Ética, sua danada!

por Luiz PERES-NETO

 

Fizemos umas férias não anunciadas. Entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017, o “Ética de Bolso” fechou para balanço. Férias que serviram para que pudéssemos recarregar as nossas baterias para encarar o novo ano acadêmico. Após o Carnaval, tem-se, por fim, a sensação de que 2017 irá começar. Fica, contudo, a percepção de que vivemos, nos primeiros meses deste ano, uma enorme ressaca moral oriunda de 2016. Os fatos políticos e sociais deste princípio de ano indicam que as discussões sobre ética estarão, como nunca, presentes nas nossas agendas. Se tivesse que apostar um tostão em algo diria que, pelo andar da carruagem, “ética” será uma forte candidata a palavra do ano em 2017.

 

Como foi amplamente divulgado pela mídia, o tradicionalíssimo “Oxford Dictionary” elegeu, no final de 2016, “pós-verdade” como a palavra daquele ano. Esse termo designaria, em síntese, o descolamento de fatos objetivos em prol de emoções e crenças pessoais na construção da opinião pública.

 

Com certeza, “pós-verdade” é um termo que representa bem tudo o que vivemos e vemos no Brasil e no mundo. Da vitória de Donald Trump às mentiras deslavadas de Eduardo Cunha (que o levaram ao cadafalso parlamentar), das manipulações mediáticas de cá e de lá, da fanfarronice que correu – e ainda corre – solta no Congresso Nacional ao bizarro flerte europeu com o fascismo, da miopia interessada de certos agentes do Poder Judiciário brasileiro ao desastre humanitário na Síria (como falar em direitos humanos?), do impedimento de uma presidenta democraticamente eleita sem a certeza retumbante e rotunda (fatos objetivos) da comissão de um crime ao exótico referendo pela saída do Reino Unido da União Europeia, servem como alguns exemplos para ilustrar como as crenças ou desejos pessoais muitas vezes se sobrepõem a fatos objetivos na construção de narrativas e fluxos de opinião. Não cabe aqui julgar os acontecimentos acima descritos. Seja como for, entendemos que há um importante elemento ético que permeia a tal “pós-verdade” em todos os exemplos citados.

 

Poderíamos ir além, muito além. Nunca antes na história da humanidade os fatos importaram tão pouco, prevalecendo, sobre os mesmos, os interesses seja de quem diz o que quer ou de quem escuta apenas aquilo que lhe apraz. E a ética, nesse contexto, fica subjugada a um mero acessório retórico, usado por uns e por outros como instrumento de defesa ou legitimação de seus próprios interesses ou moralidades.

 

Mais do que um termo em si, suponho que talvez a ideia de uma “pós-verdade” seja reflexo da crise ética que enfrentamos. Crise paradoxal. Invoca-se incansavelmente a ética ao mesmo tempo que se esvazia o conteúdo da mesma. Banaliza-se a ética. Precisamente por isso, ao menos para nós deste modesto Observatório, a ética deveria ser tratada como uma séria candidata à palavra do ano, em 2017. Ou, quem sabe, o esvaziamento da mesma. Sonoro seria: a “pós-ética”. Já pensou?

 

Muitos de nossos leitores concordarão. Nunca se falou tanto em ética. Ou da sua ausência. Mas, afinal, de que ética estamos falando? Como entender o que ética?

 

Afinal, o que é ética?

 

Uma definição bem simples e didática seria entender a ética como o terreno que pensa a moral. Esta última, por sua vez, seria a livre atribuição de valores às ações individuais. Ou seja, quando você decide se aperta ou não o botão da bomba atômica, a sua decisão será pautada por um conjunto de valores morais. Estes, em sentido mais amplo, repousam nos costumes (leia-se, cultura), nas convenções daquilo que a sociedade entende como justo ou injusto, adequado ou inadequado e têm um peso considerável na reflexão individual sobre o que seria ou não entendido como ético na hora em que você, na solidão do seu ser, meditaria – se preferir ser mais chique, use o termo livre-arbitrar – apertar ou não o dito cujo botão.

 

Mas nem tudo são flores. De ser fácil, bastaria com programar uma série de computadores com a lei moral “correta” e seriamos todos felizes para sempre. Já sabemos que as coisas não funcionam assim. Por quê? Ora, em primeiro lugar, porque não há uma verdade absoluta – o que não pressupõe aceitar a tal da pós-verdade, que fique claro. Requer aceitar o contexto no qual ajuizamos as nossas ações como parte fundamental da nossa ética. Pensemos num exemplo prosaico. No trânsito das grandes cidades brasileiras, muitas vezes, para dar passagem a uma ambulância, um motorista precisam fazer uso do acostamento ou ainda jogar o carro para as laterais, criando novos espaços onde não havia, o que seria contrário à ética da boa condução mas necessário para um bem maior. Isso, contudo, não deveria servir como uma carta branca a qualquer motorista, algo que lhe permitisse a justificação moral para toda e qualquer canalhice. Vide as motos e demais veículos que “colam” nas ambulâncias, apenas para ir mais rápido. Nem sempre é eticamente louvável sair do legalmente esperado ou do eticamente acordado. Apenas em casos excepcionais. Cabe a nós, humanos, arbitrar em favor dessas excepcionalidades.

 

 

O esvaziamento da ética

 

O diacho é que, no mundo contemporâneo, dominado pelo pouco apego aos fatos – eis a tal da “pós-verdade” de novo – o ser humano tem convertido a excepcionalidade em norma, a exceção em regra. A ética requer o difícil exercício de conjugar um juízo moral individual com a consciência do coletivo, do social. Pensar em si como sendo um outro. Arbitrar um valor moral para si contemplando a existência de um outro nem sempre igual a você (a tão propagada empatia?). Quando todos acreditamos que a ética que vale é a nossa e não a do outro, perdemos, definitivamente, o sentido primordial da própria ética.

 

 

A prostituição da ética: moralismos e crise.

 

Não são poucos os exemplos que nos remetem a um esvaziamento dos sentidos da ética. No Brasil contemporâneo, igrejas, partidos, movimentos ditos sem-partido, opinantes, a mídia, etc., têm advogado em prol de uma limpeza ética, em especial, no tocante à corrupção. Contudo, muitas das bandeiras levantadas querem tão somente a imposição daquilo que um determinado grupo entende por ético, vedando o exercício do diálogo e a meditação sobre um bem comum. Em síntese, assistimos ao apogeu do moralismo, a imposição de valores morais individuais às condutas dos outros, sem se preocupar com a diversidade ou com a natureza desse outro.

 

Quando se opta pelo atalho do moralismo confunde-se, inequivocamente, os sentidos e a função social da ética. Abre-se uma enorme brecha para a intolerância e cultiva-se, em nome “da moral e dos bons costumes” a canalhice própria da “pós-verdade”, daqueles que apenas se preocupam com as suas próprias verdades, deixando de lado os fatos, a dimensão humana dos mesmos e a oportunidade de refletir sobre eles. É, temos muito trabalho pela frente!