A luta como entretenimento

por Mike Akama MAZUREK

Esse post começa com um exercício. Por mais que você não entenda nada sobre a nomenclatura de golpes e que esse nem seja seu esporte favorito, observe-se da próxima vez em que assistir a algum evento de luta esportiva, seja presencial ou via TV/Internet. Muito provavelmente, você será totalmente capturado pelo espetáculo. E torcerá com toda sua verve por um dos oponentes. E, lá pelas tantas, muito provavelmente o lutador de sua preferência já terá o fascínio de um gladiador lutando pela própria vida num coliseu frenético onde a disputa seria entre os louros da vitória ou a morte. Mas, afinal, o que torna a luta esportiva tão atraente em quanto um espetáculo? Quais as questões éticas derivadas do mesmo?

 

Em primeiro lugar, a luta se define como uma atividade mimética porque produz emoções e desencadeia sentimentos que poderiam ser vivenciados em situações reais (Vasques, 2013). Assim, a luta surge como um esporte que tenta reproduzir a situação “real” de um confronto entre duas pessoas, em um contexto onde a violência é permitida em prol do entretenimento, de onde surge o que Collins (2004) chama de tensão antinomial. A violência da luta se pauta por uma ética. A partir da transgressão das regras e da “violência real”, essa tensão se converte em excitação antinomial, comum em situações que ultrapassam o limite do que é normalmente aceito em uma vida em sociedade. Para Elias (1992), essas tensões são cada vez mais raras no cotidiano dos indivíduos, devido ao aumento das formas de controle e domínio sociais.

 

É neste sentido que essas atividades miméticas se tornam grandes fontes de excitação. Consumindo-as como entretenimento, os indivíduos poderão se libertar emocionalmente, dando vazão a sensações e emoções que são da natureza humana (vide o Sapiens demens de Morin), mas que foram subtraídas do convívio em sociedade e sublimadas através do cinema, dos jogos, das lutas, da diversão. Em um confronto de MMA (Mixed Martial Arts), por exemplo, o espetáculo se constrói baseado na vivência daquilo que normalmente seria inacessível a nós: a violência explícita com o outro. Diferentemente de outros esportes, as lutas “não exigem conhecimento prévio e nem identificação com um lutador específico ou com um estilo de luta” (Vasques, 2013, p. 10). A luta leva em conta a excitação em torno do que é “fora da lei”, de um território onde vale-tudo e é isso que a torna tão atraente: a sensação de estarmos presenciando algo que nos foi subtraído como possibilidade de conduta e que só pode ser aceito enquanto espetáculo em um espaço social circunscrito.

 

Considerando-se a violência explícita dentro dos octógonos do MMA, por exemplo, observa-se que a tensão antinomial e a audiência do espetáculo é diretamente relacionada ao aumento da agressividade dos competidores dentro do ringue (Vasques e Beltrão, 2013). De fato, a luta esportiva é hipnotizante, imersiva e pode assumir uma escala de violência crescente cujo desfecho pode resultar em morte, como o ocorrido com o lutador português João Carvalho. A partir deste acontecimento resolvemos ir mais a fundo sobre as estatísticas relacionadas às lesões que colocariam a vida dos lutadores em risco.

 

A partir de um estudo feito pelo “Journal of Sports Medicine” , pudemos constatar que no UFC (Ultimate Fighting Championship), em 31,9% das lutas acabaram com ao menos um lutador sofrendo uma lesão traumática cerebral. Fazendo uma comparação com outros esportes de contato, o índice é duas vezes maior do que o do futebol americano — cujos danos vêm sendo muito mais discutidos do que no MMA —, três vezes maior do que no boxe e oito vezes maior do que no kickboxing e no hockey sobre o gelo.

 

É neste sentido que vale questionar se esses esportistas desempenham para nós o papel de gladiadores do século XXI. E se essa comparação for plausível, seríamos nós então a plateia da Roma Antiga? Uma audiência seduzida pelo circo violento? Somos os carrascos dos lutadores do octógono? Ou nos identificamos com eles no consumo de um ato violento tantas vezes desejado, mas reprimido? Seja no trânsito, na fila do banco, na ofensa do chefe, no abuso velado do outro ou mesmo do Estado nas nossas pequenas ações cotidianas. Afinal, o que estamos aplaudindo?

 

Referências

BELTRÃO, José Arlen & VASQUES, Daniel Giordani. MMA e Educação Física Escolar:a luta vai começar. Porto Alegre: Revista Movimento, 2013.

COLLINS, R. Interaction ritual chains. Princeton: University Press, 2004.

ELIAS, N. Introdução. In: ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992b. p. 39-100.

VASQUES, Daniel Giordani. As artes marciais mistas (MMA) como esporte moderno: entre a busca da excitação e a tolerância à violência. Bahia: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2013.