Hitei! Não me processa! A ética entre a ação e a responsabilidade

por Gustavo DAINEZI

Tempo de leitura: 6 minutos

Uma afirmação inescapável no mundo contemporâneo é aquela que explica a internet como o ambiente onde todo mundo produz conteúdo. Produz e consome. Este cenário inspirou ou resgatou uma série de nomenclaturas científicas: prosumidor, a audiência ativa, os co-produtores, o receptor ativo.

O acesso à técnica, antes absolutamente restrito, agora está ao alcance dos dedos, em grande medida, decorrente dos avanços impulsados pela web 2.0. O mero uso cotidiano das tecnologias digitais oferece inúmeras maneiras de produzir diversos tipos de conteúdo. Muitas vezes, pensamos o nosso próprio cotidiano a partir da lógica de sua publicação. A produção de um conteúdo que visa a atração de curtidas e reações responde a um tipo de performance que seja capaz de atrai-las. As formas de presença no mundo digital que alteram as próprias dinâmicas do nosso cotidiano.

Assim, algumas pessoas filmam suas crianças 20 das 24 horas de um dia em busca daquele momento espontâneo que é fácil de viralizar. Outras criam situações artificiais com o intuito de compartilhar a vida e chamar atenção. Outras ainda dedicam seus aparatos culinários à preparação de variadas formas de meleca, para se poder participar desta ou daquela moda digital. Também a adoção e filmagem de gatos fugindo de pepinos ou fofamente atazanando, de cachorros a trabalhadores em home office, atingem níveis estratosféricos.

Todas estas atividades, é bem verdade, são parte de um fenômeno anterior à Internet, ainda que ganhem novos contornos com a mesma, principalmente no tocante às variáveis tempo e espaço. Mas, nos dias de hoje, há uma centralidade desses comportamentos, dadas as condições sociais e tecnológicas que são exclusivas da contemporaneidade. Se, antes, para ocupar a agenda pública era preciso passar por um burocrático processo editorial e virar notícia em algum jornal ou aparecer na televisão, hoje o estrelato é potencial para qualquer um. Assim, surgem celebridades felinas e caninas, bebês que apenas balbuciam e acumulam milhões de fãs, incontáveis visualizações, etc. A lógica da viralização transforma estas celebridades em negócios que até estampam camisetas, canecas e stickers de WhatsApp.

Quando falamos de um conteúdo qualquer, que atinge esta popularidade instantânea, atendendo à lógica da viralização, utilizamos o termo do dicionário urbano chamado “HITAR” (lê-se “ritar”), ou seja, virar HIT, atingir um número enorme de interações em um intervalo muito curto de tempo. Nosso modo de ser nas redes – sobretudo as sociais digitais – é expositivo, quer isso seja voluntário, quer não. O estímulo constante pela divulgação da vida é a própria razão de ser da economia digital, que depende da nossa produção. Aí estão os chamados “influencers”, que não nos deixam mentir.

Ser popular na internet também atende a mecanismos de prazer e recompensa com os quais fomos pouco a pouco nos acostumando (e porque não dizer viciando-nos). Nosso estilo de vida envolve diversos momentos diários em que recortamos uma parte de nossa realidade (ou a fabricamos) para que o mundo veja. E o mundo aqui é o mundo mesmo. O mundo inteiro, conectado. Porque é este o auditório potencial de todo conteúdo da rede. Potencial, é claro. Afinal, estamos submetidos à mediação de algoritmos. Mas, essa é outra conversa.

Uma ética da popularidade

Assim, tudo o que publicamos, desde opiniões, notícias, reclamações, até denúncias e os cenários que artesanalmente fabricamos – humorísticos, desafiadores, artísticos – nós fazemos para atingir o maior número de pessoas, likes, compartilhamentos, etc.

Se formos pensar esta lógica como uma ética, ou seja, como um sistema de valores que guia o comportamento das pessoas, essa ética teria na sua gênese já uma intencionalidade: a da popularidade. Trocando em miúdos, uma ética da popularidade explica a hitagem pela popularidade como um valor. Calma, a gente detalha um pouco mais.

Toda ação livre pode ser definida pelo trinômio intenção-ação-consequência, como o passado-presente-futuro definem o tempo. As duas primeiras partes, intenção e ação estão quase sempre sob nosso controle. A consequência, quase nunca. No máximo é almejada, mas é propriamente definida como incontrolável.

Quando postamos algo, buscando hitar, adotamos um tipo de ética chamada consequencialista, ou seja, que define a ação como boa ou ruim a partir da sua consequência. Assim, post hitado = sucesso. Post sem repercussão = fracasso.

Mas isso só numa primeira camada de consequências. Porque, por exemplo, se o post ou publicação viralizada for na verdade uma denúncia falsa, uma agressão, uma mentira ou uma exposição indevida de alguém, a consequência 1 (hitagem) gerará uma cascata de outras consequências, ainda mais fora do controle de quem hitou.

Uma ética das consequências...pero no mucho ?

Isso nos traz uma questão importante: o dano derivado de um conteúdo seu, por causa de uma consequência que está fora do seu controle inicial (a hitagem) pode ter como responsável você, que deu início a este processo mas não controlou suas repercussões (e nem sequer tinha necessariamente a intenção de causá-las)? Ou seja, se a ética fosse uma conta simples, onde intenção + ação = consequência, a responsabilidade seria uma obviedade. Mas, se depois do símbolo de igual houver um universo inteiro de outras variáveis, a questão fica bem mais complexa.

Dessa maneira, o argumento em defesa do produtor de conteúdo é que tudo o que acontece depois da publicação deriva desses fatores complexos. E que, por isso, as consequências deletérias fogem de seu controle, e não fazem parte de sua intenção enquanto produzia e postava o conteúdo. Uma desculpa que pode ser resumida em “não pensei nas consequências”.

Ainda assim, mesmo com a complexidade, toda ação tem um rol de consequências mais provável e outras desejadas. Ligar uma mangueira numa torneira e abri-la tem a consequência provável de molhar algo. Você pode não pensar se o que estará na frente do esguicho da mangueira é a prova d’água, mas, se não for, a consequência seguinte será a quebra do objeto. Mais complexo ainda é se a coisa tiver um dia sido resistente ao empapuçamento, mas, por ação de algo ou alguém, deixou de ser. Você quebrou uma coisa que achava ser impossível quebrar. Mas quebrou.

Da mesma forma, uma pegadinha ou uma câmera escondida terão consequências prováveis associadas ao seu caráter: Se for a exposição ao ridículo de alguém, será o dano psicológico a esta pessoa, se for uma denúncia falsa, será o dano jurídico e assim por diante. Assim, podemos argumentar que não pensar em todas as consequências – ou ao menos nas mais prováveis – de uma hitagem não é desculpa suficiente para isentar de responsabilidade o produtor daquele conteúdo cuja intenção inicial era justamente hitar.

Para saber mais, assista ao vídeo “A responsabilidade do hit”: https://eticadebolso.com.br/video-a-responsabilidade-do-hit/