Homo ludens, livre arbítrio e dados pessoais: a ética dos jogos, quizes e testes on line

por Gustavo DAINEZI

Faça o teste e descubra quais são as suas coordenadas políticas. Com qual famoso(a) você se parece? Como você seria se tivesse nascido do sexo oposto? Como seria seu rosto 50 anos mais velho(a)? Frequentemente, testes, quizes, e outros tipos de convites, que buscam uma interação que vão do lúdico ao informativo, impactam nossos olhos no universo da web, em particular em sites de redes sociais como o Facebook.

Eles vêm quase sempre assim, sem muita pretensão. Uma publicação na timeline de um amigo, um link, um convite. Muitas vezes, vemos apenas um título chamativo e uma promessa instigante: descobrir alguma coisa inesperada, oculta ou interessante a partir de um tipo de informação ou tecnologia de que você não dispõe.

A porta de acesso a grande parte destes testes é um login, pode ser feito a partir do próprio Facebook, Twitter ou conta do Google. Um ou dois fáceis cliques e aceitamos, sem muita reflexão, termos de uso e políticas de privacidade. Quando nos damos conta (se é que o fazemos),consentimos a que um aplicativo ou site qualquer possa acessar nossos perfis, informações pessoais, lista de amigos, postagens, fotos, curtidas e comentários.

Em certos casos, como o que envolveu recentemente o Facebook e a Cambridge Analytica, tudo começou com um teste para descobrir a personalidade chamado “thisisyourdigitallife“. Milhões de usuários concordaram (cientes ou não) tanto com em ceder seus próprios dados como também as informações e chaves de acesso para os dados pessoais de todos os seus amigos. A respeito deste último ponto ainda não está claro se realmente os usuários que realizaram o teste foram os responsáveis pela cessão dos dados de seus amigos. O Facebook, institucionalmente, assegura que somente ele dispõe de acesso a este conjunto de dados e que apenas o utiliza para melhorar a performance dos usuários. Quando eclodiu o escândalo da Cambridge Analytica, poucas pessoas acharam esta política suspeita, até porque o teste de personalidade afirmava ter propósitos acadêmicos e não ficava claro o consentimento para capturar dados de terceiros.

Os desdobramentos dessa história são bastante conhecidos. Cerca de 50 milhões de perfis foram cedidos à Cambridge Analytica. Não se sabe ao certo, contudo, se os dados foram cedidos em sua totalidade ou se foi realizada uma análise sobre o perfil psicológico desses usuários e apenas depois os mesmos foram vendidos para campanhas políticas. Neste sentido é interessante aprofundarmos um pouco nas nuances deste caso. Tais dados revelam facetas muito íntimas dos usuários, seus gostos, preferências, medos, afetos alegradores etc, razão pela qual podem vir a ser extremamente eficazes para a construção de propagandas políticas baseadas nos mais profundos medos e inseguranças, o que supostamente foi realizado nos casos do Breixt e na campanha de Donald Trump à presidencia dos Estados Unidos.

Jogos, quizes e testes como o “thisisyourdigitallife” não têm como único propósito gerar informações interessantes sobre você a partir de um questionário. Servem, ademais, como potente meio para coletar tudo o que puderem da sua vida. Trata-se, é bem verdade, de uma prática corriqueira da indústria do marketing, tipicamente utilizada por programas de recompensa ou cartões de fidelidade desde os anos 30 do século passado. Porém, tem-se aqui um instrumento muito mais profundo e invasivo para a privacidade dos usuários. Se no contexto anterior um sujeito ao responder uma pesquisa na rua ganahava um brinde agora, ao responder uma pesquisa em um site de rede social o usuário poderia ceder, conscientemente ou não, todas as suas fotos, vídeos, contatos, posts, likes, interações, redes e uma série de informações que não conseguiriamos arrolar aqui (tamanha a lista) por tempo indeterminado e com direito a uso comercial.

Um teste que viralizou recentemente no Brasil, por exemplo, o “descubra como seria o seu rosto do gênero oposto”, requeria o acesso a todas as fotos dos usuários para uso indiscriminado (leia-se inclusive o uso comercial). Se você fez o teste, não sinta-se culpado. Não estamos falando disso. Não se trata de responsabilizar ou moralizar as nossas práticas on line. Pelo contrário. Defendemos, neste Observatório, o livre arbítrio do usuário. Que cada um possa fruir e usufruir das redes sociais digitais como bem quiser. Porém, não se assute se qualquer dia desses aparecer um outdoor na Rússia com fotos de seus amigos enormes com você anunciando uma marca de vódica e ninguém, nem você nem os seus amigos, ganharão um tostão. Ou ainda imagine que a sua imagem possa vir a ser usada indiscriminadamente numa campanha eleitoral de um candidato protofacista cuja ideologia é oposta à tua e aos seus valores.

