‘Onde está você, Wally?’ e a procura do sujeito virtual

por Maria Cláudia da Veiga Soares CARVALHO

Tempo de leitura: 6 minutos

O mundo virtual é um setting imaginário, cujas imagens produzem efeitos na realidade da vida. Assim como a imagem de um lindo prato nos faz salivar, algumas enunciações postadas na internet nos impactam e produzem efeitos concretos. Se uma mensagem nos afeta, se ela marca um acontecimento na vida da gente, marca também uma experiência de comunicação. As experiências virtuais ressignificam gestos, sons e palavras em um movimento de ir e vir dos discursos. Mais do que a tecnologia o que está em jogo nesse processo é a subjetividade, afinal postagens, e mesmo robôs, não nascem do nada.

Partindo do pressuposto de Michel Pêcheux que onde há discurso, há sujeito, o nosso intuito é buscar entender o sujeito virtual. Quem é ele em meio a tantos significados no ciberespaço? Se, por um lado, a internet nos oferece uma multiplicidade tecnológica de possibilidades, por outro, continuamos os mesmos seres humanos, nos afetamos a partir de algum mínimo vestígio de reconhecimento sensível. Nossa felicidade continua dependendo dos outros, ou de outras coisas. Difícil imaginar um ‘nada’ que nos causa emoções… sem uma ‘cara’, não nos reconhecemos. A pergunta disparadora então seria como compreender os sentidos de se mostrar desaparecido? Ou, dito de outra forma, qual a ética das falas sem sujeito lançadas ao mar da internet?

Linguagem e ética: pistas para decifrar o sujeito virtual

A hipótese é que o sujeito virtual está materializado na linguagem pelas redes sociais, ele produz discurso. Nada novo, visto que autores da linha francesa de análise de discurso defendem que não existe discurso sem sujeito. Entretanto, muitas vezes ele se esconde em meio a tantas parafenálias da internet, gerando um espaço vazio. O mesmo acontecia nas ricas ilustrações do britânico Martin Handford com o quadro que criou há 30 anos ‘Onde está Wally?

O personagem Wally é um menino de blusa listrada que deve ser encontrado nas ilustrações. Handford o coloca sempre no meio de cenários com infindáveis objetos pequeninos e coloridos. Um desafio que nos serve como metáfora: Wally está entre o real, pois sabemos que ele está em algum lugar da ilustração, e o imaginário, mas não conseguimos vê-lo. A profusão de coisas nas ilustrações expressa um caráter bem-humorado de um jogo de esconde-esconde que acaba quando o localizamos em algum cantinho do cenário.

As imagens virtuais da internet são infindáveis e, por vezes, circulam aparentemente sem dono ou referência de autoria pela internet. São transparentes: meio reais, meio imaginárias.

O português do Brasil é uma língua transparente também, tem muitos recursos abstratos e podem ser utilizados por qualquer falante para fazer qualquer enunciado. Assim como a internet, pode operar como algo interativo de arquitetura aberta. O discurso é aquela mensagem que faz sentido, e, como Wally nas ilustrações de Handford, envolve a capacidade humana de significar coisas, mesmo que estejam escondidas.

O que nos interessa analisar aqui é uma perspectiva ética desse esconde-esconde. Mas de que ética estamos falando? Cabe falar sobre ética quando envolve gente de carne e osso. Queremos compreender o sujeito virtual materializado pelos discursos – porque essas construções nos afetam – e, por isso, precisamos fazer negociações entre as partes envolvidas. Em síntese, esse seria o nosso norte ético.

O esconde-esconde do caso reconnecting

Segundo Eni Orlandi, nem sempre identificamos o que nos afeta no discurso, mas se nos afeta é porque faz sentido. Assim vamos a um texto desafiante, datado e construído socialmente em um dado com-texto social fictício. Imaginemos uma situação de desaparecidos para analisar: uma aula online onde todos os alunos de uma turma ficam no status ‘reconectando’ na plataforma de videoconferência, sem se identificarem durante todo o tempo. A professora não os identifica e age como se não estivesse em aula. Porém, como a conexão está mantida, os alunos têm acesso ao que ela não imagina que eles estivessem vendo. Ela fica à vontade sem se colocar no papel de professora, mas não sai da sala virtual. Nesta cena hipotética, vejam que por um lado, os alunos estavam ‘desaparecidos’, e por outro, havia conexão. Ficaram num compasso de espera com status indefinido: os alunos estão lá, mas inacessíveis.

