O estigma das baratas e o instinto de sobrevivência

por Marilia PEREIRA

Então você passou as férias no Netflix, assistindo a séries e gerando metadados sobre a sua pessoa? Bom, nós também. E o resultado você confere num Especial Black Mirror de Bolso, com posts dedicados à reflexão sobre a série. Para nossa sorte, os episódios são independentes e podem ser assistidos de forma aleatória. Igual aos nossos posts. O quinhão que me coube foi o episódio 5 da temporada 3, traduzido como “Engenharia Reversa”, mas você provavelmente vai se lembrar dele como o episódio das baratas. Não assistiu ainda? O bom de um blog de ética é que a gente não pondera, nem escolhe por ninguém. Mas, neste caso, temos algumas propostas pra você:

 

  1. Assista e volte depois para ler este post
  2. Vá até o final desse post e leia a sinopse (mas depois não vem reclamar do spoiler)

Tudo pronto? Então senta que lá vem textão!

BlackMirror

Um bom começo para pensarmos sobre a decisão de delimitar uma sub-raça é a noção de estigma, amplamente explorada por Goffman, em cuja obra “Estigma – Notas Sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada” me baseio a seguir. Criado pelo gregos, estigmas eram marcas impressas no corpo das pessoas para sinalizar um julgamento moral sobre seus status: escravos, criminosos e traidores eram assim prontamente identificados em público, o que facilitava que o contato com eles fosse evitado. Mais tarde, na era cristã, o termo incorporou também anomalias físicas. E, de lá pra cá, ampliamos ainda mais esse conceito. Tratamos como estigmas diversas condições que fogem à normalidade aceita culturalmente ou que acionam estereótipos pejorativos, como o suicida, o desempregado, o obeso, a prostituta, a loira e, bem, essa lista é extensa.

O estigma segrega e mapeia as pessoas a partir de certos atributos, mas também funciona como uma estratégia de sobrevivência social. Goffman explica: reconhecer certos sinais (desde a vestimenta até as marcas nos pulsos de um ex-suicida) faz com que possamos elaborar uma ideia de quem está à nossa frente e de qual a maneira mais adequada de nos comportarmos na interação com este alguém. Sim, categorizamos para sobreviver e o fazemos de modo quase automático. E o que há de mal em lermos as informações sociais e tirarmos proveito delas, não é mesmo? Bom, vejamos.

Ao contrário dos símbolos de prestígio, os símbolos de estigma são um atributo negativo, depreciativo e o ponto principal aqui é que, uma vez identificados, eles tendem a contaminar toda a identidade do indivíduo. Ao estigmatizarmos o outro fazemos um julgamento não do que ele é, mas da expectativa não preenchida do que ele deveria ser (de acordo com o padrão de normalidade e pré-noções esperados de alguém daquele tipo, naquele ambiente, naquela circunstância). O estigma confere um caráter estereotipado e potente que se sobrepõe a outras características e virtudes, desconsiderando o retrato global do indivíduo e reduzindo seu valor como ser. Então estigmatizar o outro é uma ação antiética, per se? Rotundamente, sim. Aristóteles defende que o caráter de um homem deve ser julgado a partir do modo como ele interage com o mundo e com as pessoas, como ele responde às encruzilhadas morais que se apresentam a todos nós nesse nosso dia a dia doido e atordoante. Como respondemos a elas? De modo virtuoso ou com uma postura duvidosa? Mas, principalmente, esse julgamento não deve ser maniqueísta ou reducionista. Um deslize não invalida uma vida de virtudes por mais que as redes sociais trabalhem nessa direção (já escrevi sobre isso antes[1]). O caráter, como o retrato definido por Goffman, é um atributo global conquistado por um indivíduo através da vida. Dito isso, voltemos às baratas.

 

Engenharia reversa e genética às avessas.

BM 2

Goffman identifica 3 tipos de estigmas: abominações do corpo, culpas de caráter e tribais (estas últimas advindas de raça, nação e religião as quais contaminam toda a linhagem). E o que Black Mirror faz? Sem economia, combina todos eles nas baratas. De uma só vez elas adquirem deformações faciais (induzidas pelos implantes), carregam a culpa de serem potencialmente doentes e assumem o status de uma sub-raça cuja reprodução pode comprometer a própria humanidade.

