Miss Universo e a imposição do corpo “perfeito”

por Gabriela PEREIRA e Raquel HADLER

O Miss Universo, maior concurso de beleza do mundo, é realizado desde 1952 e retrata um padrão esperado da mulher contemporânea: magra, sorridente, jovem e atualizada. Este concurso é um dos muitos exemplos existentes de marco social que contribui para a imposição tanto de um padrão de beleza feminino, que é inalcançável para a maioria das mulheres, quanto de um modelo “correto” de feminilidade.

De acordo com o regulamento, para concorrer é preciso ter entre 18 e 28 anos, ser solteira e não ter filhos. Também é vetada a participação de mulheres que já tenham sido casadas ou que estejam grávidas. Devido a tais imposições, essas regras nos mostram o que é esperado de uma mulher casada, separada, madura ou que é mãe, delimitando seu papel e seu lugar na sociedade.

A autora Simone de Beauvoir (2009) foi uma das primeiras pessoas a defender a ideia de que ser mulher ou ser homem não é uma imposição biológica e sim uma construção social e cultural. Dessa maneira, a mídia tem um papel muito importante nessa construção, uma vez que é uma das esferas que produz e propaga certos padrões de gênero. A mídia como um todo contribui para o nosso aprendizado do que é ser homem ou mulher, influenciando nos padrões de beleza e de comportamento de cada época.

Nesse sentido, podemos dizer que concursos de beleza como o Miss Universo contribuem fortemente para diferenciar o que é ser homem ou mulher, como também para delimitar o papel de cada um na sociedade. O fato de não existir um concurso semelhante[1] para homens é muito representativo no que diz respeito aos ideais de masculinidade e feminilidade, pois enquanto a mulher é medida pela beleza, o homem é medido pela força e/ou inteligência.

Claro que nos últimos anos algumas atualizações importantes foram feitas no concurso, atualmente é permitida a participação de mulheres trans e não há restrições em relação ao corpo da mulher (peso, altura, medidas), porém não é difícil percebermos que ainda há um longo caminho a ser percorrido. Apesar de ser um evento que afirma “celebrar a diversidade” e que conta com a participação de mulher de diversas etnias, existe um padrão hegemônico entre as mulheres que levam a coroa para casa (brancas, altas, magras, cabelos lisos).

Em relação ao corpo feminino, apesar de não ter restrições no regulamento acerca desse tema, recentemente pudemos testemunhar como uma participante, que foge de alguma maneira dos padrões hegemônicos de beleza, pôde causar estranhamento. Na edição de 2017, que aconteceu há algumas semanas, a candidata canadense Siera Bearchell recebeu diversas críticas em relação ao seu corpo, por supostamente estar acima do peso esperado em uma competição como essa.

Diante das críticas, Siera Bearchell ganhou a simpatia de diversos internautas ao se posicionar nas redes sociais, deixando claro que estar acima de um peso, que é irreal para o seu biótipo, é irrelevante frente à sua aceitação pessoal. Uma questão para refletirmos é que provavelmente não seja muito difícil para a canadense se aceitar, pois mesmo acima de um peso imposto como ideal, sua beleza natural se enquadra dentro dos padrões hegemônicos. Como será que Siera Bearchell se sentiria se além do peso tivesse diversas outras características físicas que não se enquadrasse nesses padrões, como acontece com milhares de mulheres?

Para responder a questão acima não podemos apontar relações diretas, mas estabelecer conexões sobre como nosso contexto sociocultural está estruturado e, então, discutir que não é à toa que muitas pessoas ficam reféns dos modismos nas dietas, ginásticas ou afins; não é por acaso que observa-se um aumento na vendas de antidepressivos nos últimos anos. A busca por aceitação torna-se humanamente insustentável quando a beleza feminina, que se cultua na sociedade, é inatingível para a maioria das mulheres, ainda mais em um momento em que a obesidade cresce no mundo todo.

Um estudo recente sobre o corpo das participantes do concurso “Miss Universo” apontou para o fato de que enquanto o índice de massa corporal das ganhadoras diminuiu, desde a primeira edição até as mais recentes, o fenômeno inverso foi constatado entre as americanas da mesma faixa etária. Por mais que as correlações não indiquem uma causalidade direta, apontam para o fato de que enquanto as mulheres engordam, a referência posta em seu imaginário está cada vez mais magra. Ou seja, está posta uma situação para lá de esquizofrênica, encarada por muitos como algo trivial que a nossa cultural midiática reflete e refrata.

Frente a esse contexto também não podemos esquecer que somos fruto do nosso tempo, e aí incitamos outro ponto para reflexão: é possível combater os ‘jurados’ que se interiorizam dentro nós e nos influenciam, mesmo que muito sutilmente, em nossas escolhas de consumo material e simbólicas?

A história da canadense nos mostra que existem algumas brechas para questionamentos. No entanto, essa mesma narrativa evidencia que, mesmo cientes de como somos moldados, muitas vezes ainda optamos ficar dentro desse enredo.

 

[1] O concurso para escolher o “Mister Universo” apenas passou a existir em 2008 e não conta com um regulamento similar, nem tampouco com a mesma repercussão do concurso para a escolha da “Miss universo”.