Apontar o dedo ainda é pouco

por Glícia Maria Pontes BEZERRA[i]

A Chevrolet lançou em maio de 2017 uma campanha para divulgar a sua nova picape S10, ano 2018. Além de mostrar a potência do carro através de imagens em que o veículo atinge alta velocidade e atravessa estradas de terra e asfalto com a mesma força, o anúncio de TV “celebra e reconhece a importância do homem do campo para o crescimento do país”, como ressalta comunicado publicado na página oficial da marca. O comercial inicia com uma tela de celular estampando a seguinte manchete: “Agronegócio e desmatamento”. Em contraponto à imagem, a narração em off destaca: “Algumas pessoas vão sempre apontar o dedo pra gente que vive do campo”. Mas, cabe uma questão importante: que gente vive do campo e aparece nesta campanha?

Uma das pioneiras dos estudos sobre publicidade no Brasil, Maria Arminda do Nascimento Arruda, apontou, ainda na década de 1970, a existência de um “nítido paralelismo entre o discurso publicitário e o pensamento econômico”. A publicidade, como um dos sustentáculos financeiros da indústria da comunicação, alia-se ao empresariado que a financia e faz girar a engrenagem do sistema através da circulação acelerada de produtos e serviços. Anna Cristina Figueiredo, autora do livro “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada – Publicidade, cultura de consumo e comportamento político no Brasil (1954-1964)”, analisou a consonância do discurso publicitário com a consolidação da “ideologia do progresso” no Brasil das décadas de 50 e 60, por meio da veiculação de mensagens positivas sobre o processo de industrialização e urbanização ao passo que, em muitos casos, apontavam a vida rural como sinônimo do atraso. A exceção ficava por conta das campanhas a favor da modernização do campo através do agronegócio.

Cerca de cinquenta anos depois, em 2016, o Grupo Globo lançou a campanha o “Agro é pop” e defendeu essa atividade produtiva como importante para o desenvolvimento do país. Com o conceito “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é tudo”, a maior empresa de comunicação brasileira ressaltou seu alinhamento ideológico com esse setor e demonstrou os “benefícios” para os brasileiros, tais como a geração de emprego e a movimentação na economia. Os índices econômicos divulgados pela campanha podem ser visualizados aqui.

O discurso enfático em defesa de um projeto de país alinhado com as classes proprietárias fundamentou-se na omissão dos processos de exploração das classes menos abastadas e dos conflitos históricos na zona rural brasileira, os quais já ocasionaram chacinas e mortes de camponeses, como em caso recente ocorrido no Pará. Os argumentos em defesa deste tipo de progresso apresentam-se como sendo de “interesse geral” da sociedade, quando, na verdade, baseiam-se na desigualdade, no aprofundamento da exclusão e na destruição dos nossos recursos naturais. São, em síntese, o projeto de uma classe social, não representando a totalidade do país.

Nesse sentido, tanto a campanha da Chevrolet quanto a realizada em 2016 pela Globo contrapõem-se às críticas feitas ao agronegócio de forma contundente ao mesmo tempo em que omitem e faltam com a verdade. Afinal, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o agronegócio é o principal causador do desmatamento na América Latina, sendo responsável por 70% deste impacto ambiental; apenas no ano passado (2016) foram registrados mais de sessenta assassinatos em consequência dos mais de 1500 conflitos no campo, maior índice já registrado desde quando a Comissão Pastoral da Terra iniciou sua pesquisa anual, em 1985.

Ante este cenário, mais do que apontar o dedo é preciso repensar o Agronegócio e a sua relação com os distintos segmentos da sociedade. Neste debate, a publicidade tem um papel angular. No entanto, não pode ser o papel de apagar a voz daqueles que não coadunam com os interesses das classes dominantes.

 

[i] Glícia Maria Pontes Bezerra é professora e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC). Possui doutorado em Sociologia pela UFPE e mestrado em ciências sociais pela UFRN.

 

Referências

ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. A Embalagem do Sistema – A Publicidade no Capitalismo Brasileiro. 3ª Edição. São Paulo: Edusp, 2015.

FIGUEIREDO, Ana Cristina. Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada – Publicidade, cultura de consumo e comportamento político no Brasil (1954-1964). São Paulo: Hucitec, 1998.