Todos esses atributos, argumentos para seu extermínio, são, entretanto, derivados de uma triagem genética. E por que isso consegue ser ainda mais absurdo que o genocídio dos judeus pelo projeto nazista de uma raça pura? Os judeus não tinham um potencial para serem judeus. Eles eram judeus e esse foi o atributo real pelo qual foram, em dado momento deplorável da história, estigmatizados. Em Black Mirror, as baratas são estigmatizadas por uma probabilidade de desenvolverem um estigma: o estigma da doença [alerta antes de continuar: certifique-se de que ficou claro para você que eu não estou dizendo que porque ser judeu é uma condição real ela é passível de estigma e extermínio, ok?].

A geneticista Dra. Carla Pinto esclarece: “Genética, definitivamente, não é destino. Ter um gene que predispõe a uma anomalia não determina, necessariamente, que você desenvolverá a doença. A epigenética por exemplo nos diz que, de acordo com seu estilo de vida, você modula a atividade dos seus genes promovendo doença ou saúde. Essa responsabilidade, inclusive, é transgeracional. Quer dizer que meu estilo de vida impactará o padrão de saúde (ou adoecimento) dos meus netos.  Nesse sentido, saber de algumas pré-disposições é interessante, pois estimula uma vida mais saudável e consciente. Um exemplo é que 30% da população tem uma mutação em um gene do metabolismo do ácido fólico que predispõe a doenças crônicas do adulto, além de má-formações. Uma dieta (nutrigenética) adequada pode superar essa deficiência. Por outro lado, o mapeamento genético também identifica pré-disposições a doenças que só fazem sentido em determinadas populações e não necessariamente para aquela pessoa específica. Salientar esses pontos em uma leitura genética só levaria então a sentimentos como angústia e preocupação injustificadas, além de tomadas de decisão inadequadas”.

Em Black Mirror, o caráter de uma pessoa é julgado por uma herança genética. Algo que independe de sua vontade e de seu discernimento. Ela sequer tem a oportunidade de responder de forma virtuosa e responsável à doença, porque a doença não é, e talvez nunca venha a ser, real. Apesar disso e, ainda assim, essa possibilidade contamina toda sua identidade social, assumindo o papel de seu traço distintivo – o que determina não só sua evasão da vida em sociedade, mas seu próprio extermínio como ameaça.

 

Muita ficção esse lance das baratas? Mais ou menos.

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O mapeamento genético já é uma realidade e permite o desenho de populações de risco, que podem gerar segregação em planos de saúde ou mesmo em políticas públicas. Além disso, o julgamento moral sobre o doente estrutura-se como uma prática global, principalmente nas sociedades que assistem à passagem da responsabilidade sobre a saúde do cidadão do Estado para o indivíduo. Cuidar para não adoecer e assumir a responsabilidade sobre o gerenciamento da própria saúde têm conquistado o status de virtude e resultam em uma nova segregação. Mas como isso é possível? Lupton aponta que o discurso do saudável classifica os cidadãos entre aqueles que aderem às práticas saudáveis e aqueles que vivem uma vida irresponsável de “vícios”. E a tecnologia, como em Black Mirror, tem um papel fundamental neste processo. Os aplicativos de m-health[2], por exemplo, colocam literalmente nas mãos dos usuários de smarthphones a responsabilidade e o ferramental para que eles passem a monitorar, mensurar e corrigir seus corpos (de acordo com padrões pré-definidos de normalidade), vigiar suas condutas e gerenciar seu projeto de vida saudável – o chamado empoderamento ou participatory health.

E disso já nasce uma nova categoria de estigma, como aponta Oudshoorn em Telecare Technologies and The Transformation of Healthcare. Nesse estudo, alguns pacientes se recusam ou têm resistência a adotar as novas tecnologias de cuidado a distância e preferem manter o tratamento em clínicas tradicionais. Opa. Espera aí. Essa frase aqui já tem um julgamento moral implícito (meu e não do autor). Os pacientes não “se recusam” ou não “têm resistência a”. Eles simplesmente escolheram entre os tratamentos disponíveis aquele que julgam como o mais adequado para seu projeto de vida, de acordo com seus valores e necessidades. Isso é ética na veia.

