Compliance, a nova ética corporativa?

por Fabrizzio CHIOCCOLA

Para você que está começando a leitura deste post e nunca ouviu falar em compliance prepare-se, pois seguramente você ainda irá se deparar com este termo. Mas, não se assuste, pois ele é “do bem”. Em tempo, tento elucidar de maneira sucinta: Compliance é uma palavra oriunda da língua inglesa, um substantivo que se origina do verbo To Comply With, cuja tradução mais próxima seria algo como “agir de acordo com”. Trata-se de um conjunto de processos nos (e por meio dos) quais as empresas devem, de maneira customizada, desenvolver-se no sentido de garantir transparência e integridade na condução dos negócios a partir da realização e monitoramento de boas práticas. Basicamente são medidas ou, para usar o jargão corporativo, “fluxos” que se preocupam com a ética e a conduta das (e nas) empresas. Tem por principal finalidade combater a corrupção e demais desvios na conduta corporativa.

Certa ocasião fui convidado para ministrar uma rápida palestra sobre corrupção em um workshop cujo tema era orgulhosamente exibido em letras garrafais na entrada do centro de convenções de um hotel: “Compliance, todos contra a corrupção”. Motivado pelo tema, iniciei a minha fala com uma “provocação” perguntando para a plateia se efetivamente estávamos todos contra corrupção. Ao olhar para a senhora que havia me convidado, percebi um grande desconforto ao vê-la deslizar-se vagarosamente para baixo da mesa em que estava sentada. Antes da sua submersão total, expliquei prontamente que a minha inquietação, naquela ocasião, estava voltada para as práticas das micro-corrupções no cotidiano e o quanto essas poderiam ser lesivas ao tecido social e, por que não, para o universo da empresas.

Pois bem, você deve agora estar se perguntando o que compliance, enquanto uma prática corporativa, tem a ver com micro-corrupção no cotidiano? Muito, na medida em que o compliance trata de uma vigilância moral nas relações de trabalho e nos procedimentos corporativos. As empresas não fazem nada por si sós. Há uma dimensão humana que dá corpo e alma ao agir corporativo. As empresas precisam das ações humanas. E, (in)felizmente, agir pressupõe escolher. Ao contrário do que alguns CEOs imaginam, sabemos que diante de escolhas todos os seres humanos são falíveis.

No entanto, no discurso corporativo é frequente ver o compliance ser enunciado como uma espécie de tábua de salvação para a ética corporativa, uma redenção moral para a empresa. Como quase sempre no mundo corporativo, a salvação da ética da firma tem na punição do colaborador que apresentou um desvio de conduta uma das características centrais. Sim, ter um sistema eficaz de punição, que pode variar desde uma simples advertência até a demissão sumária faz parte do processo.

Esta preocupação corporativa em gerenciar o risco de uma “crise ética” a partir de um código estrito apresenta-se como um caminho muitas vezes mais preocupado  com a imagem da empresa diante da opinião pública do que com práticas de transparência e accountability. Definitivamente, a ética corporativa não se constrói em base a atos desinteressados.