Afirmo que mentir pode ser ético. Julgue-me.

Durante um ano e meio, fiz minha pesquisa de campo em São Paulo para mapear os impactos dos smartphones na gestão da saúde e do envelhecimento. Há pouco mais de uma semana, estou em Londres para concluir uma etapa do meu doutorado na University College London, com financiamento da CAPES e apoio do PPGCOM da ESPM. Apesar da mudança de ares, a minha atenção continua voltada para a questão da saúde. Talvez por isso, entre as 60 páginas do tabloide distribuído gratuitamente no metrô, o que me chamou a atenção foi a manchete “18 Milhões de pessoas colocam a saúde em risco ao mentirem para seus médicos”. O artigo alerta que omitir sintomas e hábitos não-saudáveis, como a ingestão de álcool além da medida, atrasam o diagnóstico e o tratamento, podendo gerar graves consequências. Mas afinal, por que mentimos?

Porque não nos apresentamos da mesma forma para todas as pessoas. De acordo com a situação social e com o público com que interagimos, damos visibilidade a algumas de nossas características e escondemos outras (aquelas que poderiam depor contra a imagem que queremos criar de nós mesmos ficam escondidas atrás do palco, fora da zona de performance). Essa seria a explicação que o sociólogo Erwin Goffman (2012) daria a partir de sua teoria sobre as representações do eu e o gerenciamento de faces.

Uma outra possibilidade retoma nossa necessidade demasiadamente humana de fazer parte, de nos sentirmos incluídos. Conhecer a opinião da maioria e saber que ela é contrária à nossa pode nos levar ao silenciamento ou pode fazer com que declaremos uma opinião que endossa a da maioria. Esse medo de ser excluído ou mesmo a vontade de entrar para o grupo numericamente mais representativo (o que numa democracia significa o grupo vencedor) seria a explicação dada por Noelle-Newmann (1995) a partir de sua teoria sobre a “Espiral do Silêncio” e nossa relação com a percepção da opinião pública ou coletiva. Na relação médico-paciente, isso significaria que o paciente, consciente do consenso entre sociedade e medicina sobre a importância de manter hábitos saudáveis, opta pelo silenciamento sobre seus atos ou pela adoção (mesmo que apenas do discurso) daquilo que é socialmente esperado dele (e de todos nós).

Mas por que mentir quando o que está em jogo é a nossa saúde? Para responder a essa pergunta é necessário entender o processo de moralização da saúde vivenciado nas sociedades neoliberais. Nesses contextos de Estado mínimo, defende-se a redução dos gastos públicos em prol da eficiência e isso inclui os recursos alocados na saúde. Por isso, manter-se saudável passa a ser uma responsabilidade individual, interiorizada como um valor e reconhecida como uma virtude. Neste sentido, o indivíduo que falha nessa administração de si mesmo (leia-se o cidadão que adoece) é visto como um cidadão irresponsável e que onera a sociedade com suas demandas de saúde. Essa falha é vista como imoral principalmente quando está relacionada com estilos de vida condenáveis socialmente, que incluem, por exemplo: o tabagismo, o consumo excessivo de álcool, o sedentarismo ou a alimentação junk baseada naquele hambúrguer duplo com bacon extra.

Some a isso o discurso de que a tecnologia empodera o cidadão para o cuidado de si, seja acionando o Dr. Google (quem nunca?), seja utilizando aplicativos para monitoramento do corpo. Neste último caso, inclusive, já escrevi também no Ética de Bolso sobre como as companhias têm obrigado os funcionários a se enquadrar nos padrões e métricas delimitados por elas como saudáveis, em uma prática que as autoras Nafus e Neff (2016) chamam de pushed-tracking.

E é aqui que a mentira pode se tornar reduto da ética, enquanto possibilidade de ajuizamento sobre si. Durante minha pesquisa de campo, por exemplo, muitos informantes relataram a consciência de que deveriam comer isso ou aquilo, ou que deveriam se exercitar mais, ou beber menos. Mas apesar da interiorização dessa convocação para uma vida saudável, eles fizeram outros ajuizamentos sobre o que é bom para eles, para o projeto individual de felicidade e envelhecimento. Eles deliberaram sobre virtudes e vícios e ponderaram seguir com certos hábitos, mesmo sabendo que seriam reprovados por seus médicos, pela sociedade, ou pelos seus planos de saúde.­ ­

Eles têm consciência desses hábitos e consumos. Eles exercitaram a ética para decidir sobre seus estilos de vida. Mas assumi-los publicamente é outra história. Significa submeter-se ao moralismo do outro, que no caso dos médicos, vem ainda investido de autoridade. O mesmo estudo do tabloide londrino aponta, por exemplo, que o constrangimento e o medo de serem julgados são os principais motivos que levam os pacientes a mentirem para seus médicos. E, veja bem, não estou falando aqui de hábitos e consumos ilícitos, mas de práticas desviantes ou não-aderentes ao status quo do saudável (leia-se autônomo e produtivo).

É aqui que a ética é engolida pela moral. É aqui que a saúde passa de direto do cidadão e dever do estado ao direito do estado e ao dever do cidadão. É nessa negociação entre o que é bom e o que é certo (convencionado certo ou tolerável socialmente em um dado momento) que as mentiras e as omissões tornarão possível o pertencimento. E mais que isso, são elas que cavarão o espaço necessário para o livre arbítrio e para a deliberação sobre o ideal de vida boa, partes fundantes da ética aristotélica. Motivo pelo qual afirmo: no contexto de moralização da saúde, mentir pode ser um exercício ético.

Referências:

NOELLE-NEUMANN, E. La espiral del silencio o Opinión Pública: nuestra piel social. Ed. Paidós: México, 1995.

GOOFMAN, I. A representação do Eu na Vida Cotidiana. Editora Vozes: Petrópolis, 2012.

NAFUS, D.; NEFF, G. Self-Tracking. The MIT Press, 2016.