Crédito ou débito? A microchipagem de funcionários pela 32M

por André RODARTE

Enfim pode-se dizer, sem qualquer figura de linguagem, que corpo e economia são um só. No primeiro dia de agosto, a Three Square Market (32M) anunciou a implantação subcutânea de microchips em funcionários para facilitar a compra de produtos, acessar computadores e impressoras, o compartilhamento de informações pessoais e até mesmo abrir portas. Como um cartão bancário, o chip não precisa de bateria nem pode ser rastreado por GPS. Na “Chip Party”, mais de cinquenta voluntários colocaram o dispositivo, e claro, ganharam camisetas “I got chipped”. Admito que a polêmica sobre se vale a pena trocar meu crachá e VR por uma injeção medonha do lado do polegar não me entusiasmou muito, mas o alvoroço em que a 32M se meteu logo depois foi extremamente interessante. A repercussão midiática explorou a exaustão questões sobre a privacidade dos envolvidos, particularmente, em que medida pode-se falar em consentimento e quais os limites nas trocas informacionais entre funcionários e empresas. Em um post anterior, aqui mesmo já discutíamos como a lógica biopolítica tem invadido o mundo corporativo.

Um bom leitor de Foucault, com razão, já teria contraído as sobrancelhas quando destacamos a Chip Party como algo inédito. O modo como entendemos nossos corpos é descrito pelo mencionado filósofo¹ como objeto de investimento, qualquer que seja o contexto social, em uma biopolítica que articula deveres e limitações. O ato físico de implantar o chip, contudo, é uma manifestação em estado puro de um imperativo utilitário, cujo objetivo infatigável seria a eficácia em cada comportamento cotidiano. É como um técnico de futebol ver a sua substituição marcar no final do segundo tempo ou um cientista político acertar quem será eleito em 2018. É identificar com clareza neste novo corpo híbrido, que flerta com as mais futurísticas representações dos ciborgs, valores-chave que permeiam nossas relações interpessoais e que, de fato, merecem nossa atenção.

Ainda que deixemos Foucault de lado, a plasticidade transparecida pela 32M nos remete a todas as estratégias que enaltecem e, ao mesmo tempo, violam a organicidade corporal analisadas por Paula Sibilia². Basta agir de forma “descarnada”, ou, como simplifica Todd Westby, CEO da empresa, “[o chip] é inserido com uma agulha e pode sair pelo mesmo buraco pelo qual entrou… é como uma farpa de madeira sendo injetada na sua mão”. Como diria Francisco Ortega³, visualizamos por meio deste caso a centralidade do corpo em como entendemos e construímos noções de auto-identidade, autonomia e responsabilidade em cuidar de si . Tais autores têm em comum a tentativa de ancorar o que entendemos como “o corpo ideal” em um contexto específico, com ajuizamentos que logo nos indicam o que é agir com virtude e o que não é, o que é ser inovador e o que é estar por fora. Trocando em miúdos, a Chip Party é o convite perfeito para pensarmos se ainda há, ou se algum dia houve, espaços insulados dos deveres e expectativas que nos cercam.

Deixemos este convite em aberto. Questões sobre a privacidade dos funcionários podem partir desta reflexão preliminar para, então, expandi-la. Basta lembrar que a noção de privado mais versada historicamente caminhou junto ao esforço de separar espaços para comportamentos “virtuosos” daqueles onde prevalecem as necessidades básicas. A Ágora grega, como realização política da vida boa, como distinta dos espaços condicionantes da casa e da família. Aceitando ou não essa leitura é muito mais interessante pensar a privacidade, assim definida, quando literalmente nem mais a epiderme separa o íntimo do público. Trata-se de uma nova constituição da identidade externada que, evidentemente, requer um novo exercício ético4.

