Líder de si mesmo: emancipação ou servidão tecnologicamente compartilhada?

por Sheila MAGRI

Há um tema que me inquieta há tempos. Trata-se do consumo do discurso da autoliderança, que é representada na imagem do líder de si. Proponho sua reflexão a partir da perspectiva da ética. Partirei de alguns enunciados relacionados aos ideários de liderança com o intuito de mostrar, sucintamente, como um emaranhado de proposições acaba por se transformar em “procedimentos de produção de verdades” que são consumidas por meio de discursos (FOUCAULT 2017, p.63).

Sobre as formações discursivas em torno da autoliderança (veja exemplo aqui) nota-se, seja nas mídias, seja nas prateleiras da seção de autoajuda das livrarias (veja exemplo aqui), a produção crescente de enunciados que a constroem como um modo de ser que traz consigo a promessa de sucesso a partir de uma legitimidade conquistada pelo autocomando. Trata-se de um “modelito de identidade”, envelopado em um discurso, consumido enquanto atributo de competência e compartilhado no meio empresarial como o sucesso de ser um líder autocontrolável. O discurso da autoliderança mescla a eficiência e a autogestão a partir de uma unificação da “inteligência racional e emocional”, além de apelarem para o cuidado de si, bem como de suas expectativas e planos pessoais e de carreira. Algumas reportagens destacam a capacidade destes líderes para uma espécie de autodidatismo, usando exemplos de personalidades famosas, com uma abordagem ao mesmo tempo aspiracional e prescritiva (veja exemplo aqui).

 

“Um líder é um vendedor de esperança”. Napoleão Bonaparte

 

Estes enunciados reforçam o modelo do gestor de si, além de agregarem outro ideário que promove um sutil incremento e um deslocamento de sentido no discurso. Do gestor de si, passa-se ao líder de si. Líder é aquele que exerce a autoridade sobre a equipe, a qual lhe foi delegada pela empresa. Portanto, o exercício do comando aconteceria perante um grupo e era legitimado pela organização. Ele se diferencia do chefe pela atitude exemplar. Enquanto o chefe usava da coerção, o líder usa da argumentação. Entretanto, agora a liderança também é exercida individualmente, independentemente de uma autoridade atribuída pela empresa e reconhecida por muitos.  O líder de si serve à sua capacidade de liderar a si mesmo. Segundo Lazaratto (2011, p.32) “o que agora é exigido dos indivíduos não é a garantia da produtividade do trabalho, mas a rentabilidade de um capital (de seu próprio capital, de um capital inseparável de sua própria pessoa).”

Entendemos que a figura do líder construída historicamente é acompanhada da ideia de um indivíduo governando os demais. Para Aristóteles, líderes e liderados seriam considerados termos correlatos duplos. Em seu livro Categorias, o filósofo propõe que o senhor somente é senhor de um servo e um servo somente é servo de um senhor. Sem servo, não há senhor e vice-versa. É uma relação de reciprocidade e de coexistência. Segundo definições do dicionário, o líder é a pessoa que exerce autoridade e poder para comandar os demais. Já o ideário do líder de si mesmo está liberado das correlações entre governantes e governados, entre senhores e servos, patrão e empregado, chefe e funcionário, gestor e analista. A valorização percebida de imediato é da competência sobre si e não sobre uma equipe, ou mesmo sobre o gerenciamento das relações de domínio e poder. O ideário da autoliderança parece mais se aproximar de um certo orgulho de ser um indivíduo livre para escolher, mas que faz as escolhas certas, aquelas geradoras dos melhores resultados, cuja contabilidade conferirá à sua própria performance o status de vencedora. Mas como será mensurada a performance que funciona como prova da competência de um líder de si?

O líder de si precisará de um medidor confiável, imparcial e isento, racionalmente criado para a medição de sua produtividade. E a tecnologia já responde a essa demanda. O monitoramento de si mesmo por aplicativos (Quantified Self) e o monitoramento realizado pelas empresas já são uma realidade, como tratou post da pesquisadora Marília Duque Pereira, aqui no Ética de Bolso. Cabe então matizar: quais os critérios que calibrarão estas métricas de desempenho? Serão eles imparciais, desumanos, sobrehumanos? Serão os líderes de si consumidos eles mesmos nesse processo? É aqui que se abre espaço para ética, que neste caso pode ser ajuizamento e resistência ao mesmo tempo. Como nos sugere Deleuze (2017), podemos negociar diante dos agenciamentos coletivos de enunciação, Podemos decidir se iremos nos impor a nós mesmos a régua tirânica da opressão tecnológica, sujeitando a nossa liderança sobre nós às metas previamente definidas pelo mercado ou não. Como diria La Boétie, “só há tirania, onde houver servidão voluntária”.

 

Referências

 

ARISTOTELES Organon – I Categorias. Lisboa Guimarães Editores, Lda, 1985.

BACCEGA, Maria Aparecida (Org.). Comunicação e culturas do consumo. São Paulo: Atlas, 2008

CHAUÍ. M.  A ideologia da Competência, São Paulo: Autêntica, 2016.

DELEUZE, Gilles. Post Scriptum sobre a sociedade de controle. In: Conversações, 1992.

_______________ Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

 

DELEUZE, G.; PARNET, C. Diálogos – São Paulo: Escuta, 2017.

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I – A Vontade de Saber. Petrópolis: Vozes, 2017.

LAZZARATO, M. O Governo das Desigualdades: crítica da insegurança neoliberal. São Carlos: Edufscar, 2011.
LA BOÉTI, E.– Discurso sobre a Servidão Voluntária. São Paulo: Brasiliense, 1982