O problema ocorre em função do que a professora revela no vídeo, que não estava dirigido aos alunos, mas é por eles apropriado indevidamente e divulgado posteriormente por eles. O apagamento dos sujeitos traz à tona uma dimensão ética produzida pela ausência de identificação de mensagens lançadas ao mar da internet: os efeitos nefastos encobertos pelo apagamento de fontes de postagens manipuladoras, tal como ocorre com as FakeNews.

“Matanto” aula 2.0

Um olhar rápido deixaria escapar uma mensagem dessa cena pois, se a professora não deu o conteúdo da disciplina, não houve aula e, assim, não haveria problema na situação. No entanto, houve comunicação truncada: na experiência de comunicação descrita, a professora não era professora naquele momento, e os alunos, não estavam exatamente ‘presentes’ na sala de aula, mas houve troca de mensagens.

Com existência suspensa, essa experiência de comunicação apresenta vestígios de uma subversão: não há professor nem aluno em ação, estão fora de seus papéis, mas não desconectados.

Baseado no pressuposto que o discurso e a linguagem nunca são neutros, há interesses, intenções e opiniões presentes. O apagamento de um autor específico deixa vestígios que podem nos levar a um sujeito virtual para se imputar uma autoria. Nesse sentido, caberiam diferentes análises subjetivas sobre os envolvidos: poderíamos reconhecer aí um modo de ‘matar aula’ na versão de ensino mediado por tecnologias, ou uma desatenção do professor que ainda não se habituou à plataforma virtual, ou ainda despreparo das instituições para prover regras de convivência dentre outras possibilidades a depender do ponto de vista.

No entanto, a reflexão é sobre a ética de apagamento dos sujeitos envolvidos na comunicação em redes virtuais, autores de postagens e ‘co-autores’, que replicam as mensagens fazendo-as circular. Se as mensagens não vivem totalmente soltas, há que se mapear o sujeito virtual do contexto que as constitui e creditar-lhe uma autoria.

Uma ética para os papéis professor-aluno em espaços virtuais

A legitimação de uma ‘pseudo’ naturalidade das novas tecnologias de comunicação no papel de sujeito atuante, como se fossem uma entidade, é bem anterior à pandemia de COVID-19. Este espaço caótico, hoje com a pandemia, pressiona as instituições de ensino superior à reestruturação de novas práticas pedagógicas submetidas a uma ideologia neoliberal do ‘e daí?’. Muitas delas seguem confusas no ensino mediado por tecnologias, justificando-se pela emergência da situação, sem critérios consensuados entre os atores sociais.

Um sumiço dos sujeitos dos discursos retira nossas possibilidades de ação, nos posiciona fora da cena e nos deixa mais expostos a manipulações. Sem compreender subjetividades como intenções, interesses e opiniões da construção dos enunciados, tornamo-nos meros consumidores de mensagens. A armadilha é olhar e ficar assujeitado por não ver, ter uma sensação de fora, excluído. Não, não, não é natural não ter um sujeito virtual nos discursos. Recorro à filosofia: Pascal dizia que quando olhamos as paisagens de longe vemos cidades e campos, mas à medida em que nos aproximamos, são casas, árvores, telhados, folhas, plantas, formigas, pernas de formigas, até o infinito (1670:68-9). Os sentidos dos discursos transitam dentro de nós mesmos.

Numa leitura da Ética de Espinosa, apostaria que é o desconhecimento de nós mesmos, nossos papéis sociais constituídos por settings imaginários das redes, o que nos levaria a um assujeitamento diante das novas tecnologias. Sem perceber nossos papéis e sensações, nos perdemos de nossa capacidade criativa. Ao contrário, se posicionamos o sujeito na convivência social pelas redes, humanizamos nossas experiências comunicacionais.

Para saber mais, assista ao vídeo “À procura de um sujeito virtual”: https://eticadebolso.com.br/video-a-procura-de-um-sujeito-virtual/

Referências

ORLANDI, E. Análise do discurso, princípios e procedimentos. Campinas: Pontes Editores, 2012.

PÊCHEUX, M. Semântica e Discurso, Uma afirmação do óbvio. Campinas: Editora da UNICAMP, 2014.