Notas sobre Respeito: meu pai estava errado (e eu também).

por Marília DUQUE PEREIRA

Há cerca de um ano, escrevi, a pedido da Revista Época Negócios, um artigo sobre boas práticas no gerenciamento de comunidades em redes sociais. Comecei o texto relembrando o ensinamento de meu pai de que todos os 10 mandamentos poderiam ser substituídos por uma única prática. “Não faça com os outros aquilo que você não gostaria que fizessem com você”, ele dizia, acreditando que estava assim sendo respeitoso com o próximo. Meu pai está errado e, juntamente com ele, também me equivoquei por anos, tomando sua máxima como um primeiro passo para a empatia.

Foi Sennett, em seu livro Respect: The Formation of Character in a World of Inequality (2003), quem mudou minha percepção sobre o agir respeitoso em sociedade e entre desiguais. Compartilharei brevemente alguns pontos que aprendi com ele. Confesso que, se o faço, é na tentativa de me desculpar pelo meu equívoco anterior. Antes, contudo, cabe uma advertência: sei que o tema do respeito e da empatia são caros à filosofia moral e política. Aqui, entretanto, privilegiarei a perspectiva de Sennett por ter sido ela a responsável pela minha própria mudança de perspectiva.

Em Sennett, é importante entender que respeito é algo que você pratica com os outros em sociedade, mas é também algo que se conquista através de certas ações. Trata-se, pois, também de um atributo de caráter concedido ao homem público. Sim, estamos falando de ética, do homem bom ou, em outras palavras, do cidadão respeitável. Sennett identifica três fatores valorizados na sociedade atual e relacionados com o reconhecimento desse atributo de caráter: 1) o autodesenvolvimento ou potencial para o desenvolvimento de habilidades e competências capazes de promoverem o ingresso do indivíduo em uma aristocracia natural, baseada em talentos; 2) o autocuidado com o corpo capaz de fazer a manutenção da autonomia do indivíduo o qual não será, por isso, um fardo para o outro; e 3) a reciprocidade como contribuição ou contrapartida para a sociedade, seja em forma de caridade ou doação ou retribuição à posição conquistada pelo indivíduo.

Dos três atributos, é a reciprocidade que dialoga diretamente com o equívoco de meu pai. Camus, no livro A queda (1956), já tratava da ajuda ao próximo como estratégia para a construção do status de cidadão respeitável. Em sua narrativa, Jean Baptiste Clemente conquista status e prestígio através de suas ações com o próximo, aquele que na verdade despreza, em um exercício de autopromoção que tem como fim sua própria reputação e satisfação.

“Quando me ocupava de outrem, era pura condescendência,
em plena liberdade, e todo mérito revertia a meu favor:
eu subia um degrau no meu amor a mim mesmo”

Sennett alerta para esse desvio posicionando-o na discussão sobre programas assistenciais e sobre as ações caridosas na sociedade contemporânea. Segundo ele, essas contrapartidas, seja por parte do estado ou do cidadão de bem, podem ser um mecanismo para a instrumentalização da desigualdade e do desrespeito, além de eficientes na autopromoção daquele que está na posição de fazer algo por alguém. Isso porque a caridade tem um caráter positivo, quando se configura em um ato empático que considera a necessidade do outro e o reconhece em sua diferença – se dialogarmos com Nancy Fraser, esse reconhecimento pode inclusive culminar em justiça, quando empregado no recredenciamento do status do indivíduo para uma paridade participativa em sociedade. Entretanto, essa mesma caridade pode também se configurar como uma forma de manipulação e de alienação do outro como sujeito. No jargão da ética, diríamos que se trata do chamado “egoísmo moral”.

Nesta direção, Sennett retoma um argumento de Mary Douglas de que mesmo o presente (a dádiva, a doação) mais livre de intenções pode depreciar a autoestima e o respeito consigo da pessoa que o recebe como caridade. Porque, ao recebê-lo, a pessoa contrai o fardo da gratidão. E, na falta de outro recurso, a pessoa que recebe um presente pode não ter outra alternativa senão retribuí-lo com sua submissão. Além disso, a caridade é um mecanismo de alienação quando não considera as necessidades da pessoa que a recebe, excluindo dela o direito de um ajuizamento ético sobre o que é bom para si mesma (p. 149).

Voltemos então à máxima de meu pai: “não faça com os outros aquilo que você não gostaria que fizessem com você”. O que meu pai está dizendo é que tratar o outro a partir da sua perspectiva, de seus valores, de seu ajuizamento sobre o que é bom e o que é prioritário, é um ato respeitoso. A bem da verdade, hoje vejo, não há nada mais opressor e autoritário do que considerar que para o outro basta aquilo que vale para você. Ou, em outras palavras, assumir que sua ética é universalizável (a tal ponto de ser alçada como sinônimo do bom ou do bem comum) é justamente o que invalida qualquer agir respeitoso com o outro, principalmente com um outro que lhe é diferente ou que está em uma posição de desigualdade tal que o impeça de enunciar seus próprios valores ou de se credenciar como cidadão de direito.

O respeito ao qual Sennett se refere é um respeito com o outro, em um exercício performado junto, que reconhece o outro como um ser que, ainda que diferente ou desprovido, é um ser capaz de discernir sobre si e de participar ativamente sobre os possíveis caminhos abertos para ele pela sociedade.

Novamente aqui, Nancy Fraser é uma ótima companhia para quem quiser ampliar a discussão sobre os meandros éticos da teoria moral do reconhecimento. Ou ainda, em outro âmbito, com Nico Carpentier, é possível se aprofundar sobre as diferenças entre acesso, interação e participação e suas consequências para a inclusão ou exclusão em sociedade. Entre uma leitura e outra, que meu pai me perdoe o remendo, mas não faça com os outros aquilo que você não gostaria que fizessem com você. Coloque-se no lugar desse outro, reconheça seu direito de participação e, se possível, construa com ele algo que lhe garanta o exercício da ética.

 

Referências:

FRASER, Nancy. Reconhecimento sem ética? Lua Nova, São Paulo, 70: 101-138, 2007

SENNETT, Richard. Respect: The Formation of Character in a World of Inequality. Penguin Books, 2003.

CAMUS, Albert. A Queda. Best Bolso, 2008.

CARPENTIER, Nico. The concept of participation. If they have access and interact, do they really participate?  Revista Fronteiras 14(2): p. 164-177, maio/agosto 2012.