Do limão, uma limonada: reflexões e práticas sobre ética digital em tempos de confinamento

por Luiz PERES-NETO

Tempo de leitura 7 minutos

Há 10 anos leciono disciplinas de ética para cursos de graduação e pós-graduação. Salvo raríssimas exceções, há 10 anos a primeira pergunta que me fazem em sala de aula é como definir o que é a ética de uma maneira simples e direta. Com menor frequência, mas também recorrente, os alunos engatam uma segunda pergunta: qual livro deve ser lido para entender o que é a ética?

Não são perguntas fáceis. Para a primeira, costumo responder que a ética é um duplo trabalho. Por um lado, é uma reflexão sobre a vida (no caso, sobre qual a melhor forma de viver a vida). Por outro lado, a ética é também uma prática, ou seja, como colocamos em prática (com perdão pela redundância) essas reflexões. De nada adianta só pensar sobre qual a melhor forma de viver a vida se não tentarmos colocá-la em prática. E, nesse terreno, não tem manual ou livro que diga “qual é a boa, qual é a real”. Felizmente (ou infelizmente), não nos resta outra alternativa viável senão pensar sobre a vida e tentar viver o que pensamos sobre ela.

Por isso, para a segunda pergunta, costumo ainda lembrar o que disse Fernando Savater ao final do livro “Ética para meu filho”, um dos livros introdutórios mais lidos sobre essa matéria. Depois de escrever mais de 100 páginas a respeito do que é a ética, Savater recupera uma frase do filósofo alemão Wittigenstein, que diz: “se um homem pudesse escrever um livro de ética que realmente fosse um livro de ética, este livro destruiria, como uma explosão, todos os demais livros do mundo”.  

Não sei se para você que está lendo esse texto fica claro o que quero dizer. Ao contrário do que algumas pessoas tendem a pensar, a ética não é um espaço para impor verdades. Tampouco é uma mera especulação filosófica. Assim, quem pesquisa sobre o assunto muitas vezes se depara com situações inéditas para as quais não há uma resposta pronta, muito menos verdadeira. Isso não exclui que exista o certo, o adequado, o justo, etc. É preciso pensar. Mas, além de refletir, é preciso também colocar em prática o que pensamos. Esse é, em síntese, o que trazemos para você, raro leitor ou leitora deste “Ética de Bolso” nesta série que chamamos “Reconnecting”.

Senta que lá vem história…

A pandemia causada pelo Covid-19 transpôs milhares de salas de aula de escolas e universidades para plataformas virtuais como o Zoom, entre outras. A mudança foi brusca, sem muito tempo para preparação ou adaptação. Professores e alunos tiveram que aprender na prática como lidar com um novo espaço de ensino-aprendizagem. Surgiram, assim, diversos casos e questões éticas interessantíssimas. Uma delas abordaremos nesta série do “Ética de Bolso”. Demos o nome de “Reconnecting” porque, assim ficou conhecido o viral que nos levou a trabalhar durante os últimos 3 meses.

O caso “Reconnecting” se insere em um contexto maior, de exposição de aulas, alunos e professores em redes sociais digitais.  Tudo começou com vários vídeos curtos divulgados no Tik-Tok sobre trolagens feitas durante aulas on line no Zoom. Especificamente, cabe destacar o papel do influencer norte-americano Samuel Grubbs. Com mais de 4,8 milhões de seguidores Grubbs publicou uma série de desafios e de tutoriais para que seus seguidores (em grande medida, jovens e estudantes) fizessem “brincadeiras” durante as suas respectivas aulas pelo Zoom. Num de seus vídeos, por exemplo, apresenta um guia de como fazer ou coordenar entre colegas uma ação.

Uma das postagens de Grubbs que mais viralizou nesse contexto (aulas pelo Zoom versus trolagem) – chegando mais de 9 milhões de likes e 54 mil comentários –  foi o caso “Reconnecting”. Em uma ação combinada, no meio de uma aula e sem o conhecimento da professora, todos os alunos da turma mudam o nome dos seus respectivos avatares para “Reconnecting” e apagam as câmeras; com isso, a professora se assusta, achando que os alunos estão com algum problema técnico. As reações da professora e a ação conjunta é filmada com um celular e, posteriormente, publicada na rede Tik-Tok. Se você não viu, pode assistir esse vídeo aqui.

