Ler ou não ler notícias no Facebook? Eis a questão levantada pela Folha de S. Paulo

por Sheila MAGRI

Com a afirmação primeira de que pretende usar de meios mais eficientes de divulgação de seu conteúdo jornalístico aos leitores, o jornal Folha de S. Paulo noticiou, no início de fevereiro, que deixará de publicar na sua página do Facebook. Uma decisão apoiada em um novo Projeto Editorial a ser implementado pelo jornal.

Não é de hoje que os jornais estão travando verdadeira batalha contra o Facebook. As matérias publicadas neste sentido trazem sempre um argumento ético referente a falsidade das informações, falta de checagem dos dados e a disseminação indiscriminada de conteúdo. Promovem estas discussões o The Guardian, o The New York Times , entre outros veículos.

As críticas têm como alvo a liberdade do Facebook de mudar o seu algoritmo para privilegiar a “entrega” de conteúdo dos seus usuários. Alguns veículos alegam que a empresa, por essa razão, não é transparente quanto aos seus critérios. Mas a disputa central presente na discussão destes jornais gira em torno do consumo de informação e da ética na divulgação e disseminação de conteúdo para atrair a atenção, fidelizar e engajar os usuários. Ou seja, o confronto está entre as “boas práticas profissionais” de produção de conteúdo, gerando credibilidade e o consumo de “conteúdo individual ou coletivo sem critérios objetivos”, mas emocionais e ganhando visibilidade.

Resta-nos entender também se a discussão sobre o conceito de pós verdade durante e após as eleições norte-americanas de 2016, que inclusive está mencionada na notícia publicada pela Folha de São Paulo, é realmente a consequência de demandas sociais que cobram a responsabilidade de atores midiáticos em relação às informações divulgadas. Existe no Brasil essa demanda social pela necessidade de um reposicionamento deontológico e epistemológico no campo do jornalismo?

Segundo Muniz Sodré, no seu capítulo sobre Eticidade, Campo Comunicacional e Midiatização (p.23. do Livro Sociedade Midiatizada de Denis Moraes) “não se trata de mera preocupação da Academia. A pergunta frequente sobre as possibilidades de democracia participativa na mídia ou sobre seus poderes de transformação social exige um esclarecimento preliminar quanto à natureza do poder da informação, quanto à sua especificidade”.

Percebe-se latente uma necessidade de estabelecer alguns parâmetros morais e legais para a produção e o consumo de informação nas redes sociais. Discussões foram levantadas na sociedade, mas giram em torno de questões de privacidade de imagem e de dados, segurança da informação, discursos abusivos, de bulling, racismo, gênero e de ódio e não necessariamente relacionadas ao fake news.

Muitas questões referentes ao futuro das redes sociais e o seu poder perante a sociedade e o mercado foram inclusive discutidas no Fórum Econômico Mundial de Davos que aconteceu no fim de janeiro, onde George Soros previu, em uma declaração polêmica, o fim do “império” do Facebook.

É neste contexto que a Folha de S. Paulo publicou a notícia sobre a sua saída do Facebook que repercutiu globalmente. O veículo explicitou a sua razão mercadológica para deixar de publicar conteúdo em sua página do Facebook (fato da mídia dificultar a entrega de suas notícias aos leitores) e construiu também um argumento de caráter ético para justificar a tomada da decisão.

A declaração oficial publicada pelo jornal, sob o título Folha deixa de publicar no Facebook, também afirma que: “As desvantagens em usar o Facebook como caminho para essa distribuição ficaram mais evidentes depois da decisão da rede social de diminuir a visibilidade do seu jornalismo profissional nas páginas de seus usuários. O algoritmo da rede passou a privilegiar conteúdos de interação pessoal, em detrimento dos distribuídos por empresas, como as que produzem jornalismo profissional. Isso reforça a tendência do usuário a consumir mais conteúdo com o qual tem afinidade, favorecendo a criação de bolhas de opiniões e convicções e a propagação das fake news. Além disso não há garantia de que um leitor que receba um link com determinada acusação ou ponto de vista terá também uma informação contraditória a essa”.