Se colocar a sua foto num outdoor ou usar a sua imagem para fins políticos lhe parece algo ruim, há notícias ainda piores. Como em 99% das vezes nós não temos ideia de quem está por trás desses testes e jogos – como ficou comprovado no caso Cambridge Analytica – as nossas informações podem ser absolutamente transformadas e usadas contra nós das mais perversas maneiras. Imaginemos, por exemplo, que você queira solicitar um crédito bancário e, sem o seu conhecimento, o banco lhe negue em base a informações obtidas a partir de testes ou jogos em sites de redes sociais ou ainda que a partir dessas informações o seu crédito seja mais caro do que para mim pelos mesmos motivos de análise de dados pessoais (a.k.a. vigilância e profiling). Sem querer assustar o leitor que chegou até aqui neste post, imaginemos, por exemplo, como isso poderia afetar discriminatoriamente o setor de seguros, planos de saúde e afins. Pode parecer distópico, mas talvez não seja um futuro tão distante

 

Mas se meus dados já estão aí, pra quê me preocupar?

 

Muitas pessoas dizem que não devemos mais nos preocupar com os nossos dados pessoais posto que a privacidade acabou. Apenas nos restaria tentar barganhar algo em meio a uma política de fatos consumados. A percepção de quem me diz isso é a de que os seus dados já são posse de outrem, do Facebook, por exemplo, não havendo, portanto, necessidade de acrescentarmos mais uma preocupação na nossa vida já atribulada. Esqueça, dizem. Perdemos.

Para essas pessoas eu sempre respondo que há uma diferença fundamental entre ter os seus dados coletados por uma grande empresa, que deve dar constantes satisfações aos organismos governamentais e à legislação local, que nos mostrará o que sabe sobre nós, onde ou como podemos, por exemplo, apagar a nossa conta ou dispor do direito a controlar quais informações têm sobre nós e oferecer esses mesmos dados para uma pessoa ou empresa qualquer no mundo sem saber ao certo o que se está cedendo, sem ter controle ou a mínima possibilidade de exercer o seu direito em troca de uma foto sua de cabelo curto ou comprido, parece-me algo dificil de aceitar. Nada contra a curiosidade ou desejo de ver a sua foto de cabelo curto ou comprido, que fique claro. O busílis ético – que é o que nos importa – começa quando há embuste, engano deliberado ou omissão dos usos e apropriações que são feitas, sem qualquer possibilidade de exercício legal ou respeito pelos mais mínimos princípios morais.

Um agente anônimo que possua os seus dados não terá nenhuma obrigação moral ou legal em relação à sua vida. Ele vai vender suas informações por US$ 0,075 para cada comprador. Estes compradores irão usar o que sabem da sua vida para benefício próprio, como é de se imaginar. O que em muitos casos é perfeitamente lícito. O alcance da influência deles sobre você só dependerá da capacidade que tiverem de inferir coisas que te façam mais suscetível a esta ou aquela decisão de consumo. Isto pode envolver anúncios, compras impulsivas, posicionamentos políticos, o seu consumo de notícias ou até mesmo como você se sentirá ao longo do seu dia (nas eleições norteamericanas, uma das estratégias denunciadas pelos whistleblowers da Cambridge Analytica foi gerar diariamente ódio, raiva e medo na população).

Nada garante que você não será influenciado (a.k.a. manipulado) vilmente a partir de perfis feitos a partir dos seus rastros deixados na internet. Nada nem ninguém garante que um dia as suas contas não serão hackeadas ou o seu cartão de crédito clonado. Não existe vida 100% segura. Os riscos, como já dizia o sociólogo alemão Ulrich Beck, são parte inerente da vida na modernidade tardia nas sociedades capitalistas. Acredito, porém, que os nossos dados pessoais devem ser vistos e tratados por nós da mesma maneira como hoje em dia protegemos as nossas contas bancárias ou cartões de crédito. Quanto menos expusermos os nossos dados, menos riscos corremos de sermos manipulados e mais chances teremos de agir livremente de acordo com nossa própria vontade.