Defende Westby (o CEO da chipagem), que “a tecnologia que estamos usando é passiva, só provê informações quando é requerida”, e vai além ao assegurar que “seu celular reporta 100 vezes mais informações que um RFID chip” 5. De fato, tal apontar de dedos tem seus méritos, como já comentamos em outros posts. O chip promete substituir apenas cartões de crédito e crachás. No entanto, além de a intimidade ser mais uma vez reconfigurada, é difícil sustentar que tal tecnologia está blindada de “atualizações”. Esta previsão não é nenhum delírio ludista. O próprio Wetsby prossegue com projeções de incluir documentos, fichas médicas no microchip, além de usá-lo até mesmo como “tornozeleira eletrônica”. Geddéis que se cuidem.

É justamente tal projeção de desenvolvimentos técnicos do chip – e as condições em que ocorreriam – que fragiliza o discurso de voluntariedade dos participantes. Sim, ninguém a princípio foi microchipado sem consentimento prévio. Mas, é sempre bom lembrar que estamos tratando de uma relação chefe-empregado, com características intrinsicamente assimétricas, não é mesmo? Ou alguém conhece um empregado que tem a uma relação de poder isonômica com o seu chefe?

Esta indagação, somada à preocupação sobre em que medida a criptografia de informações protege a privacidade do indivíduo, levaram um senador em Nevada (Estados Unidos) a propor a proibição de implantação de chips em seres humanos. As potenciais atualizações, mesmo que este primeiro experimento assevere as limitações técnicas, suscitam questões sobre a precariedade dos acordos consensuais celebrados principalmente entre empregadores e empregados. Tomemos o caso das “fichas médicas”. Se, de um lado temos que o consentimento aplicado nas práticas de monitoramento é por vezes sustentado pela lógica autoritária do “tudo ou nada” – além de envolverem contratos demasiadamente complexos e mutáveis4, por outro lado, as implicações subsequentes foram ainda pouco analisadas. Cabem aqui, portanto algumas indagações: será que os funcionários e consumidores teriam a opção de escolher quais as informações compartilhadas? Haveria algum tipo de sansão social caso o “não aceite” prevalecesse?

Debatendo um episódio clássico da série Black Mirror aqui no Ética de Bolso, Marilia Duque5 aponta como aplicativos de saúde já trabalham com a responsabilidade do usuário em monitorar, mensurar e corrigir a si mesmos tendo em vista um projeto de vida saudável. Em ambientes corporativos, a prática de incentivo ao monitoramento e compartilhamento das métricas em troca de incentivos é conhecida como Pushed Tracking6, através da qual otimizações corporais procuram promover a produtividade dos funcionários. Portanto, aqueles que se recusam a adotar os novos dispositivos – sendo aqui implícito o imperativo moral de autogerenciamento – desvalorizam-se por vezes até mesmo no mercado de trabalho.

Não falamos mais de embates éticos em fronteiras tecnológicas com verbos no futuro. O uso de microchips já é uma realidade na Suécia, onde passagens de papel podem ser substituídas pelo implante na mão. Se ainda restam dúvidas, serve então a manchete do jornal G1 do mês passado: ‘Brasil será nosso próximo mercado’, diz CEO que implantou chips no corpo de funcionários nos EUA. Por hoje, com pelo menos cinco estados brasileiros registrando falta de tornozeleiras eletrônicas, há ainda mais razões para entusiasmo do empresário.

 

Referências

¹ FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Leya, 2014.

² SIBILIA, Paula. O pavor da carne: riscos da pureza e do sacrifício no corpo-imagem contemporâneo. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, v. 1, n. 25, 2006.

³ ORTEGA, Francisco. Práticas de ascese corporal e constituiçäo de bioidentidades. Cad. saúde colet.,(Rio J.), v. 11, n. 1, p. 59-77, 2003.

4 PERES-NETO, Luiz. Ética, Comunicação e Consumo: apontamentos a partir do estudo da privacidade. In: Anais 24º Encontro da Compós, Brasília, 2015.

5 Para uma análise mais completa, ver PEREIRA, M. D. E. S. Black Mirror, Engenharia Reversa e os Reflexos Possíveis de uma Sociedade Medicalizada. In: Anais 40º Encontro do Intercom, Curitiba, 2017.

6 NEFF, G.; NAFUS, D. Self-tracking. MIT Press, 2016