Rastros digitais e redes de vigilância privada: a nova ética algorítmica.

por Gustavo DAINEZI

Todas as nossas ações na sociedade em rede deixam rastros. Desde as coisas mais óbvias como os likes, as fotos e localizações, até as mais bizarras como a posição e o movimento do nosso mouse são registradas.

Quando estamos offline também. Nossos passos podem ser acompanhados pelos nossos celulares ou pelas câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade. Nós podemos ser monitorados quando mais esperamos, ou seja, quando estamos usando a tecnologia ativamente, mas também quando menos esperamos. Desligados, nossos celulares ainda podem enviar dados e descobrir nossa localização. SmartTVs podem monitorar toda a conversa da nossa casa, quer você queira ou não.

“Tanto esforço para saber minhas singelas informações? Minha vida é tão sem graça”, você poderá dizer. Pode até ser, mas mesmo essa informação pode ser muito valiosa. Para uma empresa de bebidas ou de antidepressivos. Por isso, o chamado capitalismo informacional se interessa tanto por você. Por todos. Porque cada pequeno dado sobre sua vida pode, ao ser analisado no conjunto gigante dos seus rastros digitais, transformar-se em informações sobre você, inclusive aquelas que nunca foram compartilhada por você com ninguém. Tratam-se de inferências, mas com grande chance de estarem certas.

Uma empresa como a Mastercard, por exemplo, pode propor a patente de um algoritmo que determine sua compleição física a partir somente dos seus dados de compra. E ganhar dinheiro vendendo esta informação para uma companhia aérea, que te tratará de maneira diferenciada a partir deste cenário. Tudo isso sem que você saiba. E sem que ganhe nada. Esse exemplo pode parecer surreal, mas é a mais pura verdade, segundo o que foi amplamente noticiado pela mídia.

Temos, então, uma mudança de paradigma ético. Afinal, a partir de agora, os princípios que motivam a ação das empresas perante o mundo deixariam de ser os tradicionais valores associados às virtudes (a excelência, o respeito, a justiça, etc) para serem construídos em função do valor máximo do output. Do algoritmo. O mundo inteiro se configurará a partir dele. A finalidade moral passa a ser a obtenção da melhor previsão (algorítmica) possível, não mais da melhor ação possível, da ação mais virtuosa. Somente da ação mais provável. O centro desta nova ética é você. Mas, paradoxalmente, é justamente nesta lógica que você perde sua autonomia e seu direito de discernir sobre quais informações a seu respeito devem trafegar da esfera privada para a esfera pública (ou, em outras palavras, seu direto de exercer sua privacidade, de ser deixado só). E o pior: não espere ganhar muito com isso. Afinal, estão subtraindo de você, sorrateiramente, o seu livre arbítrio.