Ora, cabe aqui uma ponderação de que nem todas as informações divulgadas por empresas são obrigatoriamente autênticas, ainda mais aquelas que são pagas pelas empresas, impulsionadas ou patrocinadas pelo Facebook. Talvez, no âmbito da imprensa, esse fator da checagem seja mais rígido, mas não necessariamente cumprido em cem por cento dos casos e principalmente nos anúncios patrocinados por essas empresas jornalísticas. Ademais, é sempre pertinente lembrar os vínculos nem sempre claros entre empresas jornalísticas, grandes anunciantes e empresas do mercado financeiro. A grandes rasgos, a literatura acadêmica sobre a economia política dos meios não sustenta este argumento (Vide, por exemplo a obra “The politics of media policy“, de Des Freedman, Londres, Polity 2008).

Se olharmos sob o ponto de vista da alteridade, veremos que os 5,95 milhões de seguidores da Folha de S. Paulo no Facebook no Brasil sequer foram consultados pelo veículo. A partir desta decisão, eles terão menores chances de acesso às suas notícias dentro da rede social. Então, o quanto a medida do jornal é efetiva para o combate ao fake news? E se esses seguidores do jornal quisessem, em sua maioria, continuar a ter a possibilidade de checar o conteúdo através da página do jornal no Facebook? Agora foram privados desta possibilidade, pelo menos em tese, e de maneira monocrática.

Outro ponto interessante é que profissionais de marketing digital comentaram nas redes sociais que a decisão de não publicar o conteúdo numa página empresarial não muda muita coisa, uma vez que os links para as matérias do jornal ainda poderão ser compartilhados pelos usuários do Facebook que provavelmente acessam o conteúdo por outras formas. Então, sendo assim, nem a própria Folha tem o controle sobre a circulação de seu conteúdo através do Facebook, mesmo depois de “abandonar” a plataforma.

A notícia também traz a questão de os usuários preferirem o consumo deste tipo de conteúdo em detrimento de conteúdo jornalístico. Fica claro que o Facebook está se tornando um espaço de disputa por conteúdo informativo, onde os jornais estariam concorrendo com os próprios usuários e estes estariam sendo beneficiados pela plataforma. Assim, se faz necessária uma aproximação teórica entre os estudos midiáticos da cultura participativa com o campo linguístico discursivo para se refletir sobre formas potencialmente mais democráticas no exercício da produção e divulgação de conteúdo na contemporaneidade.

A ética de um discurso ou um discurso de ética?

“As dinâmicas colaborativas em rede são potencialmente ao mesmo tempo as novas ferramentas para a reinvenção do jornalismo e o aspecto deflagrador da crise em relação ao modelo anterior: centrado num núcleo de produção e difusão de informações, com relativo controle sobre sua circulação. É esse modelo que legitimou e institucionalizou o campo jornalístico na sociedade ocidental, fazendo dos comunicadores tanto manipuladores quanto manipulados, conforme a já clássica caracterização de Pierre Bourdieu (1997)”, afirmam Pedro Henrique Varoni de Carvalho e Francisco Rolsfen Belda em seu artigo Multiparcialidade, dialogia e cultura participativa como reação à pós-verdade: uma abordagem discursiva sobre o jornalismo, publicado na Revista do Programa de Pós Graduação da Universidade da Paraíba.

Cabe mencionar aqui o clássico conceito de agenda setting, que define a influência da agenda da mídia sobre os temas que estão na agenda do dia, da sociedade. Houve por parte da Folha de S. Paulo a escolha de divulgar a sua decisão por meio de notícia publicada pelo jornal. Vale refletirmos sobre os critérios da seleção desta notícia publicada pela Folha e replicada por vários jornais internacionais.

O agendamento ou agenda setting é “mais do que a clássica asserção de que as notícias nos dizem sobre o que é que devemos pensar. As notícias dizem-nos também como devemos pensar sobre o que pensamos. Tanto a seleção de objetos para atrair a atenção como a seleção de enquadramentos para pensar sobre esses objetos são tarefas poderosas do agendamento (McCOMBS; SHAW, 2000b, p. 131).”

