Death Note e a ética da justiça pelas próprias mãos

por Sofia Nunes AURELI

“Eu sou a justiça! Eu protejo os inocentes e aqueles que temem o mal. Eu vou me tornar o deus de um novo mundo que todos desejam! Todos aqueles que se opõem a esse deus é que são do mal”

Essa é história que dá início ao mangá Death Note, lançado em 2003 e que já teve adaptações para anime, live-action e, muito em breve, terá uma adaptação feita pela Netflix, cujo lançamento está previsto para o dia 25 de agosto de 2017. Afinal, qual é o encanto por trás da história de Death Note e por que, 14 anos depois, ela ainda continua sendo adaptada para os mais diversos formatos?

Talvez seja a questão de justiça abordada -uma vez que contos de justiceiros, anti-heróis e vingadores nunca saíram de moda. Light, após começar a fazer barulho como Kira, entra em uma disputa com L, um investidor anônimo contratado pela Interpol para caçar o responsável pelas mortes dos criminosos. Ambos se denominam como a justiça, cada um mantendo sua identidade desconhecida.

Light Yagami tem a maior média nos exames nacionais, é um aluno brilhante, bom relacionamento com as meninas e tem o poder de decidir quem vive e quem morre. Ele carrega o Death Note, um caderno vindo do mundo dos Shinigamis que possui o poder de matar quem o nome foi escrito. A ideia de fazer justiça pelas próprias mãos encanta o jovem, que não hesita e parte em missão de “purificar” o mundo de todos aqueles que, segundo seu julgamento, não merecem estar nele. O moralismo, a ação de ajuizar um terceiro por valores tidos como verdadeiros pelo julgador, pauta a sua ação.

Seu plano começa sentenciando criminosos, o que faz ganhar fama e ser apelidado pela população de Kira, do grego Kyros, que significa “senhor, que tem plena autoridade”. A sociedade muitas vezes incentiva as matanças do jovem, transformando-o em um ícone e alimentado o complexo de deus que o personagem cria.

“Primeiro escrevi os nomes de criminosos que pude lembrar, como se limpasse o mundo para que, um dia, ninguém faça nada mais de mal. Enquanto os culpados, que merecem ser punidos por seus crimes, morrem de ataques cardíacos, as pessoas menos culpadas, mas que ainda causam problemas aos outros, serão gradualmente apagadas por doença ou morte acidental. Então, e só então, o mundo vai começar a se mover na direção certa. Será um novo mundo, livre de injustiça e populado por pessoas que eu julguei serem honestas e gentis.”

 

Mas, afinal, o que é justiça? Seria ético o comportamento de Kira e seu complexo de deus, que lhe permite ver-se como intocável e imbatível mesmo contra o Estado e lhe faculta o direito sentenciar injustiças contra pessoas aparentemente injustas? Além disso, não seria responsabilidade do Estado ou de algum outro órgão cometer tais atos contra aqueles que são vistos fora da lei? Em que medida Kira não responde a uma privatização do direito público e do poder punitivo do Estado?

Para o jovem personagem do anime, sua posição de justiceiro é imbatível, posto que sua verdadeira identidade, Light Yagami, não poderia ser vista como má pela sociedade uma vez que corresponde ao estereótipo de um “bom menino” (é dedicado, inteligente, tem uma boa vida social, etc), mesmo que por trás disso tudo ele seja alguém que comete crimes em nome de um ideal particular de justiça.

 

“Ryuk (Shinigami): mas se fizer isso, você vai ser a única pessoa má no mundo

Light Yagami: não faço ideia do que você está falando. Sou considerado um dos melhores e mais brilhantes estudantes do Japão e eu vou me tornar o deus desse novo mundo!”

 

A história do anime tem seus lados fantasiosos, mas ainda possui vários aspectos que se assemelham ao atual cenário brasileiro, onde algumas pessoas se vem no direito de, em nome de um ideal próprio de justiça, cometer crimes contra aqueles que, por seu turno, cometem atos ilícitos e injustos. É o caso do tatuador Maycon Wesley e seu amigo, Ronildo Moreira de Araujo que, segundo a acusação da Polícia Civil de São Bernardo do Campo, torturaram um menor de idade acusado de roubar uma bicicleta de um deficiente, tatuando em sua testa “sou ladrão e vacilão”, gravando o ato para, posteriormente, postá-lo na internet. O incidente repercutiu nas redes sociais digitais dividindo opiniões sobre a ação do tatuador e do seu amigo. Ambos foram presos no passado dia 10 de junho e aguardam uma decisão da Justiça.

Mas o exemplo da tatuagem não é isolado. Muitos se lembraram do que ocorreu em 2014 quando a jornalista Raquel Sherazade, durante um programa televisivo emitido em rede nacional pelo SBT, incitou a violência ao concordar com a ação de “justiceiros” que lincharam um jovem acusado de assalto, amarrando-o num poste e agredindo-o a pauladas. “O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva. Aos defensores dos direitos humanos que se apiedaram do marginalzinho preso no poste, lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido”, disse a jornalista. Ainda em 2014 a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC) entrou com uma ação cível pública contra Sherazade e o SBT. Atualmente, o Ministério Público Federal pede uma retratação da jornalista e defende a revisão da sentença proferida em primeira instancia, que absolveu Sherazade e o SBT. Ironia ou contradição, a Justiça nem sempre parece ser justa com que faz apologia aos justiceiros.

Animes como Death Note trazem essa questão à tona e nos fazem refletir para onde caminhamos, uma vez que cada vez mais a prática dos ditos “justiceiros” é incentivada no Brasil e no mundo. Percebe-se que a tolerância e a empatia pelo próximo decaem na medida em que sentimentos de raiva e noções de uma falsa justiça ganham espaço. Uma sociedade ética é incompatível com o aplauso à ação de justiceiros porque estes ferem não só o Estado de Direito; estraçalham qualquer possibilidade de respeito à dignidade da pessoa humana e de uma ética verdadeiramente afinada com a ideia de justiça.

 

Referências

Dicionário de nomes próprios, Kira. Disponível em: <https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/kira/>. Acesso em 8 de maio de 2017.

Wikipedia, Death Note. Disponível em: >https://pt.wikipedia.org/wiki/Death_Note<. Acesso em 8 de maio de 2017

DEATH NOTE (anime). Madhouse, 2006

Folha de S. Paulo, Polícia prende dois suspeitos de tatuar ‘ladrão’ em rosto de adolescente em SP. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1892002-policia-prende-dois-suspeitos-de-tatuar-ladrao-em-rosto-de-adolescente-em-sp.shtml>. Acesso em 14 de junho de 2017

Pragmatismo Político, Discurso de Sheherazade prospera: crescem os linchamentos. Disponível em: <https://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/02/rachel-sheherazade-linchamentos-proprias-maos.html>. Acesso em 14 de junho de 2017.