Procurando emprego? Esqueça seu CV. O importante agora é seu QS.

por Marilia PEREIRA

 

– Estou vendo aqui que você tem ampla experiência em mercado exterior.

– Sim, tenho 15 anos de experiência, sete como diretor em multinacionais.

– Muito bom. Aqui diz que você já trabalhou no exterior?

– Sim, durante 3 anos morei em Nova Iorque coordenando as transações da empresa com México e América Latina.

– Então você é fluente também em espanhol?

– Sim. Falo espanhol, francês e acabei de renovar meu TOEFL.

– No seu último emprego, quantas pessoas estavam sob sua coordenação?

– 57 pessoas, divididas em 3 departamentos.

– Ótimo. E como anda sua pressão cardíaca?

– Eu faço check-up anualmente e não foi diganosticado qualquer problema.

– Entendo. Mas e hoje de manhã, como estava sua pressão sanguínea?E sua taxa de glicose?

Quantos passos você dá por dia? Qual sua taxa de aproveitamento de sono? Quanto tempo você leva para se recuperar de um evento de stress?

– Desculpe. Deve haver algum engano. Isso é uma entrevista de emprego ou uma consulta médica?

 

Não, não há engano. Até porque temos a tendência em acreditar que dados não mentem, revelando-nos uma verdade investida de autoridade. E isso é exatamente o que prometem os aplicativos de self-tracking. Conectados a dispositivos ou embutidos em smartphones, esses apps conseguem mapear e metrificar o corpo durante atividades físicas, durante o sono, durante situações de stress, incluindo também o monitoramento de pressão sanguínea, batimentos cardíacos, taxa de glicose e tantos outros índices biométricos. As performances e reações desse corpo são traduzidas em números para emergirem como data-doubles: a conversão de corpos e mentes humanas em fluxos de dados que são reorganizados para visualização com o propósito de promoverem autoconhecimento e de mediarem desde mudanças de comportamentos até o controle e a manutenção da saúde e do bem-estar (RUCKENSTEIN, 2014).

 

Em sua “Ética a Nicômaco”, Aristóteles diz que só somos bons juízes daquilo que conhecemos bem. Isso quer dizer que o exercício da ética está intimamente ligado ao processo de conhecimento, reflexão e discernimento que antecede o arbítrio. Nessa perspectiva, os aplicativos de self-tracking podem funcionar como mediadores para o autoconhecimento, auxiliando seus usuários na equação aristotélica entre vícios e virtudes – uma conta que traduz o modo através do qual lograrmos o bem viver.

 

Existe, entretanto, uma categoria de self-tracking que esvazia toda a sua potência como rotina de autoconhecimento e ajuizamento moral. O “pushed tracking” é uma prática que vem sendo adotada por empresas, na qual os funcionários recebem incentivos financeiros, sansões ou pressões sociais para adotarem o uso de aplicativos de monitoramento (LUPTON, 2014). O ajuizamento sobre a adoção de um aplicativo de self-tracking e sobre suas métricas deixa de ser feito por parte do indivíduo, acabando em mãos de terceiros. Nada mais moralista e, portanto, distante do horizonte ético traçado por Aristóteles. Nesta perspectiva, esse monitoramento é usado para impor hábitos saudáveis e para mensurar desempenhos que podem resultar em demissão, não-admissão ou mesmo em um aumento nos custos do plano de saúde.

 

Isso porque, inseridas em um entorno fundamentado nos ideais da economia colaborativa, algumas empresas empregam esses dados biométricos a favor de seus interesses, incluindo transformar os mesmos em um ativo que pode ser comercializado com terceiros (as seguradoras, por exemplo). Ademais, o monitoramento extrapola o ambiente da companhia e segue com o funcionário para sua casa, onde ele continua sendo monitorado, borrando assim as fronteiras entre a vida pública e a privada. O indivíduo perde controle sobre as informações geradas por seu próprio corpo. O uso de aplicativos de self-tracking institui também um tipo de trabalho (um trabalho não-remunerado, obviamente) e coloca o indivíduo a serviço da vigilância, otimização e correção de seu corpo para que ele se mantenha saudável e, prioritariamente, produtivo (NEFF e NAFUS, 2016). O pushed tracking vai na contramão dos conceitos basilares da ética nicomaquea (a dimensão individual e livre para ajuizar entre vícios e virtudes) e extrapola o ideal liberal democrático que plasmou a noção de privacidade como o direito de estar só, além de tornar as fronteiras entre público e privado vulneráveis, aniquilando assim o direto sobre quais dados a tecnologia pode coletar sobre sua pessoa, de que forma, quando e com quem eles serão compartilhados.

 

Nesse cenário, tão importante quando seu CV será o seu QS (Quantified Self). Inclusive, programe-se para dar um upgrade no seu coaching. Já usado nos esportes[i], nos gerenciamento de pessoas[ii] e na retenção de estudantes[iii], o data-coaching configura-se como uma profissão de futuro. Neste tipo de consultoria, um expert se propõe a ajudar você a escolher quais métricas devem ser mensuradas, quais os melhores apps para isso e como você pode otimizar seu corpo da melhor maneira possível a partir da visualização do seu data-double. Você está preparado? Não, não responda. Deixe-me ver o que dizem suas métricas.

 

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2004.

LUPTON, D. (2014). Self-tracking modes: Reflexive self-monitoring and data practices. Available at SSRN 2483549 http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2483549.

NEFF, G.; NAFUS, D. Self-tracking. MIT Press, 2016

RUCKENSTEIN, M. (2014).Visualized and Interacted Life: Personal Analytics and Engagements with Data Doubles. Societies, 4, 68–84; doi:10.3390/soc4010068

RUCKENSTEIN, M. (2015). Uncovering Everyday Rhythms and Patterns: Food tracking and new forms of visibility and temporality in health care. Techno-Anthropology in Health Informatics: Methodologies for Improving Human-Technology Relations, 215, 28-40.

[i] https://www.theguardian.com/technology/2015/jan/22/coaching-by-numbers-is-data-analytics-the-future-of-management

[ii] http://www.eduardovalencia.com/p/data-coaching.html

[iii] http://www.helixeducation.com/predictive-student-retention/