O que o poema mais antigo do mundo tem a lhe ensinar sobre aquele post que você acabou de apagar.

por Marília PEREIRA

 

Por conta e risco, aventuro-me aqui a comentar o trecho de um livro de memória e espero que você me perdoe a falta de rigor científico por isso. Estou falando de Mahabharata, considerado o poema mais extenso já escrito e também um dos mais antigos. Não li os originais, mas a versão resumida de Jean-Claude Carrière sobre a saga da família dos Pandavas, destituída de seu trono e exilada. Há uma passagem, em especial, em que Arjuna (guerreiro e protagonista) volta de uma batalha e fala à mãe sobre algo que trouxera para casa. Ainda de costas, a mãe responde que não importava o que fosse, ele teria de dividi-lo com seus irmãos. Arjuna voltara para casa com Draupadi, aquela que escolhera para ser sua esposa e que, pela sentença da mãe, também desposou seus outros quatro irmãos. Por quê? Porque, como explicou a mãe, assim que se virou e viu o filho com sua eleita, uma palavra não pode ser recolhida do vento. O que está dito está dito. Não tem como ser desfeito.

 

Mais de dois mil anos e algumas redes sociais depois, julgo essa uma pergunta pertinente: é possível desdizer o dito? Bakhtin (2004) considera que o discurso é uma ação em si e das mais poderosas. Nesta perspectiva, não podemos, por exemplo, “desdar” um tapa em alguém. No máximo, podemos pedir desculpas, esperar que a dor passe e que o outro, bem como os terceiros que presenciaram a situação, perdoem ou esqueçam. E, por isso, da mesma forma, não podemos simplesmente apagar o dito, não sem considerar as consequências da ação que já se concretizou. Quero, contudo, trazer essa discussão especificamente para os tempos de Facebook, Twitter, Whatsapp e printscreens, quando os discursos parecem correr como nunca ao sabor do vento, com velocidades ainda maiores, em direções ainda mais caóticas e com danos indeléveis para as reputações estruturadas em rede.

 

O disse-me-disse e o apaga-apaga.

 

O caso protagonizado recentemente por Bel Pesce pode servir como um exemplo inicial. Em agosto, a então conhecida “menina do Vale” lançou um financiamento coletivo questionável para angariar fundos para um empreendimento privado, a hamburgueria Zebeléo (aquela que ia reinventar o conceito de hamburgueria). Questionada pela dimensão ética de um financiamento coletivo destinado a una iniciativa privada, despida de qualquer fim social, Bel Pesce voltou atrás, cancelou a campanha de financiamento, apagou o vídeo promocional e se desculpou genericamente. Em seguida, ela viu sua própria reputação de empreendedora em xeque pela viralização de um printscreen no qual Wences Casares, CEO da Lemon, desmente a sua participação como fundadora desta empresa – um dos pontos altos do currículo da moça. Dias depois, Casares também volta atrás, apaga os tuítes que fez sobre o assunto e diz que sim, que Bel Pesce pode se apresentar como membro da equipe fundadora da Lemon(1).

 

O problema das retratações online não é muito diferente daquelas feitas pelas chamadas mídias tradicionais, o famoso “erramos” dos jornais impressos. Ambas apresentam uma disparidade na exposição. As erratas geralmente são bem menores do que as matérias às quais se referem e ficam alocadas em uma parte menos importante do veículo. Para piorar a situação, nas retratações online, além de não se ter como garantir o mesmo espaço físico para uma informação, é impossível assegurar que elas alcançarão os mesmos leitores que foram impactados pelo conteúdo primeiro que se pretende retratar, ainda mais quando se trata de um post que possivelmente alcançou o status de top trend naquela semana. Afinal, você sabe, a fila do feed de notícias anda.

 

Persistência e buscabilidade.

 

Além disso, por mais que os conteúdos originais tenham sido apagados por seus autores, os posts derivados deles continuam na rede (por exemplo, este é um post derivado dos posts derivados do caso Bel Pesce). Porque, como conceitua boyd (2011), duas das características das redes sociais são persistência e buscabilidade. É quase impossível apagar todos os rastros gerados e derivados de um conteúdo, bem como todas as interações geradas por ele. E eles são facilmente acessados através das poderosas ferramentas de buscas dessas plataformas.

A ferramenta de busca do Google, por citar um exemplo, prioriza a relevância. Se considerarmos que as acusações geralmente têm mais exposição (e audiência) que as retratações, isso pode significar que durante um longo inverno as buscas referentes a Bel Pesce ainda reavivarão esse assunto. E, o pior: como também trata boyd (2011), esse acesso pode ser feito de forma descontextualizada. Acontecerá tempos depois do ocorrido e muito provavelmente de maneira fragmentada, sendo impossível resgatar com exatidão o que cada um quis dizer exatamente com o que disse.

 

Mas a questão é justamente essa. Descontextualizado ou não, o que está dito está dito. E sempre pode voltar a ser notícia, como o ocorrido com o bronze olímpico Arthur Nory Mariano(2), nosso segundo exemplo. Logo após ganhar a medalha nas Olimpíadas Rio 2016, internautas lembraram o caso de racismo protagonizado por ele em 2015, quando o atleta publicou um vídeo em seu Snapchat (devidamente apagado) com comentários ofensivos contra o colega de equipe Ângelo Assumpção.

