Que vida boa estamos buscando?

por Raquel HADLER

 

Hoje em dia, perguntas simples como “como é que você está?”, que demonstram uma preocupação com o outro, parecem ser cada vez mais desnecessárias diante das supostas respostas “estou muito bem obrigada” que nos são compartilhadas todo momento nas redes sociais que pertencemos: é o prato que comemos, a roupa que vestimos, os momentos de descontração que vivemos, etc. São estilos de vida que nos rodeiam e nos inserem, pelo menos para conhecimento, em rituais específicos, que prescrevem modos de ser e de viver o nosso cotidiano por meio de uma linguagem cada vez mais visual, que possui o potencial de ser captada por um lance de olhar.

 

Essa constante divulgação das nossas práticas sociais promove uma cultura da estetização, a qual nos atravessa e traz com ela argumentos plausíveis para caminharmos nesta trilha. A preocupação com a saúde pode ser citada como um exemplo, visto que está comprovado pela medicina a importância de uma boa alimentação, assim como da prática esportiva. No entanto, vemos uma exacerbação desta preocupação com uma avalanche de modismos sobre o que é ser saudável, visibilizados em nossas redes sociais, virtuais ou não, através de nossas práticas de consumo.

healthyfoods

Fonte: Imagens retiradas do Instagram de Bella Falconi e Gabriela Pugliesi

 

Aderir a alguns consumos em detrimento de outros evidencia nosso lugar de fala, pertencimentos e revelam as formas como nos sociabilizamos. Temos aí uma sensibilidade contemporânea que se desenvolve, que é muito visual, plástica, efêmera, guiada muito mais pelo parecer ser do que efetivamente pelo ser, pois para ser é preciso sentir, o que demanda um tempo que muitas vezes não se encaixa na dinâmica dos modismos.

 

Diante disso, vale a reflexão sobre a “vida boa” que estamos buscando – como já dizia Aristóteles (2013)[1], a procura por construir uma vida que seja boa para cada sujeito indica o propósito para o exercício da ética na vida cotidiana[2]. A estética do nosso prato ou do nosso abdômen pode aumentar a nossa relevância na rede social, seja através de likes ou da indiferença. A questão que fica para pensarmos em conjunto é: quais sensibilidades podemos esperar desta forma de sociabilidade?

 

[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Bauru, SP: EDIPRO, 2013

[2] Dica de leitura para quem tiver interesse em ampliar a compreensão sobre ética: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.