Sim Senhor! Não Senhor?

por Fabrizzio CHIOCCOLA

Quero iniciar este post, que provavelmente será o pavio de mais uma das costumeiras querelas que circulam pela arena virtual, com uma pergunta: a ideologia é uma forma de consciência social que pode ser controlada? Explico a minha inquietação.

Durante os Jogos Olímpicos de 2016, na cidade do Rio de Janeiro, torcedores foram compulsoriamente retirados das arquibancadas pelos seguranças por “infringir” uma regra do COI que proíbe manifestações políticas e religiosas durante as provas. A medida está prevista em normas estipuladas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que proíbe expressamente manifestações “de cunho político e religioso”.

Esclareço, de antemão, que a Lei 13284/16 somente proíbe cartazes ofensivos ou sinais racistas e xenófobos. Vale, ademais, lembrar que a Constituição brasileira – tão maltratada nos últimos tempos – garante a liberdade de expressão e veda a censura.

Os Jogos Olímpicos são, na sua essência, manifestações políticas. Claro, precisaríamos delimitar o que entendemos por política. Mas o simples fato dos jogos buscarem “contribuir para a construção de um mundo melhor e pacífico“, tal e como estipula o ideário – a dita ideologia – do “Movimento Olímpico”, não nos resta dúvida do seu caráter político.

Cabe recordar um fato histórico. Nos Jogos de 1968, sediados na Cidade do México, o movimento chamado “Panteras Negras” ganhou visibilidade mundial após os atletas Tommie Smith (USA) e John Carlos (USA), ocuparem respectivamente o primeiro e o terceiro lugar no pódio da prova dos 200 metros rasos. Ainda no pódio, logo após receberem suas medalhas levantaram os braços e com os punhos cerrados fazem menção ao símbolo da causa que defendiam. Não obstante, em sinal de protesto, ambos abaixaram a cabeça durante a execução do hino nacional norte americano. Há um excelente documentário sobre este fato, disponível no Youtube.

Este episodio fez com que os atletas norte americanos fossem expulsos dos Jogos Olímpicos. Sim é verdade. – Por quê? – Porque Comitê Olímpico Internacional proíbe que atletas se manifestem ou façam símbolos relacionados a qualquer facção, movimento político e/ou afins.

Tendo em vista as colocações acima, lanço luz à outra pergunta para reflexão: O ato de “bater continência”, que é uma saudação militar, não representaria também um símbolo ideológico?

Não pretendo aqui estabelecer valores morais contra ou a favor da saudação militar no pódio, isso não me interessa. Incorreria em um tipo de moralismo que tanto critico. Mas me interessa entender se não há dois pesos e duas medidas das autoridades olímpicas no sentido de permitir manifestações ideológicas no pódio e, em função de certas ideologias políticas, coibi-las coercitivamente nas arquibancadas, como o “Fora Temer” entoado por muitos torcedores ao longo da Rio 2016. A princípio me parece autoritário. Isso sem mencionar a explicita manifestação religiosa do jogador de futebol Neymar Jr, que subiu ao pódio da Rio 2016 com uma faixa na cabeça com os dizeres “100% Jesus” e a atitude do COI, de fazer vista grossa ao fato. Novamente, não seriam dois pesos, duas medidas?

Se fossemos olhar para estes fatos pelo prisma da ética que, como esclarece Danilo Marcondes[1] “significa o conjunto de costumes, hábitos e valores de uma determinada sociedade ou cultura”, estaríamos, no mínimo, em dívida com a ideia dos direitos de liberdade que pressupõe uma condição democrática.

 

[1] MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p.9.