As incompletas relações mediadas pela rede. “Paróquia virtual” que “faz comunidade na rede”

por Neusa SANTOS

O aumento da inserção do catolicismo e de suas respectivas práticas no ciberespaço tem ampliado cada vez mais as opções e os modos de manifestar as próprias crenças e práticas religiosas on-line. Uma questão que merece indagação é a dos sentidos dados às denominações de “Paróquia e Comunidade”, uma vez que durante séculos estes foram territórios bem definidos pela Igreja.

Entre vários aplicativos lançados pela Igreja católica, falaremos do mais recente e que tem sido notícia nos meios de comunicação. É o aplicativo “Paróquia virtual” que “faz comunidade na rede”, recém-lançado, que, segundo a definição dos idealizadores, “[…] é a Igreja de portas abertas e na palma de sua mão”.

paroquia

Se verificarmos as instruções dadas pelo Código de Direito Canônico da Igreja Católica, que rege normas para a instituição, paróquia é definida como “uma determinada comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, e seu cuidado pastoral é confiado ao pároco como seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano (Cân. 515 § 1º)”. Ao criar o aplicativo “Paróquia virtual”, estariam seus fundadores, alguns de renome no meio religioso, quebrando a regra do código que define o que é paróquia? Ou apenas abrindo caminho para um novo modo de evangelizar? O que é esse aplicativo ou quais são as ideologias presentes em sua construção?

O sociólogo Muniz Sodré (1999) nos ajuda a pensar nestas e em outras questões ao dizer que a interatividade e a conectividade permanentes, produzidas pela midiatização da comunicação técnica, “encontram-se a serviço de uma lógica de valores, opções éticas, que pautam normas de comportamento e encontram-se a reboque das regras do mercado, regras essas pautadas pelo imperativo de que os indivíduos estejam sempre interconectados”. À vista disso, ao tratar de paróquia “instituída estavelmente na Igreja particular”, estariam apontando para uma religião desterritorializada e trocando as normas da Igreja pelas normas das redes?

Ao usar a ideia de “faz comunidade na rede”, contrapondo o sentido inicial de uma de comunidade que, segundo Tönnies, seria a comunidade da “vida real orgânica”, que se funda sobre a descendência do sangue (parentesco), do solo (lar e aldeia) e sobre os bens possuídos e desfrutados em comum. Uma comunidade virtual estaria ligada mais à sociedade, como numa sociedade de propriedade privada, onde as relações sociais se desenvolvem sob a troca, o contrato privado, o conflito entre as classes, a indústria, o capital, a vida . Dessa maneira, estariam reafirmando os conceitos da sociedade capitalista? Estariam re-mapeando um novo modelo de comunidade?

Outro serviço que o aplicativo oferece é o mapa. A geolocalização das paróquias. “Quando você for a uma cidade e quiser ir a uma missa e não souber onde e nem os horários, você vai no aplicativo, localiza no mapa a paróquia mais próxima de onde você estiver e clica naquela paróquia para saber os horários. Você tem todo um serviço na palma de sua mão: é a paróquia na palma de sua mão”, explicou um dos idealizadores do aplicativo.

A ideia de “comunidade” que se desloca do território para o próprio smartphone seria o virtual dizendo o que e quem encontrar na “Paróquia virtual”, permitindo “furar” o anonimato do ambiente da Igreja que nos cerca ou quebrar a ética do privativo, do localizado? Dessa maneira, seria tendência a igreja local passar logo a ser igreja “geolocalizada”, em que o pertencimento vai estar mais ligado à própria rede de contatos de referência que se move no território? A geolocalização compartilhada poderia ser um fato que mais cedo ou mais tarde influenciaria o modo de constituir a comunidade eclesial?

De antemão, poderíamos dizer que as redes sociais, agora baseadas na localização das paróquias cadastradas no aplicativo, introduzem uma versão “líquida” de proximidade, baseada justamente no conceito local e global, não sendo, portanto, nem local e nem global, mas glocal, “entendido como um processo social midiatizado que ultrapassa a situação global e a local, pois as hibridiza em tempo real pelo aparato tecnológico em rede” (TRIVINHO, p. 78).

Acredito ser extremamente necessário estar nas mídias sociais como meio de interação, para ficar em contato com os amigos, para ler as notícias ou marcar uma viagem, para compartilhar interesses e ideias, uma vez que as mídias digitais não são portas de saída da realidade mas “alongadas” extensões capazes de enriquecer a nossa capacidade de viver as relações e trocar informações. O que, no entanto, critico são as formas de se “fazer paróquia” no virtual, uma vez que isso envolve dados individuais das pessoas e outras questões com base no sigilo, quebrando os preceitos da ordem estabelecida pela instituição, que direciona ao posicionamento contrário à ética institucional.

Estaria o dispositivo roubando a autonomia das pessoas sem que elas percebam? Além de consumir a imagem virtualmente como um produto qualquer, estaria a religião com seus atos promovendo um consumo da fé sem denominá-lo consumo?

O aplicativo é como os outros dispositivos. É uma rede de discursos, quebrando a fronteira entre o pessoal e o grupal, a ética do indivíduo e do outro, sem nomear quebras. É o paradoxo entre a liberdade individual das expressões de fé e o dispositivo de controle social da fé.

 

Referências

CANEVACCI, Massimo. Dialética da família. São Paulo: Brasiliense, 1985.

CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA. Código de direito canónico. 4. ed. Lisboa: Conferência Episcopal Portuguesa; Braga: Editorial Apostolado da Oração, 1983. (Versão portuguesa.)

SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura. São Paulo: Vozes, 1999.

SPADARO, Antonio. Ciberteologia: Pensar no cristianismo nos tempos da rede. São Paulo: Paulinas, 2012.

TRIVINHO, Eugênio. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007. (Coleção Comunicação.)

________. Visibilidade mediática, melancolia do único e violência invisível na cibercultura. Revista Matrizes, São Paulo, ano 4, n. 2, jan./jun. 2011.