Transparência e ética: uma discussão a partir do filme “The Circle”

por Gustavo DAINEZI

Esta reflexão é inspirada no filme The Circle (o círculo em português e contém leves spoilers sobre sua história).

Emma Watson interpreta uma jovem que teve a sorte grande: conseguiu uma vaga em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. O mercado desta empresa é vasto e sua principal atividade é prestar uma variedade de serviços gratuitos na internet de maneira que possam centralizar a atividade de todas as pessoas e ter, consequentemente, acesso a todos os seus dados que, por sua vez, podem ser minuciosamente estudados e convertidos em lucro.

Nada que surpreenda quem vive conectado no século XXI. Podemos suspeitar de um punhado de empresas que esta companhia fictícia Circle estaria parodiando. A ideia de um perfil único que aglutine toda a sua atividade online é uma utopia de qualquer empresa que baseie seus lucros nos princípios da economia da informação. Quanto mais insumos, mais possibilidades de monetização. Por isso as empresas fazem de tudo para pulverizarem a sua presença no nosso cotidiano. Não é novidade assumir que não há fronteiras claras entre a nossa vida pessoal e as relações de consumo com marcas e empresas .

Para que isso aconteça com a menor resistência possível, é fundamental (ainda que não exclusivamente) um conjunto de valores compartilhados entre empresas (os serviços que pretendam assumir e disseminar) e consumidores. Estes valores geralmente estão associados ao progresso, à facilidade, ao conforto e à liberdade.

Mas, voltemos ao The Circle. No filme, até pela necessidade narrativa de impacto, a premissa é a transparência, o que é apresentada de maneira hiperbólica: tudo o que é corrupção é feito às escuras, na surdina. Toda maldade necessita do sigilo, toda vilania só pode existir se for escondida no escurinho da vida privada. O silogismo passa então a ser: Se tudo o que é mal precisa do esconderijo para existir, tudo o que é transparente só pode ser bom. Está lançado o conflito do filme. E o nosso também.

Curiosamente, como bem retrata o documentário Freenet, o primeiro argumento do senso comum quando deparado com o problema da coleta de dados baseia-se nesta premissa: “Eu não me importo que estejam olhando o que eu faço, não faço nada de errado”. A perspectiva da vigilância só seria vista como um problema moral se a pessoa vigiada fosse criminosa. A vigilância aparece, então, ou como neutra, isenta de peso moral ou como virtuosa, na medida em que permite ao vigiado facilidades que não teria se mantivesse sua privacidade.

No filme, o peso moral dado à transparência é total: quanto mais transparência, melhor será a sociedade; quanto maior a facilidade de se obter, cruzar e aplicar conjuntos de dados, mais a criminalidade diminuirá e mais coisas boas poderão ser feitas. Todo o mal será extirpado do mundo. A transparência total surge como panaceia, cura de todos os males.

A premissa é uma mistura do mito de Giges e do panóptipo de Bentham. Giges ganhou a invisibilidade e a partir daí tornou-se a pessoa mais má do mundo. Benhtam propõe o panóptipo como uma estrutura capaz de vigiar a todos o tempo todo, controlando, assim, comportamentos e impedindo a indisciplina.

Imagina fazer tudo isso e ainda ganhar dinheiro? The Circle imagina. E, a partir daí, cria uma febre: uma pequena esfera, produzida em massa, capaz de estar em qualquer lugar sem ser notada e transmitir tudo o tempo todo. Olhos em todos os lugares, transparência total. Pela premissa da empresa no filme, isso só pode dar certo. A transparência total é a solução. Acabarão todos os problemas do mundo.

Evidentemente, algo de muito ruim irá acontecer. Por uma grande falha na premissa moral da empresa: se tudo de ruim se beneficia do sigilo, isto não significa imediatamente que tudo que é transparente será melhor por definição. Tal perspectiva, superlativa, anula a complexidade dos valores ao universalizar a transparência como boa e atribuir ao sigilo um valor moral negativo, prescrevendo a publicização universal como solução para todos os males. “Uma vida sem segredos” é o seu slogan. Pois a vontade de não ser incomodado – conceito moderno de privacidade proposto por Warren & Brandeis – ainda é uma das premissas essenciais da nossa sociedade. É o que se conceitua como liberdade negativa, termo trabalhado brilhantemente por Isaiah Berlin. Transparência total pode ser um ataque à liberdade. Qualquer pessoa pode ter o direito de tocar a sua vida de maneira perfeitamente legal e protegida do olhar do mundo inteiro. No filme, este desvio conceitual leva a uma tragédia, que não contaremos para proteger a sua experiência cinéfila. Mas, para nós, basta com compreender que ela acontece devido a esta falha fundamental: sigilo e ausência do olhar do outro podem significar privacidade, tranquilidade, paz, ausência de repressão, para muito além da simplista oportunidade de fazer o mal.

Por isto é fundamental que toda discussão sobre a função, as benesses e os males da transparência passe necessariamente por uma discussão ética que coloque em evidência a complexidade potencial de cada valor, que enfrente a superlativização de pontos de vista e que nos previna ter um olhar muito inocente sobre nossa relação com as tecnologias, que nos colocam difíceis questões morais a cada solução técnica que nos apresentam.