Não tem ninguém olhando. Posso embarcar com Coronavírus?

Por Marília Duque

Aristóteles propõe que a virtude conduza a uma vida boa que resulta em felicidade. A virtude é o equilíbrio, a “justa medida” entre uma falta e um excesso (o que equivale dizer entre dois vícios). Tomemos o medo como exemplo. O excesso de medo pode tornar uma pessoa covarde. A falta de medo pode fazer uma pessoa despencar de um penhasco ao se aproximar do abismo para capturar uma self. Trata-se, pois, de uma pessoa excessivamente destemida. Entre o covarde e o destemido existe um equilíbrio, praticado via ações ponderadas. Essa ponderação, enquanto deliberação sobre si, é onde há a possibilidade de uma atuação virtuosa, que é o bem, que gera o bem, que define o caráter, que se traduz em uma vida boa e, como já disse, conduz à felicidade. Essa ponderação não é dada, não é uma regra. É na deliberação individual sobre si onde se dá o exercício da ética. Para Aristóteles, essa deliberação deve ser embasada em conhecimento e deve também considerar o outro e o coletivo. Neste sentido, ao agir virtuosamente, o indivíduo se tornaria melhor e, tornando-se melhor, promoveria também o bem do outro e da vida na pólis. Neste sentido, agir de forma ética não é estar sob vigilância, não é se submeter às regras. A virtude reside na escolha. Em outras palavras, a ética é o que se pratica quando ninguém está olhando.

ÚLTIMA CHAMADA

Neste sentido, a pandemia do Covid-19 é uma oportunidade única para se praticar essa ética sobre as próprias ações, de maneira a proteger o outro e a vida na cidade. Explico. No começo da pandemia, quando uma pessoa chegava ao Brasil de um vôo internacional, por exemplo, ela deveria permanecer em quarentena. Ela poderia ter embarcado doente ou ter se contagiado no trajeto. A quarentena, portanto, evitaria que ela colocasse o vírus em circulação. Porém, em distanciamento social, essa ação se daria longe dos olhos do outro. Desta maneira, tratava-se de uma ação voluntária, de um querer ponderado considerando a si e o coletivo. Da mesma forma, se uma pessoa apresentasse sintomas da doença, ela deveria notificar as pessoas com quem teve contato para que essas também pudessem ficar em quarentena. Mais uma vez, cada um deliberaria sobre si. Vamos dar nomes aos bois para ilustrar essa situação. Juliana testou positivo para Coronavírus. Juliana esteve com Paulo. Juliana comunicou a Paulo que está com sintomas. Mas Juliana teria a opção de não comunicar a Paulo. Se alertado, Paulo tem a opção de seguir a vida normalmente ou de adotar a quarentena. Ambos podem manter suas decisões no privado e longe do julgamento do outro. Juliana poderia não dizer nada a ninguém sobre seus sintomas. Paulo poderia não dizer nada a ninguém sobre os sintomas de Juliana e sobre seu contato com ela. É por isso que a deliberação sobre as condutas individuais em contexto de pandemia é um campo frutífero para o exercício da ética. Ninguém está olhando. Ninguém vai saber. Mas, ainda assim, escolhe-se agir de maneira virtuosa e fazer o bem que não pode se dar senão visando igualmente o bem comum. Mas não. Nem sempre a escolha virtuosa orienta nossas ações.

NA SURDINA

Eu poderia ilustrar aqui o caso das pessoas que teimaram em entrar em estabelecimentos comerciais sem máscara ou aquelas que se arriscaram em festas clandestinas. Mas essas duas situações se dão à vista, sendo passíveis do julgamento do outro. Eu quero falar das outras pessoas. Aquelas que colocaram os outros em risco na surdina. Nesses casos, a deliberação foi entre o benefício para si e o dano para o outro. Para minha surpresa, me vi rodeada de pessoas assim. E mais que decepcionante, foi doído, porque são pessoas que agem de forma virtuosa em diversas esferas da vida ou que propagam um discurso sobre uma vida virtuosa que privilegie o coletivo. Mas não tem jeito. A ética se dá nas ações e o contexto de privacidade é uma prova de fogo. Vou dar um exemplo. Uma amiga tem duas casas em duas cidades diferentes. Ela já tomou duas doses da vacina. Ela tem curso superior, é aposentada e tem um excelente padrão de vida. Ela é implacável com corrupção, paga seus impostos, faz boas ações. Ela apresentou os sintomas no cidade A, mas tinha uma passagem marcada para voltar ao cidade B. Ela não teve dúvidas. Por causa das duas doses da vacina, não teve febre. Por isso, ‘tomou o cuidado’ de colocar duas máscaras e embarcou assim mesmo. Ninguém viu. Ninguém sabia. Ela ainda tinha uma segunda viagem a fazer. Mas esta envolvia a visita a parentes. Então o ‘cuidado’ foi maior. Um teste foi feito três dias antes da data da viagem e o embarque foi cancelado porque ela ainda estava transmitindo o vírus. Não se coloca a vida de parente em risco, certo? Mas e a de estanhos? Trata-se, pois, da adoção de duas condutas diferentes: aquela que beneficia a mim e resguarda os meus e aquele que beneficia a mim e aos meus em detrimento dos outros desconhecidos.

OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS?

Esses pesos e medidas se ajustam melhor a uma ética utilitarista. Grosso modo, trata-se daquela ética de que os fins justificam os meios. Não. Nem a ética utilitarista é capaz de respaldar tal ação. Porque o fim, nessa perspectiva, seria aquele capaz de beneficiar o maior número de pessoas, mesmo que algumas fossem prejudicadas no caminho. Ou seja, considera-se o prejuízo ou sanção de um menor número de pessoas em prol de um maior número de pessoas. Na ação da minha amiga, essa racionalidade também é invertida. Ela não deixou de viajar visando o bem das mais de 200 pessoas que embarcaram no mesmo avião com ela. Ao contrário, ela ponderou que viajar (o fim) valia colocá-las em risco (o meio). E por que estou aqui chorando o leite derramado? Porque essa ética deslocada não é só desrespeito. Ela pode custar vidas. E muito provavelmente, durante essa pandemia, ou na vida, você ainda vai passar por uma situação em que não tem ninguém olhando. Esse é o momento em que você pode escolher fazer o bem visando o bem comum. E quero que você se lembre desse texto. E se não quiser lembrar de Aristóteles, lembre-se de Newton. Para toda ação existe uma reação de mesma intensidade e direção, porém em sentido inverso. E esse é um outro problema. Na vida em sociedade, nem sempre a reação da sua ação atingirá você diretamente. Mesmo uma pessoa que decide por fim à própria vida precisa levar em consideração a vida dos outros. Por exemplo, se a decisão for por pular de um shopping, ela corre o risco de não matar só a si, mas a outros que inadvertidamente passaram pela calçada do shopping no momento da sua queda. Estamos conectados na cidade. Deveríamos estar conectados como um coletivo. Precisamos nos reconectar a quem é diferente de nós, ao desconhecido. Só assim haverá respeito para com os meus, os seus e os nossos.

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Para saber como perdoar a sua amiga que pisou na bola na pandemia, leia a parte “Errar é Humano” desse post aqui.