 

Temos, então, aqui algumas situações: a pessoa que diz algo sobre si, a pessoa que apaga algo que disse sobre si, a pessoa que diz algo sobre o outro, a pessoa que diz algo sobre o que o outro diz, a pessoa que diz algo sobre o que o outro disse no passado (tendo o dito original sido apagado ou não por quem disse). Desse emaranhado doido quero tirar duas perguntas: temos direto ao arrependimento? Temos o direito à comiseração ou ao perdão?

 

Errar é Humano.

 

Temos aqui um paradoxo: por um lado, argumento, juntamente com Bakhtin, que o discurso é uma ação. Ele pode gerar uma reação, uma retratação, mas uma ação não pode ser desfeita em si: o que está dito está dito. Por outro, contra-argumento que, ao contrário de uma mercadoria, não somos feitos de um slogan só. É claro que o somatório do que dizemos da maneira como dizemos nos confere um ethos, de onde é lido nosso caráter (Mangueneau, 1997), base para aquilo que chamamos de ética.

 

Mas gostaria justamente de frisar aqui a palavra somatório. Apesar da noção de autenticidade em redes sociais estar cada vez mais próxima da constância (Cirucci, 2014), ou seja, de nossa habilidade de nos mantermos coerentes em nossas performances – como uma empresa que precisa ter uma visão, missão e valores definidos – como argumenta Marvick (2013), essa meta suprimiria o erro. Por sua vez, a intolerância para com o erro pode gerar um problema ainda maior: pra mim, pra você, para a raça humana.

 

Como propõe Morin (2009), é graças ao método tentativa-erro que chegamos onde chegamos na nossa relação com o ambiente, com o outro, com o grupo e com a sociedade em que vivemos hoje. Evoluímos por causa do erro e por causa do aprendizado com o erro. Neste ponto, entramos no campo da ética como exercício individual de ajuizamento sobre o que é bom e o que é ruim, sobre o que é virtude e o que é vício, para si e para o outro – e isso, sem dúvida comporta o erro, a revisão e o aprendizado com o erro e o próprio aperfeiçoamento do sujeito. Aristóteles inclusive difere as ações tomadas com conhecimento de causa ou na ignorância, defendendo que o caráter de um homem só pode ser julgado por suas decisões sobre aquilo que conhece de fato. Estou dizendo aqui que, muitas vezes, no calor das réplicas a um click, falamos sem refletir e depois nos arrependemos. Ou, a partir do conhecimento de novos fatos, simplesmente mudamos de opinião. Mais do que uma debilidade, mudar de opinião é um sinal de que estamos abertos ao outro, compromedidos com uma ética comum. Um exemplo é o post de Saul Isaac, editor do The Huffington Post, sobre Hillary Clinton: “I Wrote That I Despised Hillary Clinton. Today I Want To Publicly Take It Back”(3).

hillary

É claro que, como a mãe de Arjuna (citada no início deste texto) não pôde recolher o dito que foi lançado ao vento, Isaac também não pode retirar o que disse antes sobre Hillary Clinton. No entanto, ele pode mudar de opinião.

 

E quem é você para julgar? Você é (ou deveria ser) alguém que exercita a ética. Por isso, vai ajuizar sobre o que ele disse antes, sobre o que ele diz agora, para com o saldo desse somatório conferir a ele e a Hillary Clinton um caráter. Nas minhas piores crises existenciais, minha analista sempre me diz: “Marília, deixa o tempo entrar”. De fato, não existe ética sem reflexão e refletir demanda tempo. O que está dito está dito. Pode ser apagado, mas não deixará de existir. Então, por que não tomarmos nosso tempo? Antes de dizer algo, antes de dizer algo de alguém, antes de dizer algo sobre o que alguém disse, antes de condenarmos publicamente o outro que, como nós, está sujeito ao erro e ao aprendizado com o erro.

 

Referências

[1] http://veja.abril.com.br/economia/fundador-da-lemon-esclarece-papel-de-bel-pesce-na-empresa/

2 http://rederecord.r7.com/rio-2016/apos-medalha-de-bronze-internautas-lembram-caso-de-racismo-de-arthur-nory-contra-colega-de-equipe-14082016

3 http://www.huffingtonpost.com/isaac-saul/i-wrote-that-i-despised-hillary-clinton-i-take-it-back_b_12220124.html

 

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2004.

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2000.

BOYD, Danah. Social Networks Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications. In: PAPACHARISSI, Zizi (org). A Networked Self: identity,

community, and culture on Social Network Sites. Nova Iorque: Routedge, 2011.

CIRUCCI, A. M. The Structured Self: Authenticity, Agency, And Anonymity In Social Networking Sites. Philadelphia: Temple University, 2014. Tese (PhD). Temple University Program, Temple University, Philadelphia, 2014.<http://digital.library.temple.edu/cdm/ref/collection/p245801coll10/id/299430>.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas Tendências em Análise do Discurso. 3ª edição. Campinas: Pontes, 1997.

MARWICK, A. Status update: Celebrity, publicity, and branding in the social media age. New Haven, CT: Yale University Press, 2013.

MORIN, Edgar. Cultura e barbárie européias. Trad. Daniela Cerdeira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.