Está tudo dominado? Ética e privacidade digital em tempos de Zoom e de pandemia

por Luiz PERES-NETO

Tempo de leitura: 4 minutos

O confinamento decorrente da pandemia do Covid-19 impulsou diversas práticas de consumo e interação digital até então minoritários nas nossas vidas. Lives e aulas virtuais, por exemplo, não eram coisas exóticas. Existiam já há algum tempo. Converteram-se, contudo, da noite para o dia, em parte das nossas agendas.

É verdade, foi tudo muito rápido. Um dia, pela tarde, buscava meus filhos na escola e, na manhã seguinte, já estávamos todos confinados. O meu trabalho, que já era feito parcialmente de forma remota, passou a ser 100% virtual. Não tivemos tempo para nos preparar. Como se diz por aí, foi preciso trocar o pneu com carro em movimento.

Nesse contexto muitos de nós passamos a utilizar com uma maior frequência e intensidade ferramentas para conferências on line tais como Zoom, Microsoft Teams, Google meet, Skype ou Jitsi, para ficar nas cinco mais populares. A primeira delas, contudo, ilustra graficamente a mudança no consumo de apps de videoconferência à raiz da pandemia. Em dezembro de 2019 eram realizadas diariamente cerca de 10 milhões de videoconferências pelo Zoom; no final de março de 2020, eram mais de 200 milhões/dia[1]. Somemos a esse número assustador o volume de videoconferências realizadas pelos outros programas mencionados acima e temos um (novo) fenômeno de consumo nas redes. Com ele, novos e velhos debates éticos ganharam terreno como, por exemplo, o da privacidade dos usuários e seus dados, o que trataremos a seguir.  

 

Positivo e operante: estamos te olhando.

Uma das primeiras questões que (re)surgiram com o boom dos programas de videoconferência foi a percepção de vigilância. Curiosamente, ainda que muitos dos usuários regulares da Internet já estivessem acostumados com a aceitação de termos de uso e políticas de privacidade que permitem a provedores de internet, sites, apps ou plataformas o rastreio, a coleta, o processamento e uso de dados com fins nem sempre claros, muitas vezes eticamente questionáveis e muito pouco fiéis ao consentimento outorgado, ganhou um destaque especial o fato de que, por exemplo, o Zoom instalasse uma espécie de servidor nos usuários de computadores Apple que não pode ser apagado facilmente, mesmo quando o usuário “deleta” o programa[2].

Some-se a isso problemas de segurança que, juntamente com o anterior, levaram a investigações nos Estados Unidos por possíveis práticas abusivas quanto ao tratamento dos dados pessoais e a segurança[3]. Em um curto período de tempo, surgiram vários problemas de privacidade/segurança: hackers descobriram que parte das videoconferências eram estabelecidas por servidores na China e não nos EUA[4]; que ao utilizar programas como o Zoom o usuário poderia expor programas (e dados) como Outlook ou mesmo arquivos e impressoras em redes domésticas[5]; isso sem contar com a descoberta do New York Times de que o Zoom contava com um sofisticado processo de mineração de dados executado à margem da vontade dos usuários[6].              

Em meio a tudo isso, figuras como o Primeiro Ministro britânico Boris Johnson, ao fazer gala de que o seu gabinete se reunia virtualmente por meio do Zoom, obviou que tais conclaves envolviam segredo de Estado. Quer seja pelo debate aberto em torno à segurança do Zoom, quer seja pela gafe de ter exposto o identificador (ID) da sala da reunião, a janela indiscreta compartilhada pelo próprio Johnson expôs mais do que deveria, incluindo a imagem dos participantes.

Figura 1: O premier britânico revelando o ID do Zoom de uma reunião

É fato e precisa ser registrado que o próprio CEO da Zoom fez questão de vir a público e oferecer uma resposta para as inúmeras críticas quanto à segurança dos usuários. Porém, quanto aos problemas éticos relacionados à privacidade, pouco ou nada foi esclarecido além das boas intenções e do já clássico discurso jurídico de que tudo está cristalino nos “Termos de uso” e nas “Políticas de privacidade”, como se o respeito à ética fosse simplesmente cumprir com formalismos legais[1].

Até mesmo quem nunca se preocupou com a privacidade on line passou a temer que programas de videoconferência capturassem dados de voz ou imagem mesmo quando o usuário mantém a câmera e o microfone desligados. Infelizmente, tal prática é comum e não é restrita aos programas de videoconferência. Como alerta David Lyon (2007) a evolução das tecnologias da comunicação vem sempre acompanhada de uma maior sofisticação nas práticas de vigilância.

Curiosamente, o caso do Zoom nos traz uma reflexão muito mais simples ainda que, a meu ver, muito mais profunda. Nesse e em outros casos o usuário não tem a opção de não valer-se do Zoom ou de outros programas. Claro que existem alternativas. Porém, quando o seu cliente ou a organização para a qual você trabalha decide por você, não usar um determinado programa deixa de ser opção viável. Assim, nos vemos presos numa ética do tudo ou nada. É pegar ou largar. Ou aceitamos ceder parte da nossa privacidade ou simplesmente não podemos utilizar um software que, paradoxos à parte, somos compelidos a usar por questões que escapam à nossa capacidade de escolha.   

Para saber mais, assista ao vídeo “Privacidade e ética nas redes”: https://eticadebolso.com.br/video-privacidade-e-etica-nas-redes/

Referências

LYON, David. Surveillance Studies. Cambridge: Polity Press, 2007.


[1] https://blog.zoom.us/wordpress/2020/03/29/zoom-privacy-policy/


[1] https://blog.zoom.us/wordpress/2020/04/01/a-message-to-our-users/

[2] https://www.islabit.com/103067/eliminar-la-aplicacion-zoom-satisfactoriamente-de-tu-mac.html

[3] https://www.nytimes.com/2020/03/30/technology/new-york-attorney-general-zoom-privacy.html?smtyp=cur&smid=tw-nytimes

[4] https://www.lavanguardia.com/tecnologia/20200403/48281578055/expertos-alertan-problemas-privacidad-zoom.html

[5] https://retina.elpais.com/retina/2020/04/06/innovacion/1586169223_190951.html

[6] https://www.nytimes.com/2020/04/02/technology/zoom-linkedin-data.html