Mas, lembra daquela máxima “você pode escolher o que quiser, desde que escolha o que eu quero?” Pois bem, esses “non-users” são estigmatizados como pessoas irresponsáveis (já que o eHealth surge com a promessa de reduzir custos para o Estado, ampliar a abrangência do atendimento e ser mais eficiente – tríade amplamente questionável), incompetentes (já que os provedores relacionam sua decisão de não aderir ao tratamento a distância a uma inabilidade de usar uma nova tecnologia) e/ou ultrapassados. Dito assim… seriam eles uma nova sub-raça? Depende de você decidir. E de mim também. Em Black Mirror, os militares recebem implantes que fazem com que as pessoas reprovadas na triagem genética assumam uma face deformada e assustadora. Mas, e os civis? Eles não conseguem reconhecer esse estigma no corpo das baratas. O que eles veem são seres tão humanos quanto eles próprios. Ainda assim, apoiam o extermínio, por medo de uma contaminação. Mas não é só medo. Na fala da própria série, “eles foram ensinados a odiar”. Mais uma coisa de ficção? Sei não.

Um exemplo pessoal: um dia fui na casa de uma amiga e o filho dela estava jogando Rainbow Six Siege no Play Station. Quando eu perguntei se ele não se sentia mal de jogar um jogo que era basicamente matar pessoas, ele me disse: “Eu só jogo no módulo caça-terrosistas. Eu não mato pessoas. Eu mato terroristas”. E pra você, tudo bem assim também?

 

Duas questões éticas que não podem passar batidas apesar desse post já estar enorme.

1) Gerenciamento da privacidade

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Já vimos aqui[3] que ética é também o exercício individual de decidir sobre as fronteiras entre público e privado. Ou, em outras palavras, é o seu direito de discernir sobre o que é a sua intimidade. Em Black Mirror, o resultado de um exame genético (o que pode ser mais íntimo?) é convertido em registro público, sem a permissão do indivíduo. Mais ou menos o que aconteceu com o vazamento dos exames e condição de saúde da ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva, cuja privacidade foi desrespeitada por alguns médicos irresponsáveis[4].

De volta à série, com os implantes, essa “deficiência” é fisicamente externada, revelando aos olhos dos militares uma condição íntima. Na vida como ela é, esse já é um problema real enfrentado por pacientes que usam tecnologias de monitoramento: o direito de manter sua condição no âmbito privado. Oudshoorn relata um caso interessante. Existe uma tecnologia que faz eletrocardiogramas onde o paciente estiver e envia os resultados para acompanhamento constante no centro de cuidado remoto. O problema é que esse dispositivo, incorporado ao corpo do paciente, emite um alto e demorado sinal sonoro toda vez que um eletro vai começar. Por conta disso, pacientes usuários desse método relatam que se sentem profundamente constrangidos porque o barulho deflagra sua condição publicamente. Como no estigma, eles recebem uma marca sonora que os segrega na multidão. Eles não têm como controlar quando e onde o eletro vai ser feito. Por isso, alguns adotam como estratégia para gerenciamento de privacidade simplesmente não usar o dispositivo em locais públicos. Isso aqui ainda vai render mais um post, prometo.

 

2) Consentimento informado

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Uma das reviravoltas de “Engenharia Reversa” é quando Striper, o militar que tomou consciência de que as baratas são seres humanos como ele, descobre que ele concordou de livre e boa vontade a integrar o exército de extermínio à sub-raça. Ao fazê-lo, ele exercitou sua ética, sendo responsável por todas as ações que se seguem. Ele não lembra disso, essa memória foi editada pelo implante cerebral. Mas o vídeo de filiação está devidamente gravado e arquivado. Ele recebeu um contrato com todos os termos e condições de seu trabalho futuro. Tudo o que ele precisava fazer era ler e assinar. Isso é o chamado consentimento informado e é exatamente o mesmo que você faz quando se submete a um exame, a uma cirurgia ou mesmo quando cria uma conta no Google, no Facebook ou no Instagram. E o que acontece com Striper é a mesma coisa que acontece conosco. Assinamos sem ler. Por que somos displicentes, irresponsáveis ou preguiçosos? Provavelmente. Mas também porque grande parte desses contratos são feitos exatamente para isso. Com linguagem complicada e extensos, eles foram desenhados para nos vencer pelo cansaço. Funchs e Nissenbaun são dois dos críticos dos termos de uso aplicados pelos grandes players de tecnologia. Juntamente com Peres-Neto, eles discutem a ética do “tudo ou nada”e questionam, além do formato, a natureza totalitária desses consentimentos.

