Religião, consumo moral e comunicação: um olhar a partir das peregrinações à Nova Trento

por Neusa SANTOS

Dentre as muitas questões que surgem em torno ao fenômeno da religiosidade, como podemos relacioná-lo com o campo da ética e da comunicação? Ainda que saibamos das múltiplas possibilidades de tais aproximações, neste texto, buscamos tecer alguns apontamentos sobre essas possíveis relações a partir da análise da peregrinação ao Santuário de Madre Paulina, localizado em Nova Trento, no interior de Santa Catarina.

Ao olhamos a filosofia aristotélica, por exemplo, em relação às virtudes éticas (ou morais), encontramos a busca pela vida boa como o sentido a ser perseguido; como a vida que vale à pena ser vivida. Por sua vez, ao nos debruçarmos sob a religião, encontraremos o sentido central da mesma depositado no signo “religare”, ou seja, na ideia da religação da humanidade com deus. Esta religação representa uma linguagem, um universo semiótico repleto de símbolos que costuram os sentidos da vida presente e da esperança de um porvir transcendental. Ao pensarmos o consumo, como diz Maria Aparecida Baccega[1], o mesmo pode ser visto como um dos indicadores mais efetivos de práticas socioculturais e do imaginário de uma sociedade uma vez que o mesmo “revela a identidade do sujeito, seu lugar na hierarquia social, o poder de que se reveste” (p. 34).

A costura que propomos aqui parte, portando, da articulação da ética, da religião e do consumo a parir dos sentidos sociais e culturais que os mesmos mobilizam como eixos norteadores da existência humana. Neste sentido, cabe destacar que a comunicação é parte consubstancial da nossa existência. Somos seres comunicacionais. Derivamos, portanto, ainda que não exclusivamente, a nossa experiência no mundo a partir do que comunicamos, das narrativas que produzimos sobre aquilo que experimentamos, que vivenciamos ou imaginamos ou deveríamos imaginar.

O fenômeno das peregrinações e a produção de narrativas acerca dos mesmos não é algo novo. No entanto, a literatura sobre o consumo da peregrinação a partir das lógicas dos bens de consumo, especificamente sobre o “consumo moral da fé” – a busca pelo consumo transcendental da fé por uma vida boa terrenal – é mais bem escassa. Realizamos uma pesquisa sobre este tema, apresentada como dissertação de mestrado no PPGCOM da ESPM, discutindo o mesmo a partir das peregrinações Santuário de Santa Paulina. Localizado numa pequena vila da cidade de Nova Trento, a 80 km da cidade de Florianópolis-SC, nos inquietava indagar o que movia cerca de 100 mil peregrinos cada mês, oriundos de diversos rincões do Brasil e do exterior, a visitar este Santuário localizado e produzirem narrativas sobre esta experiência.

Deduzimos que a resposta estava precisamente no consumo moral da fé. Encontramos a busca constante e peculiar de cada peregrino em adquirir no mundo material, objetos, práticas, etc., que plasmam alguns dos valores identificados com a Santa e que transcendem o cotidiano. Igualmente, também encontramos diversos sentidos mobilizados na/pela comunicação dos peregrinos, seja por meio de sinais, símbolos, rituais ou apenas lembranças, que constituem elementos aglutinadores dos sentidos comunicados pela fé.

Entre a vila de Nova Trento e o cosmopolitismo global, entre o sagrado do Santuário e o mundo profano do consumo, o peregrino constitui a experiência de duas histórias que se fundem: a de Santa Paulina, que há mais de um século atrás viveu nesta vila, e a escrita pelo e no mercado religioso, em oferta pelos caminhos que levam o peregrino ao Santuário. Como diz Don Slater[2] “o comércio fornece muitas das novas imagens e conceitos por meio dos quais a sociedade é compreendida; e, por meio do consumo é reconhecido e avaliado a maneira que trazem a marca do que hoje chamamos de cultura do consumo” (p.29).

[1] BACCEGA, M. A. Comunicação e Culturas do Consumo. São Paulo: Atlas, 2008.

[2] SLATER, D. Cultura do consumo e modernidade. São Paulo: Nobel, 2002.