Sendo assim, também não se pode descartar a hipótese de que usando este gancho polêmico da sua “saída do Facebook” e levantando toda discussão sobre o fake news e a imparcialidade da notícia, a Folha de S. Paulo também divulgou para o mundo os outros caminhos, que considera mais eficientes para o acesso ao seu conteúdo, como fica claramente exposto na notícia, inclusive com a presença de infográfico de como acessar o conteúdo da Folha em outros canais e de um anúncio revelando o custo da assinatura digital do jornal, colocado ao fim da notícia.

De qualquer modo, uma análise ética sobre os pontos expostos pelo jornal implicaria uma discussão ampla na sociedade e que abordaria pelo menos estas três perspectivas: a ética na produção de conteúdo para as redes sociais, a ética na distribuição de conteúdo (transparência dos algoritmos) e o caráter ético da escolha do usuário para produção, consumo e o compartilhamento de conteúdo. Para cada uma destas perspectivas, caberia um tratado. Mas há entre elas uma questão central que é a reflexão acerca dos diversos modos de leitura e entendimento dos usuários acerca destas formulações sobre ética.

O quanto nós, enquanto usuários das redes sociais, estamos efetivamente preocupados com esses pontos? Quanta clareza temos em relação ao nosso próprio olhar ético antes de fotografar, publicar, curtir, comentar e compartilhar nas redes sociais? Ou mais do que isso, que leitura fazemos desta notícia? Seria ela a própria pergunta que a imprensa estaria se fazendo sobre seu próprio papel?

Fica aqui a sugestão de Umberto Eco, dita durante uma entrevista de divulgação de seu último romance, “Número Zero” para o jornalista Juan Cruz do El País cuja tema é um jornal criado não para divulgar notícias, mas para servir de instrumento de chantagem entre grupos econômicos e políticos. No mesmo, ele chamava a atenção para a necessidade de reinvenção do jornalismo em meio à inflação informativa de fontes não confiáveis a que somos submetidos cotidianamente. Ele diz: “O jornalismo poderia ter outra função. (…) Um jornalismo que me diga: “Olha o que tem na internet, olha que coisas falsas estão dizendo, reaja a isso, eu te mostro”. (…) teria que se fazer um jornal que não fosse apenas a crítica da realidade cotidiana, mas também a crítica da realidade virtual. Esse é um futuro possível para um bom jornalismo.”

Sob este prisma, também não estaríamos lendo matérias sobre as críticas ao fake news (notícias falsas), mas consumindo conteúdos sobre a checagem das fake news.

Crer ou não crer nas leituras por nós consumidas. Eis a nossa verdadeira questão.

 

Referências:

BACCEGA, Maria Aparecida (Org.). Comunicação e culturas do consumo. São Paulo: Atlas, 2008 (Ebook

BARROS FILHO, Clóvis. Ética na Comunicação. São Paulo: Summus,2003

CARVALHO, Pedro Henrique Varoni de e BELDA,Francisco Rolsfen – Multiparcialidade, dialogia e cultura participativa como reação à pós-verdade: uma abordagem discursiva sobre o jornalismo Ano X, n. 18 – jan-jun/2017 – ISSN 1983-5930 – http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/cm 230

 

ECO, Umberto. Entrevista concedida a Juan Cruz. A Internet pode tomar o lugar do mau jornalismo. In: El País. https://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/26/cultura/1427393303_512601.html

MORAES, Dênis (org.) Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.

PERES-NETO, Luiz – Ética, comunicação e consumo: apontamentos a partir do estudo da privacidade. http://www.compos.org.br/biblioteca/compos-2015-514aa48d-0e6d-4b2d-9fda-c01118140487_2810.pdf

SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2002.

McCOMBS, Maxwell; SHAW, Donald. A função do agendamento dos media. In: TRAQUINA, Nelson. O poder do jornalismo: análise e textos da teoria do agendamento. Coimbra: Minerva, 2000a.