canais aceitaram, simultaneamente e ao longo do ano, divulgar imagens de saúde pública, sendo a primeira delas dedicada ao consumo excessivo de açúcar e de alimentos nos quais este ingrediente está muitas vezes escondido.

No entanto, segundo notícias nos veículos Observador e Meios & Publicidade, as redes de TV  – RTP, SIC e TVI – suspenderam a exibição da campanha do Ministério da Saúde contra o excesso de açúcar, três dias após o começo de sua veiculação, devido a queixas de várias marcas. Segundo o Observador, a Unilever, Sumol/Compal e Nestlé consideraram que vários produtos que apareciam no filme eram semelhantes aos das suas marcas Calvé, Sumol e Cheetos. “O Ministério da Saúde foi informado pelas estações de televisão de que clientes do espaço publicitário se terão manifestado desagradados relativamente ao facto de alguns produtos apresentados nesta campanha poderem, no limite, remeter para gamas e marcas específicas”, segundo fonte oficial do Ministério ao Observador, relato apontado no site do Meios & Publicidade, de 9 de março de 2018.


Então, agora, voltemos à provocação inicial: com ou sem açúcar? O que é certo? Pensando bem… a pergunta está errada.

O ideal seria refletir sobre quais seriam os esquemas que nos levam a perceber os alimentos como certos e errados. Os rótulos são, parafraseando Pierre Bourdieu (1997, p.25), um modo de fazer ver, criar e levar à existência. Assim como as notícias, eles veiculam interesses e capitais simbólicos. Desculpem-nos complicar um pouco, mas comer açúcar implica pensar as engrenagens e forças em disputa política, que não vão bem misturadas com água, ao contrário, são enervantes.  São engrenagens políticas que não se encerram na agenda governamental, em formulação ou implementação de Guias ou Programas de Alimentação – estes são o resultado delas. A política a que nos referimos está por todo lado, funciona no interior das relações econômicas como sistema de poder disseminado em micropoderes. Uma política que, segundo Foucault (2014, p.46), “define as formas e as permissões e proibições regulares de nossa conduta. Afinal de contas, a essência de nossa vida consiste no funcionamento político da sociedade na qual nos encontramos.”.

Politizar a questão do consumo do açúcar é inseri-lo em um sistema de forças que se impõem sobre os agentes das propagandas, instituições de ensino e pesquisa, representantes de governos e de organizações da sociedade civil. Situar os poderes que agem no território social das prescrições de condutas sobre a construção dos fetiches sobre o que é certo comer. A ilusão do alimento certo e/ou errado flutua no agir comunicativo como uma armadilha alienante da disposição para o comer, uma disposição que se situa na intimidade.

Nesse sentido, tanto a proibição quanto incentivo ao consumo de açúcar ainda nos faz escravos de fetiches que servem a uma economia selvagem… Fruto da prática orquestrada por relações políticas embaladas por um jogo simbólico que esconde não somente o açúcar, mas outros interesses. O açúcar não é inteiramente uma invenção moderna, tem uma longa história de sofrimento para nós; a sua interdição é somente mais um ‘produto’, que pode se tornar munição para o combate, nos termos de Pierre Bourdieu.

Pensamos que a questão é ser “free” de invisibilidades, “free” de uma natureza inquestionável que toma um alimento como se ele existisse por si mesmo, por mágica, independentemente das condições históricas de produção e organização de saberes. O açúcar não é um problema em si mesmo, tem uma função no corpo e no ambiente e é na prática da vida que essas funções podem nos fazer bem. O desconhecimento, ou ocultamento, das condições sob as quais produzimos e consumimos os alimentos, sob o peso de condições econômicas que embalam as doenças crônico-degenerativas, aliena a nós mesmos de nossas próprias possibilidades de pensar e de entender, como comer melhor nessa mídia pluriinformativadora.


A interdição da campanha contra o excesso de açúcar foi um alerta não contra o consumo do açúcar, mas contra o que engolimos como fetiches.

Em estudo desenvolvido no GPECC pudemos observar e criticar o fato de que as jovens cariocas e paulistanas realizavam suas escolhas alimentares seguindo tendências de moda e incorporação de uma espécie de mais-valia em forma de prestígio, “fazendo de conta” que tudo era diversão, um modo mais pragmático de consumo fastthinking do ‘comer certo’ no processo comunicacional embaralhado por um sistema de input e output controlado pelo feedback (CARVALHO, 2018).

As condições socio-históricas que levam ao questionamento do consumo do açúcar podem aparecer como uma tempestade no seu cafezinho, mas se você não se der conta que os objetos/conteúdos no campo da alimentação e nutrição são ressignificados com muita agilidade de um momento para outro – o que era ruim pode virar bom e vice-versa, pode cair numa armadilha. O pragmatismo das escolhas alimentares se articula com a efervescência do consumerismo, que, segundo Peres-Neto e Hadleer (2016), apaga a história e as formas e isola os alimentos da guerra econômica de grandes grupos financeiros, invisibilizando o jogo de interesses escusos no contexto político global.

O mundo virtual é uma produção social com éticas que podem e devem ser questionáveis quanto ao que pode ser considerado bom ou ruim para a sociedade. As novas tecnologias de comunicação não são uma entidade impondo regras, elas respondem à criatividade humana e vivem disseminadas na sociedade fruto de uma produção discursiva marcada, por um lado, pela necessidade incessante de falar e, por outro, pela impossibilidade histórica de dizer. Esse contexto produz um indivíduo criativo, mas que segue docilmente regras sociais e não pode prescindir delas. Suas ações são estruturadas e estruturantes de um consumo inerente ao modo moderno de viver.


Os preconceitos e discriminações em relação ao açúcar, estejam naturalizados a favor ou contra o seu consumo, nos aliena de nossas próprias possibilidades criativas de mudanças. 

Pensar o desconhecido, no lugar de evitá-lo, traz para o debate as condições de vida como um modo de organizar o que se vê e o que não se vê. Se hoje, por um lado, a efemeridade e o fastthinking são irrevogáveis no mundo virtual, por outro, o homem continua humano. Para Bourdieu (1979), nesta luta “o problema não é mudar a ‘consciência’ das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção de verdades.” (p.14).

Assim, certamente continuarão a haver dúvidas sobre se o leitor deve ou não tomar seu cafezinho com açúcar. Porém, a depender de um conjunto de elementos dispostos de forma socialmente organizada, essa prática terá efeitos diferentes dependendo de outras coisas que você comeu no dia e como as “engole”… Se ser “free não nasce em árvores”, então é obra do ser humano, por isso, não pode aliená-lo de sua potência criativa para mudanças sociais. Desculpe-nos por não apontar o certo ou o errado. Talvez toda essa matéria se resuma a um “pense nisso”(sem perder a doçura)…

 

Referências

 

BOURDIEU, Pierre. La distinction critique sociale du jugement. París: Les Éditions de Minuit, 1979

BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1997.

CARVALHO, M.C.V. “Aspectos públicos e privados de escolhas alimentares em práticas virtuais de comunicação e consumo”. In: PERES-NETO, L. BOTELLA, J. (Org) Éticas em rede. Políticas de privacidade e moralidades públicas. 2ª ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2018.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

PERES-NETO, L. HADLER, R. “Ética e comunicação das escolhas alimentares: uma análise da tribo pós-moderna do Slow Food”. In: Razón y Palabra, v. 20, p. 257-272, 2016.