A representação das atletas olímpicas nos meios de comunicação

por Gabriela Agostinho PEREIRA

Os Jogos Olímpicos Rio 2016 geraram muitas questões que podem ser discutidas e analisadas no âmbito social, cultural e ético. Antes mesmo do início dos jogos já haviam questionamentos acerca do dinheiro investido para a realização da Olímpiada e a preparação do Brasil para receber um evento tão grande. Durante os jogos, a maneira de torcer do brasileiro virou alvo de controvérsias, um atleta norte-americano mentiu sobre um assalto e acabou perdendo todos os patrocínios e alguns atletas quebraram pernas e braços de uma maneira que nem imaginávamos ser possível.

Nas duas semanas de Jogos também pudemos acompanhar diversas vitórias inéditas no esporte e alguns recordes sendo batidos, a representatividade LGBT nas Olímpiadas é um destes recordes. A competição no Rio de Janeiro foi marcada por ter o maior número de atletas e técnicos assumidamente gays, lésbicas e bissexuais. Também é importante lembrar que a cerimônia de abertura dos Jogos contou pela primeira vez a participação transexuais, foram cinco ciclistas que conduziram a entrada das delegações, como a modelo Lea T que conduziu a delegação brasileira.

A participação feminina nos Jogos Olímpicos também merece destaque. A Rio 2016 registrou o maior número de mulheres participantes na história das Olímpiadas, cerca de 45% dos atletas inscritos eram mulheres e muitas delas fizeram história aqui no Brasil:

  • A primeira medalha de ouro brasileira nos Jogos Olímpicos Rio 2016 foi conquistada por Rafaela Silva, mulher, lésbica, negra e atleta de um esporte praticado majoritariamente por homens;
  • Simone Manuel foi a primeira mulher negra norte-americana a ganhar uma medalha de ouro em uma prova individual de natação, abrindo um debate sobre este feito e a baixa penetração deste esporte entre a população negra nos EUA;
  • Sara Ahmed foi a primeira mulher árabe a ganhar uma medalha no levantamento de peso;
  • A japonesa Kaori Icho ganhou sua quarta medalha de ouro em luta livre, tornando-se a primeira mulher tetracampeã da história das Olímpiadas;
  • Simone Biles, além das medalhas, chamou a atenção para algo muito importante: as mulheres estavam se destacando nas Olímpiadas, mas o machismo ainda está enraizado nas pessoas, na sociedade e também esteve presente nos Jogos. Ao ser comparada com Usain Bolt e Michel Phleps, a atleta respondeu da melhora maneira possível: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps, sou a primeira Simone Biles”.

Durante os Jogos Olímpicos (e até mesmo antes deles) Simone Biles provou ser uma atleta incrível e passou a ser considerada uma das melhores atletas da atualidade, por que então compará-la à atletas homens? Por que só os homens são usados como referência de sucesso e competência?

Além da insistente questão da comparação, é importante ressaltar o credito dado aos técnicos quando as conquistas eram na verdade das atletas. A nadadora húngara Katinka Hosszú bateu o recorde nos 400 metros da natação, porém segundo um comentarista da NBC, o responsável pela conquista foi seu marido (que também é seu técnico). Para uma considerável parte da imprensa espanhola, o feito da atleta Carolina Marin, primeira mulher não asiática a ganhar uma medalha de ouro no badminton também se devia ao seu treinador, diminuindo a conquista da jogadora.

Claro que os técnicos desempenham um papel importante na preparação de atletas, mas nesse sentido, quantas mulheres técnicas que treinaram homens foram creditadas pelas conquistas deles?

Segundo um estudo da Universidade de Cambridge, a imprensa foca em características diferentes para falar de atletas homens e atletas mulheres. Além de dar três vezes mais espaço para noticiar o esporte masculino, as mulheres têm suas conquistas profissionais deixadas em segundo plano e o destaque dado a elas é em relação ao seu corpo e à vida pessoal quando no caso dos homens a ênfase é dada em sua competência atlética e profissional.

O autor Pierre Bourdieu[1] nos ajuda a explicar este cenário, afirmando que a dominação masculina está tão presente no nosso inconsciente que não nos damos conta da presença dela e por isso temos dificuldade em questioná-la. Este autor ainda faz questionamentos importantes se perguntando quais seriam as instituições e mecanismos que reproduzem essa dominação masculina.

 

Enquanto situações como as que mencionamos forem recorrentes, continuamos questionando e problematizando a dominação masculina para que as mulheres vivam em um mundo mais igualitário e sejam reconhecidas pelo seu trabalho e suas conquistas, quer seja nos próximos Jogos Olímpicos, em Tóquio, quer seja aqui e agora, em qualquer lugar do mundo.

 

 

[1] BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007