Aldeia global, ética local?

Ao contrário de muitos professores, mães e pais, a geração que desembarcou em 2020 nos bancos universitários nasceu (ou cresceu) com banda larga instalada e com a web 2.0 implementada. O choque info-geracional, contudo, não teria por que ser um problema. No entanto, com independência de aceitarmos a fluidez entre o mundo físico das salas de aula e o espaço das redes sociais digitais, é preciso entender que ambos possuem finalidades distintas.

Precisamente é a partir deste ponto que começamos a vislumbrar questões éticas novas. Entender os limites, adequações e responsabilidades em cada espaço social é parte de um processo de socialização ético que vai além de qualquer fronteira. Aprendemos ao longo da nossa vida, por exemplo, como devemos nos comportar em uma biblioteca ou em uma discoteca. O comportamento aceitável entre livros e no rolê dista muito. E muda de tempos em tempos. A maneira de chacoalhar o esqueleto no final da década de 90 talvez seja fruto de deboche se reproduzida em uma discoteca contemporânea (ou sabe-se lá como chamam hoje em dia). Assim também não precisamos mais vestir terno e gravata para entrar em uma biblioteca (algo que era exigido até princípios do século XX). Ambas formas de comportamento respondem a uma ética, ou seja, como vivenciamos determinadas experiências (quer seja a da biblioteca, quer seja a da discoteca).     

A irreverência juvenil é marca dos vídeos de Grubbs e de seus seguidores. Isso sem falar em outros tantos influencers juvenis que fazem do Tik-Tok a rede social mais queridinha de adolescentes e jovens. Assim, não surpreende que a pandemia tenha apenas acelerado acontecimentos previsíveis como o uso inadequado de conteúdos relativos a âmbitos diversos da vida social. A publicação de Samuel Grubbs apenas detonou algo latente. Tanto é assim que a própria autoria da ação “Reconnecting” se perdeu pelo caminho e passou a ser atribuída ao canal, “Tik-Tok”, e não mais ao mensageiro que a criou. E foi reproduzida mundo afora, chegado até mesmo à nossa ESPM.    

Não se trata, portanto, de julgar a ação de milhares de jovens que reproduziram em suas salas de aula o “Reconnecting”, gravando-o e difundindo-o, posteriormente, em seus perfis em sites de redes sociais. O interessante para nós, do Grupo de Pesquisa em Ética, Comunicação e Consumo (GPECC) do PPGCOM da ESPM, é ver o que podemos eticamente aprender a partir desse caso e, assim, contribuir para a construção de novos parâmetros éticos para ambientes de ensino-aprendizagem digitais. Como bem lembrou o Wall Street Journal, se as salas de aula passam para o on line, tudo o que nelas há, incluindo a zoeira adolescente, também vai, com uma diferença: os jovens estão utilizando a sua maior familiaridade com o entorno digital para romper com o e-learning. Novos contextos, nova ética?  

O “Reconnecting” como você ainda não viu

Nesta série especialmente preparada pelos pesquisadores do GPECC/PPGCOM- ESPM, o Ética de Bolso aborda o caso “Reconnecting”. Como já dito anteriormente, acreditamos que podemos, a partir deste evento, originado nos EUA, mas que também afetou alunos e professores da ESPM, entre muitas outras instituições nacionais e internacionais, pensar sobre distintos aspectos éticos da vida digital e, assim, buscar novas boas práticas éticas nos ambientes virtuais de ensino-aprendizagem.   

Ao todo produzimos 10 (dez) artigos e alguns vídeos (5 já estão disponíveis, outros ainda serão publicados), com formatos e abordagens distintas, ainda que com o mesmo fio-condutor. A ordem da leitura dos textos não altera o resultado. Deixamos a critério do leitor ou leitora escolher a sequência. Apresentamos os textos, a seguir, aleatoriamente e sem spoiler.

