Um mecanismo bem amador – Ética e Comunicação

por Maria Júlia VEIGA

A série O Mecanismo em exibição pela Netflix conta com 8 episódios de 45 minutos, tem roteiro de Elena Soarez e direção de José Padilha, Marcos Prado e Felipe Prado.  Foi baseada na obra “Lava Jato – O juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que abalou o Brasil” de Vladimir Neto. Todos os episódios começam com a imagem da Figura 1, que afirma que “Este programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais.Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático”.

mecanismo

Figura 1: Imagem de abertura da série O Mecanismo – Netflix

Os limites entre ficção e realidade são tênues. Para muitos teóricos e cineastas chegam até a ser inexistentes. A imagem não é uma realidade auto explanatória. Ela é uma construção, mediada pela subjetividade de seu produtor e de seu receptor. Bill Nichols (2005) afirma que todo filme é um documentário, pois todos os filmes evidenciam a cultura que os produziu e reproduzem as pessoas que fazem parte desta mesma cultura. Os filmes de ficção são denominados pelo autor de documentários de satisfação de desejos e os documentários clássicos como: documentários de representação social.

“Como histórias que são, ambos os tipos de filme pedem que os interpretemos. Como ‘histórias verdadeiras’ que são, pedem que acreditemos nelas. A interpretação é uma questão de compreender como a forma ou a organização do filme transmite significados e valores. A crença depende de como reagimos a esses significados e valores”. (Nichols 2005, p.27)

Mesmo em documentários como Nanook, o esquimó  de 1922, a discussão entre ficção e realidade já era abordada. Afinal, o cineasta Robert Flaherty teria dirigido os nativos e até construído um iglu em que coubessem os técnicos, a câmera e os nativos/personagens. Se ele não tivesse construído um iglu maior não teria sido possível o registro dos esquimós dentro de suas casas, afinal a câmera em 1920 era um trambolho bem grande.

A série O Mecanismo em nenhum momento se colocou como um documentário de representação social e no início de cada episódio avisa que é uma “obra de ficção, inspirada livremente em eventos reais” (Figura1). Porém, ao mesmo tempo em que se coloca enquanto uma obra de ficção, evoca acontecimentos reais e recentes do cenário político brasileiro e busca uma verossimilhança com a chamada “realidade”. A empresa Petrobras na série vira Petrobrasil, o Grupo OAS virou OSA, o Partido dos Trabalhadores virou Partido dos Operários, o japonês da federal virou agente China, a Polícia Federal vira Polícia Federativa. Todos os personagens, empresas e instituições retratadas pela série, têm um correspondente real. O Mecanismo tem uma atenção aos detalhes quase que microscópica em alguns momentos. Como no exemplo da revista Veja, que vira Leia, e que conta com uma diagramação impecavelmente semelhante à real. Veja Figura 2.

 

Capa revista Leia e revista Veja

Figura 2: Comparação das Capas Revista Leia (O Mecanismo) e Revista Veja

Fonte: Google Imagens

Porém, com o desenrolar da série, esta atenção microscópica aos detalhes se revela seletiva e ideológica. No episódio 5 (Olhos Vermelhos), a fala escandalosa do senador Romero Jucá do MDB, em que ele articula o impeachment da presidenta Dilma propondo um grande acordo nacional para parar as investigações da Lava Jato, “estancando a sangria”, virou na série uma fala proferida pelo personagem João Higino, cujo correspondente é o ex-presidente Lula do PT, partido alvo do impeachment articulado por Jucá. Fica bem difícil de acreditar que uma série tão esmerada em detalhes e verossimilhanças, trocou um detalhe tão crucial acidentalmente. Ao serem duramente criticados, os realizadores se defenderam. O diretor Jose Padilha se justificou em entrevista ao  Observatório do Cinema  da seguinte forma:

OC: Por que você achou que a expressão “estancar a sangria” deveria ser colocada no personagem que representa o Lula?

JP: Não escrevi o roteiro do episódio 5, nem o dirigi. O roteiro foi de Elena Soárez e a direção foi de Marcos Prado. Seja como for, chequei os diálogos. São diferentes. Não houve transcrição por parte da Elena. Além disso, a repetição do uso de uma expressão idiomática comum, como “estancar a sangria”, não guarda qualquer significado. Delcidio usou a expressão “acordo”. Se Higino falar “acordo” ele é o Delcidio? O fato de o Jucá ter usado a expressão “estancar a sangria” não a interdita. Escritores continuam livres para fazer uso dela. De fato, esse é um debate boboca, mas que revela algo: se a principal reclamação é o uso desta expressão, pode-se imaginar que o público petista está achando difícil negar todo o resto. Nada a dizer quanto aos roubos e desvios de verba públicas praticados por Higino e Tames com os empreiteiros…? Hummm…Interessante.

OC: Você não acha que, em um mundo de fake news, onde fatos são distorcidos para criar determinadas narrativas, sua série acaba criando um ruído de informação já que muita gente não consegue separar ficção de realidade?

JP: Na abertura de cada capítulo da série avisamos que fatos foram alterados para efeitos dramáticos. Para o pessoal que sabe ler, portanto, não há ruído algum!

OC: Minha pergunta sobre leitura é em um sentido mais amplo, de interpretação de texto. O filme Eu, Tonya tem um aviso no início dizendo que ele foi baseado em mentiras, boatos e alguns fatos reais. Mesmo assim muita gente acreditou que a patinadora Tonya Harding, condenada pela Justiça, foi vítima de uma armação após ver o filme. E claro que a expressão “estancar a sangria” não é monopólio do Jucá, mas no contexto da Lava Jato é a fala dele. Portanto, isso de certa forma não enfraquece a história, sendo que, como você mesmo apontou, as falcatruas em que os integrantes do PT se envolveram são tão evidentes?

JP: Essa turma nāo entendeu que a série é uma crítica ao sistema como um todo e nāo a esse ou àquele político ou a qualquer grupo partidário. Por isso se chama “O Mecanismo”. Assim, misturar falas ou expressōes de um político-personagem que o público pode confundir quem falou nāo tem a menor importância, pois sāo todos parte do sistema. É esse mecanismo que queremos combater.”

Realmente, brincar com os limites entre realidade e ficção não é necessariamente um problema. Todos os cineastas brincam com estes limites. Mas passa longe de ser um debate “boboca”. Flaherty o fez de maneira primorosa em Nanook, o esquimó, dando visibilidade a cultura inuit. Porém, ao se representar acontecimentos históricos reais tão importantes para o cenário político brasileiro, espera-se responsabilidade social.

Para Nichols (2005) é justamente a representação que nos leva a formular a pergunta “por que as questões éticas são fundamentais para o cinema documentário?” O conflito é inevitável, logo desenvolver respeito ético é fundamental. O problema de O Mecanismo não é que ele borrou as fronteiras entre ficção e realidade, tais fronteiras já nasceram borradas. O problema da série é porquê ela o fez. O Mecanismo é uma série maniqueísta, repleta de personagens unidimensionais e respostas simplistas. De mecanismo mesmo, a série não tem nada. Além de antiética, é preguiçosa.

Em um sistema complexo, cheio de artimanhas e acordos, não faz sentido nenhum juntar dois partidos tão diferentes como PT e o MDB se a intenção for mesmo retratar um mecanismo político. O país atravessa um momento difícil, o Brasil não anda para amadores. Neste caso: “olha, Padilha, o mecanismo ficou bem amador”.

Referências:

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus 2005