A popularidade e os títulos de nobreza digital.

Por GUSTAVO DAINEZI

Para quem estuda ou trabalha com comunicação em rede ou plataformas, não é surpresa a notícia divulgada pelo Wall Street Journal (WSJ), dando conta de que o Facebook possuía uma lista com seis milhões de usuários que estão praticamente isentos das punições que a empresa aplica aos usuários comuns por desrespeitarem as suas tão famosas diretrizes da comunidade. O jornal está publicando uma série de reportagens chamada “The Facebook Files”, que consiste em analisar documentos vazados da administração desta que é uma das cinco maiores empresas de tecnologia do mundo.    

Não é difícil encontrar alguém que já teve um post limitado, suspenso, censurado ou mesmo apagado por motivos que variam enormemente.

Fotógrafos têm dificuldade de divulgar seus trabalhos que envolvem nudez, mesmo quando não é explícita, campanhas contra a miséria têm alcance limitado ao mostrar imagens “sensíveis”, corpos não-normativos sofrem invisibilização constante[1].

No Instagram brasileiro, posts críticos ao negacionismo, incompetência ou corrupção governamentais sobre a pandemia são cegamente sobrepostos com links para o site do ministério da saúde. Este que vos escreve, certa feita, publicou um vídeo de um momento sublime, em um parque público, observando uma fonte de água em uma exposição com uma música nos alto-falantes do parque. O mesmo foi silenciado e derrubado em menos de 20 minutos porque a plataforma considera que eu não detenho direitos autorais para publicar um momento que vivi, somente porque tocava música (licenciada) em um alto-falante[2]. Cientes desse tipo de exagero, policiais nos Estados Unidos, por exemplo, chegam a andar com caixas de som tocando músicas populares bem alto para que suas abordagens não possam ser filmadas e publicadas em redes sociais[3], desestimulando as denúncias de má-conduta.

Mas essas regras só valem para mim e para você, meros mortais. Para portadores de “sangue azul”, as permissões são outras.

Nas palavras de um funcionário da empresa[4]: “O Facebook abre exceções para perfis poderosos de maneira rotineira”. Na rede social, alcance é capital; e o capital, sabemos bem, abre muitas portas.

A razão de ser dos “padrões da comunidade” é um daqueles lugares comuns que já estamos tão acostumados a ouvir quanto os avisos de segurança anti-pandemia. “Todos os protocolos de segurança estão sendo seguidos”. As diretrizes foram criadas “para o Facebook ser um local onde as pessoas sintam que têm poder de comunicação e levamos a sério nosso papel de eliminar dos nossos serviços todo tipo de abuso”.

Nós ouvimos ambos ao limite da exaustão. Ambos são tratados com a indiferença de quem ouve sem ouvir porque sabe que são palavras cada vez mais vazias, espectros fantasmagóricos que nos assombram nos passeios – físicos e digitais – lembrando-nos constantemente de um mundo de promessas que não existe. Palavras são vivas, seus sentidos se constroem nas interações sociais e constituem uma crença, um acordo entre as pessoas. Por isso, quando uma parte tenta associar um sentido a uma expressão e não cumpre o combinado, ocorre um esvaziamento do sentido, pela falta de confiança que corrói o necessário acordo social.

O maior responsável pela aplicação da cultura de imunidade gestado pelo Facebook foi o XCheck, programa criado para reforçar a mensagem de ambiente são e pudico. O programa pretendia ser uma ferramenta de controle de qualidade, servindo para analisar ataques realizados a celebridades. Uma proteção a essas pessoas, para que não saíssem da rede, levando com elas seu engajamento.

A própria forma de operação do sistema – de whitelist e/ou análise manual – acabou se transformando em uma lista VIP de usuários com passe livre para que postassem o que quisessem sem nenhum constrangimento ou ação por parte da empresa. O resultado, mostra a reportagem “The Facebook Files”, foi a amplificação irrestrita de desinformação, até mesmo aquelas que eram sistematicamente desmentidas pelos próprios checadores da empresa.

Eticamente, se a denúncia publicada pelo WSJ for certeira, a derivação que podemos fazer dessa situação é a de que, para a empresa, não importa o que fere os padrões da comunidade, mas pura e simplesmente quem.