Gustavo Dainezi aborda a emergente da cultura do “hit” e a busca juvenil pela “hitagem”. Quem publica um vídeo sobre o “Reconnecting” busca inserção nesse espaço do olimpo triunfal dos likes, comentários e compartilhamentos. Mas como fica quando o resultado da postagem não encontra o êxito esperado, produz danos à imagem de terceiros ou, incluso, é eticamente reprovável?  Como pensar a partir desse contexto consequências e responsabilidades?

Outro elemento importante vislumbrado a partir do caso “Reconnecting”, mas também extremamente presente na cultura das redes sociais digitais (e isso vai muito além de vídeos do Tik-Tok) é a questão do estigma. Por mais direito ao esquecimento que tenhamos, o estigma social é algo que perdura. Vale a pena ler com atenção a fabulação narrativa proposta pela pesquisadora Marilia Duque que aborda, de maneira sagaz, essa questão. Reflexão ética e prática literária unidas. Porque também da ficção aprendemos e refletimos sobre a ética nossa de cada dia.   

Ainda que próxima à discussão sobre estigma, a discussão sobre reputação envereda por outros caminhos. Em síntese, por tudo aquilo que dizem sobre nós e que resulta em uma imagem do que somos. E que não controlamos. Sheila Magri aborda esses e outros aspectos reputacionais tomando o exemplo do caso “Reconnecting”.

“Reconnecting” que expôs salas de aula e que nos convida a pensar também numa cultura da exposição, cujo controle também nos escapa, ainda que nos afete. O que era um ambiente privado, ou quase isso, restrito a professores e alunos, ganhou a visibilidade própria dos sites e redes sociais digitais. Some-se que as salas de aula virtuais visibilizam, também, parte das nossas casas, da nossa intimidade. Tudo isso e muito mais você vai encontrar lendo o artigo escrito pela pesquisadora do GPECC e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Glícia Pontes.

A exposição derivada do “Reconnecting” inclui também o uso indevido da imagem. Muitos dos que compartilham – e isso vale para qualquer postagem – imagens de terceiros não se colocam no lugar do outro, exercício básico de empatia e de ética. Em síntese, esse é o motivo do texto escrito pela pesquisadora Maria Júlia Alencastro Veiga. Pressupor que todos compartilham da mesma visão de mundo ou interesses pode ser um lapso ou um desconhecimento importante acerca da diversidade do nosso entorno.

Uma diversidade que também é pauta para pensar distintos lugares de fala, o do aluno e o do professor, quer seja em casos como o do “Reconnecting”, quer seja em outros similares. Você pode conferir essa e outras questões similares no texto escrito pela pesquisadora do GPECC e doutoranda em análise de discurso na Unicamp, Raquel Hadler.

Ecoando também a tradição dos estudos do discurso de linha francesa e a questão da linguagem moral, a professora da UFRJ e pesquisadora do GPECC Maria Claudia Carvalho nos convida a pensar o lugar do sujeito (virtual), ou melhor, quem é ele, que muitas vezes é apagado em casos como o do “Reconnecting”. Essas perguntas são abordadas e respondas no texto Onde está o Wally (leia-se, o sujeito e sua ética)?    

Colocar-se no lugar do outro é um exercício ético por excelência ainda que, muitas vezes, seja esquecido quando se trata das interações em sites e redes sociais digitais. Consciente ou não, parte deste apagamento fomenta práticas de vigilância e de exposição da privacidade alheia, tema abordado no artigo escrito pelo pesquisador Lucas Baumgartner.  

Privacidade que precisa ser vista como algo eminentemente ético e não como algo que apenas quem tem algo a esconder faz uso. Pensar os conflitos e trânsitos entre a vida pública e privada é necessário para o estabelecimento dos parâmetros éticos dos ambientes virtuais, conforme exponho no texto escrito por mim, Luiz Peres.  E não vale acreditar que a privacidade é coisa do passado.

Esperamos – e digo em nome de todo esse Grupo de Pesquisa – que você goste do material que preparamos. Ele pretende ser apenas mais um elemento para conversar com você sobre ética. Seria muito legal poder, a partir desta série, receber comentários que permitam que sigamos construindo reflexões ética para propor novas ações práticas. Afinal, esse é o objetivo desse nosso “Ética de bolso”.