Os arautos da moralidade

por Fabrizzio CHIOCCOLA.

Os supostos ou prováveis desvios de conduta nas escolhas e nas ações dos sujeitos que exercem cargos públicos no Brasil ganham “advogados” de acusação e defesa na voz dos cidadãos que ocuparam as ruas por todo o país. Não pretendo aqui deliberar ou impor nenhum tipo de veredito pró ou contra o governo ou partido. Lanço luz a um fenômeno que permeou todo o processo político brasileiro, especificamente no que tange aos fatos que marcam o ano de 2016, a saber – os discursos moralistas ecoados pelo Brasil na esteira dos processos políticos que dividiram o país.

Nota-se que permeia, naquilo que muitos oportunistas chamam de “a voz das ruas”, um discurso moralizante que se notabiliza, em seu aspecto primário, por um caráter higienista, ou seja, a enunciação de palavras de ordem que clamam limpeza da esfera pública deste país, como se tal assepsia fosse capaz de promover a salvação instantânea de todos os problemas que assolam o Brasil. Neste contexto, chamo a atenção para uma análise dos discursos e da práxis daqueles que se manifestam contra ou favor de qualquer governo, partido ou ideal; que se comportam feito um leão nas ruas, bradando por transparência e anunciando a necessidade de regras de conduta implacáveis contra a corrupção. Regras de conduta que só valeriam para os políticos já que muitos destes enunciadores deslizam na comissão de pequenas transgressões éticas todos os dias. Em um post anterior, comentamos, por exemplo, sobre as chamadas micro-corrupções. Por isso, convido a você que está agora lendo este post a responder as seguintes provocações: estamos todos de fato contra a corrupção? Você, no ambiente em que vive faz sua parte? Em que medida a corrupção é um vício moral apenas de terceiros? Quais os riscos de aceitamos um discurso “higienista” no campo político? Não cairíamos em um moralismo obtuso?

Veja bem! Sem nenhum trocadilho enfadonho com o nome de uma famosa revista de circulação nacional. Não se trata de perdoar os vícios morais de corruptos e corruptores. Mas sim ir um pouco além da superficialidade de um discurso moralista. Entendo por moral a atribuição individual de valores às ações humanas, ou seja, uma reflexão individual sobre os valores das suas próprias ações. Sponville (2002) reforça esta afirmação ao dizer que “a moral só se legitima na primeira pessoa”.

Neste sentido, ao atribuir um valor as ações do outro perpetuamos o moralismo, a imposição de um sentido ou valor moral individual a uma ação impetrada por outrem. Cabe uma reflexão. Ou melhor, uma autocrítica em aras de uma ética menos cínica.