O que está no topo do ranking?

Por Sheila MAGRI

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define ranking como uma “classificação ordenada de acordo com critérios determinados”. A palavra vem do inglês “rank”, verbo que significa “estar em posição alta, estar próximo ao chefe”. A expressão é usada em modalidades esportivas, em torneios, em exposições, manifestações artísticas e em premiações nos mais variados setores. Presente no desfile das Escolas de Samba durante o Carnaval aqui no Brasil, nos concursos públicos e no Enem. Há rankings que são resultados de pesquisas e de classificação de dados provenientes de institutos e de associações e que se apresentam cotidianamente para a nossa leitura, seja nos infográficos dos jornais, nos links e em chamadas nas mídias sociais. Às vezes se encontra no topo do ranking algo de muito bom, ou algo muito ruim. Rankings são sempre taxativos, mas nem sempre os dados são sequer comparáveis. Os resultados se apresentam como uma representação da realidade e, portanto, são sempre uma leitura do real. Mas por se basearem em dados, a eles são atribuídos um caráter de objetividade e, portanto, certa credibilidade. A estratégia do ranking se forma pelo tripé dados da realidade, mais representação confiável de uma organização, mais a hierarquia dada aos dados. Assim, o resultado de um ranking parece representar a totalidade sobre uma situação ou performance.

Competições acompanham a história da humanidade desde longa data. Quem não se lembra dos torneios medievais dos jogos olímpicos na Grécia. Mas os rankings globais ganharam expressividade no início da expansão do capitalismo industrial no século XIX e XX. Surgiram com as premiações de invenções nas exposições universais, durante os Jogos Olímpicos na Alemanha em 1936, competição famosa por ter comparado o desempenho humano através de cronômetros e em prêmios que passaram a condecorar indivíduos pela sua racionalidade ou criatividade, exemplos são o Prêmio Nobel, criado em 1955 na Suécia, e o Guinness World Records criado em 1901 na Inglaterra. Deste modo, a premiação e o reconhecimento dos brilhantes invadiram diversos segmentos da vida cotidiana, nas notas da escola, nas músicas mais tocadas e discos mais vendidos, até o Oscar e as exposições nas galerias de arte.

“os circuitos de consagração são tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado” – Pierre Bourdieu

De alguma forma, estamos todos submersos em uma espécie de lógica do ranking, das comparações entre pessoas, critérios e dados. E já dizia o sociólogo Pierre Bourdieu ao estudar profundamente as dinâmicas dos campos sociais que “os circuitos de consagração são tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”.

O fato é que da mesma forma que a nossa vida, a nossa reputação é afetada pelos rankings. Entretanto, pouco conhecemos sobre a finalidade deles, pouco se fala sobre os seus critérios. Pouco se fala sobre aquelas pessoas e instituições que constroem as categorias de julgamento. Pouco se reflete sobre quem patrocina as premiações, ou até mesmo sobre quais critérios sociais, culturais, mercadológicos, científicos, uma pessoa, um trabalho, ou mesmo um dado é selecionado, comparado, descartado e julgado.

Nos critérios dos rankings, os valores ou juízos de valor, não são os mesmos. Cada ranking que vemos nos jornais tem seus próprios critérios, suas razões de ser e de existir. Cada critério é também apenas um recorte da realidade fixado a partir de um viés de um interesse específico. Portanto, o mínimo que se espera é que os critérios fiquem bem explicitados e que nós reflitamos sobre eles.

Todo ranking supostamente busca sua legitimação em afirmar pressupostos objetivos e estabelecendo uma ideia de igualdade de condições entre os participantes, imparcialidade no processo de escolha do júri ou dos votantes e excelência dos que atingem o topo. Mas o que percebemos é que os critérios variam conforme seu idealizador, ou seu patrocinador.

A matemática dos rankings permeia ainda diversas atividades cotidianas, incluindo a entrevista de emprego ou a candidatura para uma promoção. Nós também esperamos ser classificados, avaliados e selecionados para uma determinada oportunidade – muitas vezes desconhecendo objetivamente os critérios, mas internalizando-os através de um imaginário, de uma noção do que se é esperado. O critério de um profissional bem preparado, por exemplo. Tudo aparentemente normal para uma sociedade acostumada a pensar sob uma lógica do ranking. E estes princípios de classificação acabam por nos estimular cada vez mais a confiarmos nos benefícios da meritocracia imposta pela competitividade do mercado.

 “é importante salientar que um ideal empresarial de si baseado na dinâmica de maximização de performances exige a flexibilização contínua das normas tendo em vista o crescimento de quem vence relações de concorrência.”  Vladimir Safatle

O filósofo Vladimir Safatle em seu livro Circuito dos Afetos aponta para uma outra questão ética que envolve o culto à performance. Ele afirma que “é importante salientar que um ideal empresarial de si baseado na dinâmica de maximização de performances exige a flexibilização contínua das normas tendo em vista o crescimento de quem vence relações de concorrência.” O que significa que pode existir uma flexibilização ou adequação de critérios e das normas justamente para se atender ao hábito da competição e a sua própria manutenção.

Convém agora perguntar sobre o que ficou de fora do ranking? Seriam apenas os dados rejeitados? Ou seriam os dados, os candidatos ou as vidas que não foram por alguma razão considerados ou ordenados ou adequados aos padrões contabilizáveis? Ou melhor, e se construíssemos um ranking a partir dos dados que foram excluídos, a partir das exceções e ou de performances que não são as socialmente consideradas outstanding pela maioria? Sendo assim, o que estaria no topo? Mas e se  derrubássemos os rankings? Talvez o que surgisse fosse uma realidade de dados ainda não construída socialmente, mas que deve ser infinitamente maior do que o seu recorte, o seu ranking.

 “se a alma participa da vida, e não é possível que nenhum número viva, a alma não poderá ser uma espécie de número” – Aristóteles

Referências:

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. São Paulo: CosacNaify, 2015.