Note que não estamos falando de um problema técnico ou econômico: o número de contas de personalidades associadas à lista VIP do capital-popularidade é de aproximadamente seis milhões de pessoas, ou 0,3% do total de dois bilhões de contas do site. O critério moral que serve de sustentáculo a essa virada é o que chamaremos aqui de proteção do capital-popularidade. Que, no final das contas era a função inicial do XCheck, mas que foi ressignificada para proteger os interesses econômicos da plataforma.

Não se protege mais os perfis de ataques, nem protege o resto da comunidade dos ataques desses perfis. A ferramenta de controle de qualidade foi deturpada em ferramenta de proteção da delinquência. Os perfis VIPs podiam fazer parte de três categorias: ‘newsworthy (noticiável)’, ‘influential or popular (influente ou popular)’, ou ‘PR risky (risco de Relações Públicas)’.

Como se fossem os clientes Prime, Platinum, e Diamond de um banco de popularidade. Se achou isso tudo muito técnico, pense, por exemplo, o que isso implica para o combate das fake news ou de discursos de ódio: determinados perfis da lista vip teriam maior capacidade de disseminação de conteúdos falso ou de disparar ofensas e enquanto outros, mesmo que vítimas de ataques, estariam restritos aos escaninhos de controle da plataforma.

O objetivo é proteger o tráfego, delegando a moderação aos enormes movimentos de protesto que a publicação (e manutenção pela plataforma) do conteúdo flagrantemente ofensivo causa.

Assim, fica mais uma vez patente uma das maiores fragilidades de um sistema completamente privado de regulação da informação. Os critérios de escolha, o funcionamento da engrenagem e, principalmente, as canalhices e sacanagens operacionalizadas ficam todas resguardadas pelo sigilo econômico e administrativo do setor privado – o modelo da caixa-preta. Ou você confia nas empresas, ou restam poucas opções. E, a essa altura, já devíamos todos saber o suficiente para desconfiar delas para sempre.

Teria sido bom aos gestores do Facebook, se realmente estiverem preocupados com a sociedade, o sistema republicano, a democracia ou simplesmente com a ideia de uma mínima coesão social, que buscassem se inteirar sobre o que se discute na filosofia política a respeito de deixar o topo da pirâmide acumular imenso poder.

Platão, Aristóteles e Maquiavel podem não concordar em muita coisa, mas os três, na pluralidade de seus pensamentos, advertem em uníssono: a maior ameaça à democracia e às formas virtuosas de governo é o poder acumulado pela parcela dominante da sociedade. Não seria novidade para ninguém que o desastre informacional pelo qual passamos tenha como uma das causas o comportamento direto e acintoso das empresas de comunicação no sentido de proteger aqueles com capital-popularidade da necessidade de cumprir as mínimas regras de convivência.

Para Maquiavel[5], a sociedade se divide em dois grupos: Grandes e Povo. O desejo do Grande sempre será de dominar tudo. Ele sempre agirá no sentido de fagocitar mais e mais poder, influência e transformar cada vez mais a sociedade a seu favor, não se importando com nenhuma consequência decorrente de suas iniciativas. Já o Povo, para o autor, deseja apenas não ser incomodado. O Povo não busca mais poder, mais influência, mais nada, só quer viver sua vida em paz.

Por isso, ao contrário do Povo, se a um VIP é permitido mentir, enganar, trapacear, iludir e se isso aumentar o seu poder, ele o fará.

E o que vemos, sistematicamente, é que o fazem. Sobretudo porque esse comportamento atende ao mesmo anseio, por parte da empresa, de crescer e dominar, cada vez mais. Por esse motivo, a sociedade, segundo Maquiavel, precisa de mecanismos institucionais de controle dos anseios dos grandes e dos inevitáveis conflitos sociais que decorrem desse choque de humores.

