O discurso meritocrático e o esporte no Brasil

por Debora SACOMANI

A Olimpíada de 2016 trouxe com ela um sentimento de patriotismo. O “espírito olímpico” tomou conta do país durante os jogos, onde todos assistiram, torceram e vibraram juntos a cada novo jogo, a cada nova medalha, comemorando o feito de cada um dos atletas brasileiros que subiram ao pódio. Dentre muitas questões que inflamaram as redes sociais e a opinião pública, essa Olimpíada colocou em pauta, no Brasil, uma certa ideia de meritocracia muito mostrada pela mídia, onde classe social e etnia não importavam tanto quanto o esforço pessoal para se alcançar os objetivos buscados.

Durante os jogos não faltaram reportagens em toda parte, destacando muito nomes como Rafaela Silva ou Isaquías Queiróz, negros e de origem pobre, que conseguiram, através do esporte, representar cada brasileiro trazendo muitas medalhas para o Brasil, através de muita luta e sacrifício pessoal. Essa é a ideia do “self made man” tão presente na sociedade contemporânea, onde a imagem de batalha e sofrimento para se atingir os objetivos é extremamente valorizada. Este tipo de visão desconsidera fatos sociais e raciais de cada atleta, passando a falsa ideia de que qualquer um consegue atingir tais objetivos, desde que se esforce o suficiente para isso.

O esporte tem seu caráter elitista desde sua mais remota origem, como a caça e a as corridas de cavalos, símbolos de atividades esportivas que eram restritas à aristocracia. Porém não é necessário ir tão longe para compreender o elitismo embutido no mesmo. As práticas esportivas que, em tese, teriam o caráter de inclusão e união, no mundo de carne e osso representam uma nítida divisão, como é possível comprovar a partir da circunscrição de certos esportes como hipismo ou golfe às classes mais abastadas, o que os faz “esportes de rico”, deixando claro sua invisibilidade a grandes parcelas da sociedade, principalmente por serem modalidades cujo acesso depende de altos dispêndios econômicos, o que exige bem mais do que esforço e talento pessoal para se alcançar algum tipo de sucesso. Até mesmo esportes considerados mais baratos, por não exigirem nenhum tipo de equipamento especial, como o futebol ou o judô, por exemplo, estão sujeito a exclusão socioeconômica. Um atleta de classe baixa, da periferia, poucas vezes terá a mesma chance que alguém da classe media ou alta, que tem disponível mais tempo para treinos e mais recursos para investir em sua trajetória profissional.

As representações midiáticas construídas em cima da conquista da atleta Rafaela Silva geraram grande repercussão tanto na mídia como nas redes sociais. Inúmeros memes que exaltam a ideia de meritocracia circularam com grande potência, afirmando que Rafaela Silva nunca precisou de cotas ou de ajuda do governo federal para chegar aonde chegou. Informação extremamente precipitada, que pretende unicamente jogar mais lenha na fogueira da disputa ideológica sobre a tal meritocracia. Como é sabido, a judoca brasileira foi beneficiária tanto de programas do governo federal, como o bolsa atleta ou do programa de apoio à atletas de alto rendimento do Exército como também do decisivo apoio de entidades não governamentais, como o Instituto Reação.

Outro grande exemplo de enquadramento midiático usado para construir uma narrativa do “batalhador brasileiro” e da meritocracia durante as Olimpíadas se deu em torno ao atleta Isaquías Queiróz, que virou herói nacional ao conquistar 3 medalhas para o Brasil na canoagem. Também beneficiado por programas do governo federal como o bolsa atleta, a mídia destacou o seu discurso político após as suas conquistas, no qual destacava a falta de incentivo do Brasil ao esporte, os problemas junto às entidades e confederações e que, apesar de existir alguns programas de inclusão – inclusive os que ele participou – estes ainda são bastante precários na medida em que são poucos e de um alcance mínimo, deixando o esporte inacessível para uma grande parcela da população, que muitas vezes não tem recursos suficientes para se manter na carreira de atleta.

A grande desigualdade socioeconômica que ainda perdura no Brasil tem graves consequências em todas as áreas, inclusive no esporte. Não é possível discutir seriamente a meritocracia enquanto as oportunidades não forem as mesmas para todos. São inegáveis os méritos pessoais de atletas como Rafaela Silva e Isaquías Queiróz assim como muitas de suas críticas ao escasso apoio institucional e, principalmente, a ausência de uma política pública de inclusão social massiva via esportes, que auxilie o combate às desigualdades e democratize o acesso às práticas desportivas.

A despeito disso, a ideia de meritocracia no esporte construída e representada pela grande mídia durante as Olimpíadas ignora ou invisibiliza partes importante das historias de vida de atletas, lidando com uma visão extremamente maniqueísta, elitista e simplista, de que todos nós possuímos as mesmas oportunidades, utilizando-se de exemplos de alguns atletas que conseguiram conquistar o sucesso em meio a um contexto desfavorável e excludente para exemplificar – e reificar – essa visão. Trata-se de uma clara ideia de representar o todo pela exceção. É um discurso contraditório na medida em que a mesma elite, que exalta a imagem de guerreira da Rafaela Silva, critica os programas sociais feitos pelo governo, tentando de certa forma mascarar a nítida relação entre um feito e outro.