O Lado Samarco

por André RODARTE

 

Quinta feira, dia 5 de novembro de 2015. A barragem da mineradora Samarco rompe-se em Mariana. O maior desastre ambiental na história do Brasil fez 1.265 desabrigados, 17 vítimas fatais e a impressionante quantidade de 40 bilhões de litros de detritos, submersos em um mar de lama que atingiu mais de 35 cidades em Minas Gerais e no Espírito Santo. Números, relatos e imagens chocam, exigindo transparência e explicações. Manchetes denunciam: “falhas na concessão de licenças”, “engenheiro prenunciou o desastre”.

 

Poderíamos estar tratando de mais um caso de irresponsabilidade e negligência administrativa, cuja discussão ética seria provavelmente gritante. Até que, em um momento iluminado de criatividade e leitura contextual, a Samarco lançou a campanha publicitária: “é sempre bom olhar para todos os lados”. Caso o leitor não teve a oportunidade de vê-la, explicamos a mesma. Enquanto funcionários relatam sua experiência traumática e a vontade de ajudar as vítimas, um piano toca melancólicas notas ao fundo. As imagens são acompanhadas por mensagens como “99,7% das famílias estão acomodadas em casas”, “área revegetada ao longo do Rio Doce equivale a 304 campos de futebol”. Tal inoportuna propaganda institucional, que por definição visa à persuasão e/ou à mudança de determinada imagem/marca, ignorou as condições em que se encontram as vítimas, reduzindo-as a meros números na mensagem publicitária. Ao final do anúncio, como manda a cartilha do marketing, a música incidental assume um tom empolgante e uma funcionária segura filhotinhos de cachorros.

 

Não tardou para que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) recebesse mais de 160 denúncias, questionando a veracidade do conteúdo. O Ministério Público Federal de Minas Gerais cobrou explicações sobre as propagandas veiculadas, as quais somaram um custo estimado de R$ 3 milhões, posto que a mesma Samarco alegava publicamente dificuldades financeiras para pagar as multas impostas pelo Estado.

 

A ética, em seu sentido extenso, procura explicar a vida que vale a pena ser vivida. Trata-se de um campo onde cidadania, liberdade, o zelo pela coletividade e outros tantos assuntos encontram espaço para discussão. O observatório Ética de Bolso propõe, e com sorte conseguiremos, fazer da experiência prática uma incógnita sem solução fácil. As escolhas que eu, você e todos nós fazemos em nosso dia-a-dia pressupõe critérios, valores e crenças. Com a publicidade não haveria de ser diferente. O “Caso Samarco” aponta para que ordem moral? A construção de uma marca, como a Samarco, sobrepõe que outros valores? Quais discursos legitimam as ações publicitárias em nosso dia-a-dia? Essas e outras tantas questões não encontrarão uma resposta, mas um espaço de diálogo em construção, completamente aberto a sugestões, reclamações, inquietações e angústias.