Maquiavel se sentiria chateado ao ter seu conselho ignorado se visse que uma gigante (Facebook) fica a cargo de brecar os abusos de outros gigantes que a utilizam. Um erro social e político, mas economicamente muito vantajoso[6] – situação comum entre as tantas contradições do capitalismo de plataforma. Pois os interesses da empresa e dos Grandes que a usam convergem: aumentar poder e influência. E é essa a fonte das decisões morais de ambos. Para ilustrar: A NYMag denuncia, a partir de livro de Max Shafkin, que o Facebook barganhou com Trump a ausência de regulações relevantes em troca da ausência de checagem de discursos políticos. Trump deixava Mark fazer a sacanagem que quisesse e Mark devolvia na mesma moeda. Não tem como dar certo. É um mutualismo da sacanagem.

Ademais, em um contexto de autoridade da justiça, por exemplo, seguindo a argumentação de Max Shafkin, esse tipo de conduta se configuraria como corrupção, donde se trocaria imunidade por capital. Não é por se tratar de imunidades e capitais não diretamente monetários que a conduta deixa de ser repugnante e corrupta.

Assim, a internet, esse lugar que tanto foi defendido como panaceia da democracia e horizontalidade, lugar da liberdade e resistência, da luta contra a hegemonia, hoje já coloca freios ao otimismo, ao ficar entregue às mãos de gigantes multinacionais. Estas desenvolveram uma ética em torno da intenção de proteger o engajamento e o capital-popularidade, mimetizando o sistema medieval dos títulos de nobreza, cuja posse se obtém nas páginas de analytics e, bem, só se perde em casos de extrema criminalidade ou azar.

Esses são problemas estruturais do modelo de rede social que dominou a internet nos últimos anos, e, mais amplamente, um problema da sociedade que não se propôs a encarar seriamente a ameaça dos Grandes à segurança, à saúde, à democracia e ao próprio sistema republicano que se consolidou no século XX.


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[1] Exemplo de como o algoritmo do Instagram associava seios grandes a seios sendo segurados pelas mãos e os classificava como pornografia. (https://br.vida-estilo.yahoo.com/ativistas-sobre-liberacao-de-seios-no-instagram-vitoria-contra-a-gordofobia-103043706.html)

[2] A discussão sobre os direitos autorais está aqui para que entendamos como todo o conteúdo que vemos nas plataformas já é altamente regulado por elas, mesmo que elas jurem o contrário. Essa discussão não é nosso foco, mas é tema de um já longo e interessante debate entre produtores, plataformas e corporações. Atualmente, as plataformas são aliadas das corporações, que possuem acessos especiais e a capacidade de derrubar qualquer conteúdo automática e manualmente, recebendo pouca ou nenhuma punição pelo uso incorreto de suas prerrogativas – privilégio do qual produtores não desfrutam na mesma proporção (mesmo sendo detentores dos direitos de seus produtos). Recentemente, a Jovem Pan foi denunciada por abusar de suas prerrogativas e derrubar conteúdos da TV Senado.  Conseguiu até que a plataforma fosse publicamente denunciada (https://twitter.com/tesoureiros/status/1443369301260578817). De outro lado, produtores grandes como o chargista Maurício Ricardo não conseguem desmonetizar canais flagrantemente piratas de seus conteúdos (p. ex. https://twitter.com/MauricioRicardo/status/1414936788397875200 e https://twitter.com/MauricioRicardo/status/1220201910445248512).

[3] https://www.theverge.com/2021/7/1/22558292/police-officer-video-taylor-swift-youtube-copyright

[4] https://www.wsj.com/articles/the-facebook-files-11631713039?mod=bigtop-breadcrumb

[5] As referências desse texto estão na obra “Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, obra na qual o autor adota uma posição republicana, em contraste com o famoso “Príncipe”, onde aconselha o monarca.

[6] Frances Haugen, responsável pela delação que resultou nos “facebook files” disse, em entrevista ao 60 minutes: “O que eu vi no Facebook repetidamente foi que havia conflitos de interesse entre o que era bom para o público e o que era bom para o Facebook. E o Facebook, repetidamente, escolheu otimizar para seus próprios interesses, como ganhar mais dinheiro.” (https://www.cbsnews.com/news/facebook-whistleblower-60-minutes-highlights-2021-10-03/)


Imagem: Hermann F. Richter from @Pixabay