Relação polêmica entre aluno e professor: limiares tênues entre o que pode ser dito e aquilo que escapa

por Raquel HADLER

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A pandemia causada pelo coronavírus marca o ano de 2020 na história. Além de ter infectado milhões de pessoas e deixado um sentimento amargo em milhares de lares ao redor do mundo pelas vidas que levou, a Covid-19 trouxe à baila algumas reações polêmicas que, além da grande visibilidade midiática que recebem, evidenciam posicionamentos e disputas de poder que passam a nortear a gestão deste novo contexto a partir do recurso da ridicularização ou descredenciamento do outro.

No cenário brasileiro, diversos exemplos podem ser citados, a começar pelas falas do presidente da República, as quais, de acordo com a memória institucional que nos constitui enquanto brasileiros, deveria seguir alguns protocolos que tentam estabelecer uma conduta ética, que prime pela responsabilidade. Chamar a Covid-19 de “gripezinha” não apenas refuta o discurso científico, como também ignora os pressupostos que a posição de presidente acarreta. Não se trata somente de uma adjetivação da Covid-19, visto que são reveladas posições antagônicas, adversárias e um processo de não legitimação do outro – o que caracteriza, em síntese, uma relação polêmica (MAINGUENAU, 1997). Quando posições como esta passam a ser praticadas por figuras públicas, como por um presidente de uma República, isso ganha força e tem efeito cascata nas demais esferas, incidindo, inclusive, na esfera da educação.

A sala de aula durante a pandemia tornou-se um grande desafio. No momento em que o processo de ensino-aprendizagem passa a ser mediado pelas plataformas digitais, muitas dificuldades apareceram e evidenciaram pontos nodais, difíceis de serem solucionados com um clique.

Vivemos em um país desigual, com diferentes realidades educacionais, quer seja no âmbito público, quer seja no privado. A grande preocupação gira em torno do aluno e muito se tem noticiado sobre a falta de condições para o estudo, sobre a dificuldade de acesso à internet e a equipamentos adequados para que as atividades pedagógicas propostas possam ser realizadas. Ademais, há também outros aspectos críticos, relatados principalmente por professores e pais de alunos.

Um ponto não muito abordado, contudo, em meio a pandemia é como os alunos estão encarando este contexto.

Não há como formular uma resposta padrão diante das realidades e interesses diversos que atravessam os milhões de alunos brasileiros. Podemos observar, por meio de reportagens que circulam na mídia, relatos sobre situações de afeto, de acolhimento, como também desabafos sobre o sentimento de descaso que alguns alunos contam. Também há a possibilidade de analisarmos a atuação desses jovens nas redes sociais on-line que, por proporcionarem aos seus usuários formas fáceis e ágeis de publicação e compartilhamento de conteúdos, trazem à tona situações espontâneas que relevam um pouco mais sobre como alunos estão lidando com o contexto de pandemia. 

Redes sociais digitais e a ridicularização do outro

Sem desconsiderar a existência de outras formas de apurar como a posição dos alunos tem se revelado neste contexto, chamo a atenção para um certo modo de atuação, que circula em algumas redes sociais on-line, que apresenta traços similares com a forma de se relacionar com o ‘outro’ adotada pelo alto escalão do Governo Federal no decorrer da pandemia. O que seria esse ‘outro’? Resumidamente, podemos dizer que seria aquilo que é diferente do meu universo de valores, dos espaços em que círculo, onde já sei (e coaduno com) o que pode e deve ser dito (HAROCHE; PÊCHEUX; HENRY, 2007). A relação com o outro é fundamental para qualquer sujeito, pois é através dela que constituo aquilo que sou e consigo firmar o que considero como a minha identidade.

Assim, chama a atenção como alguns alunos têm revelado sua relação com professores, que são um ‘outro’ em uma posição distinta da deles. Quando lembramos que as redes sociais digitais são formadas por pessoas com interesses em comum (MARTINO, 2015), nos parece que alguns dos interesses dos alunos estão relacionados com a ridicularização do papel do professor.

Ao levarmos em consideração que a linguagem não é transparente, propomos a reflexão sobre os sentidos que a ridicularização pode revelar. Quando uma pessoa é ridicularizada, ela sofre um processo de desqualificação e é posta como adversária, aspectos que caracterizam o exercício da polêmica (MAINGUENAU, 1997). Quando observamos que a ridicularização não é feita apenas por um indivíduo em relação a outro indivíduo, e sim entre vários alunos que inventam piadas e memes de professores, curtem e os compartilham em suas redes, percebemos que o exercício da polêmica se dá entre diferentes posições sujeito.

Lembremos que “todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo” (FOUCAULT, 1996, p. 44). Consequentemente, existem disputas em jogo de todo processo educativo, nas quais alunos, professores e outros atores que fazem parte deste sistema estão incluídos. É a partir das relações travadas entre as diferentes posições estabelecidas neste jogo que a polêmica começa a ser tecida, em um movimento interno que ocorre na relação com o outro.

“não surgem de forma contingente do exterior, mas são a atualização de um processo de delimitação recíproca, localizado na própria raiz dos discursos considerados” (MAINGUENAU, 1997, p. 120).

Intolerância, vontade de verdade e as disputas pelo poder

Portanto, uma polêmica não surge do nada, como uma criação repentina de um grupo de pessoas que ocupam uma posição. Ela é construída, principalmente no campo da educação, a partir de uma relação de poderes atravessada por uma ‘vontade de verdade’ (FOUCAULT, 1996), que não deixa de ser coercitiva. É a vontade de saber sendo regida pelas verdades que podem e devem ser ditas.

Interessante notar que em uma relação institucionalizada – como a que é estabelecida entre aluno e professor – a relação polêmica não é explícita; aparece camuflada, como um não dito. No entanto, não podemos esquecer que o implícito condiciona a organização da língua e, consequentemente, da comunicação. Ou seja, o equívoco sempre escapa e, portanto, a face do outro como adversário também, será sempre revelada em algum deslize.

Longe da intenção de repreender, acreditamos que seja importante incitar o debate sobre esses processos de intolerância que a polêmica denuncia, ainda mais quando em esferas ‘superiores’ isso parece ser praticado sem pudores. Se quisermos estimular o debate democrático, a liberdade de expressão e o respeito pelo outro, devemos levar em consideração que “as palavras mudam de sentido segundo as posições ocupadas por aqueles que as empregam” (HAROCHE; PÊCHEUX; HENRY, 2007, p. 6). Consequentemente, “qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa” (FOUCAULT, 1996, p. 9).

Referências

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: LOYOLA, 1996.

HAROCHE, C; PÊCHEUX, M; HENRY, P. (1971) “A semântica e o corte saussuriano: língua, linguagem, discurso”. In: BARONAS, R. L. Análise do discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. São Carlos: Pedro & João, 2007. p. 13-32

MAINGUENAU, D. Novas tendências em análise do discurso. Campinas, Pontes, Editora da Unicamp, 1997.

MARTINO, L. M. S. Teoria das mídias digitais: linguagens, ambientes e redes. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.