Há autonomia na imagem?

por Majú VEIGA

Tempo de leitura: 3 minutos

A imagem possui certa autonomia. Ao interagir com o mundo exterior somos constantemente confrontados com os corpos das outras pessoas, com seus rostos, mas nosso próprio rosto só conseguimos visualizar com o auxílio de um reflexo ou de uma câmera. Essa representação é uma parte nossa da qual não temos controle. Assim como “a traição das imagens” anunciada na pintura surrealista, isto não é um cachimbo; e, sim, é a pintura de um.

Confesso que essa autonomia das imagens sempre me gerou angústia, daí vem minha resistência a interagir por meio das redes sociais digitais, de postar imagens minhas online. Sabe aquelas fotografadas por amigos em festas, nas quais somos só marcados? Tenho pavor. Sempre me gerou um desconforto não saber quem terá acesso ou para quais fins estas imagens seriam utilizadas. Logo, tomei uma atitude radical e optei por não participar do Facebook ou Instagram. Atualmente somos confrontados com uma espécie de ética do tudo ou nada. Para instalar qualquer aplicativo temos que aceitar o termo de uso, não temos a opção de aceitar 90% e trocar uma ideia com o Facebook, negociando os outros 10%, então acabamos por consentir ou perdemos acesso.

As imagens cada vez mais desempenham papéis centrais na sociedade contemporânea e mediam gradativamente as relações sociais. Existe um grande aparato de máquinas e modos de ver, mas quanto mais somos vistos, mais acabamos por ser vigiados. Ao caminharmos na rua, ao utilizar o metrô, na maioria dos espaços públicos urbanos estamos sendo gravados. A modernidade redesenhou as fronteiras entre público e privado. 

Fernanda Bruno (2013) analisa este contexto a partir de duas vertentes – a disciplina e o espetáculo – uma vez que boa parte das imagens que geram coleta de dados e estabelecem esse regime são geradas por nós mesmos em nossas redes sociais e não só pelo aparato estatal. Como falei, as imagens desempenham um papel central para a mediação de relações sociais contemporâneas. Particularmente no contexto de quarentena, sem a existência destas máquinas de ver, não conseguiríamos falar com os familiares e amigos que estão longe ou continuar trabalhando e estudando de uma forma mais segura. Então acabamos por aceitar os termos de uso, com os quais nem sempre concordamos.

Ao apertar o botão de “concordo”, subentende-se um consentimento. No entanto, para que possa existir consentimento é necessário autonomia. O conceito de consentimento, no âmbito dos estudos de gênero, por exemplo, é acompanhado do conceito de vulnerabilidade. Sem autonomia não é possível existir consentimento. Quem está em uma posição de vulnerabilidade não consegue consentir (é nesta posição que a pandemia e a quarentena nos coloca). O aparato das máquinas e modos de ver não negocia em posição de igualdade conosco e cada vez mais nossas imagens parecem adquirir mais autonomia que nós. 

Referência

BRUNO, Fernanda. Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2013.