No caso do Facebook, por exemplo, quando você dá o seu “Eu aceito”, está concordando em compartilhar suas informações com o Facebook, mas também com todas as empresas do Grupo Facebook. Isso é uma distensão dos limites éticos sobre a sua privacidade. A mesma crítica é feita por Lupton aos aplicativos de m-health que coletam informações sobre o usuários o tempo todo e as compartilham com públicos que ele desconhece (a informação é acessível ao médico, ao desenvolvedor, ao sponsor, a quem exatamente?), sem a opção de contextualizar esse consentimento. No caso de Striper, só para concluir, Aristóteles poderia redimi-lo ponderando que um homem só pode ser bom juiz daquilo que conhece, por isso, ações tomadas sem conhecimento não podem ser consideradas no julgamento de seu caráter. Mas esse álibi ou nenhum outro parece ter diminuído a culpa no seu processo de tomada de consciência sobre seus atos. Para ele, foram ofertadas duas opções: formatar essa memória ou transformá-la em sua própria penitência. Qual seria sua escolha? Compartilhe aqui nos comentários.

 

Resumo do episódio nas minhas próprias palavras

Black Mirror Ep. 5 T. 3: Man against fire / Engenharia Reversa

Grosso modo, em algum lugar de um futuro não muito distante, a guerra dos homens é contra uma espécie mutante, deformada e temida por alguma “merda que carregam no sangue”. Trata-se das “baratas”. Para combatê-las e proteger os civis, foi criado um exército equipado com implantes ultra inteligentes. Eles não só mapeiam casas e projetam o próximo objetivo a seguir. Eles também permitem foco e eficiência total. Com eles, os soldados não sentem cheiro, gosto, não ouvem gritos e o melhor: têm suas memórias arquivadas e seletivamente reativadas durante o sono, promovendo projeções bem convenientes e revigorantes – uma recompensa mais que justa para os soldados que têm a honra de estar na linha de frente salvando a humanidade dessa praga. Roteirinho bem batido, não fosse o fato de que as baratas serem tão humanas quanto qualquer humano. Essa subcategoria é formada por pessoas com algum potencial genético identificado na triagem de DNA obrigatória desde o pós-guerra: potência para uma doença cardíaca, para uma doença mental ou um desvio sexual. Com esse registro vem a sentença automática: extermínio para que a humanidade continue existindo sem ameaças de doença. Um dos soldados, Striper, tem seu implante danificado e consegue ver as baratas como elas realmente são: seres humanos, mães, filhos, homens, mulheres comuns. E aí entra a crise pessoal (vulgo ajuizamento ético): tratam-se de assassinatos ou de um dever com o sucesso da humanidade como espécie?

 

Tem outra sinopse aqui também: http://cosmonerd.com.br/series/review-series/black-mirror-s03e05-engenharia-reversa-review/

 

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2004.

FUCHS, Christian. New Media, Web 2.0 and Surveillance. Sociology Compass, v. 5, n. 2, p. 134-147, fev., 2011. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1751-9020.2010.00354.x/abstract>. Acesso em 28 jan. 2016.

GOFFMAN, Irving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982

PERES-NETO, Luiz. Ética, Comunicação e Consumo: apontamentos a partir do estudo da privacidade. In: Anais 24º Encontro da Compós, Brasília, 2015. Disponível em: <http://www.compos.org.br/biblioteca/compos-2015-514aa48d-0e6d-4b2d-9fda-c01118140487_2810.pdf>. Acesso em 28 jan. 2016

LUPTON, Deborah. 2012. M-health and health promotion: The digital Cyborg and Surveillance Society. Social Theory & Health 10: 229-244.

LUPTON, Deborah. 2013. Quantifying the body: monitoring and measuring health in the age of mHealth Technologies. Critical Public Health 23 (4): 393-403.

NISSENBAUM, Helen. A contextual approuch to privacy online. Deadalus, n. 4, v. 140, p. 32-48, 2011. Disponível em: <https://www.techpolicy.com/Articles/C/Contextual-Approach-to-Privacy-Online,-A.aspx>. Acesso em 28 jan. 2016.

OUDSHOORN, Nelly. Telecare Technologies and the Transformation of Healthcare. Palgrave Macmillan UK, 2011

 

Notas

[1] http://eticadebolso.com.br/o-que-o-poema-mais-antigo-do-mundo-tem-a-lhe-ensinar-sobre-aquele-post-que-voce-acabou-de-apagar/

[2] http://www.who.int/goe/publications/goe_mhealth_web.pdf

[3] http://eticadebolso.com.br/post-04/

[4] http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2017/02/1855365-dados-de-marisa-no-whatsapp-mostram-que-odio-venceu-etica-medica.shtml