Reputação digital profissional em tempos de pandemia

por Sheila Mihailenko Chaves MAGRI

Tempo de leitura: 6 minutos

A reputação digital tem sido uma das preocupações apontadas por diversos profissionais nestes tempos de pandemia. Para executar as suas atividades em um modelo de trabalho remoto, os profissionais são condicionados a seguir as políticas de quarentena determinadas pelas organizações para as quais trabalham. Dentro deste cenário, impulsionados pela Covid-19, para tornar o trabalho à distância viável, organizações e profissionais têm se valido de ferramentas tecnológicas de comunicação para manter as atividades e a visibilidade de atuação das empresas no mercado e para seus clientes, visto que eventos presenciais institucionais e corporativos foram cancelados. Isso contribui para que as situações coletivas, relacionadas ao trabalho (reuniões, eventos, aulas e seminários presenciais), sejam transportadas para as plataformas de videoconferência como  Zoom, Microsoft Teams, Google meet, Skype ou Jitsi.

Como as ações voltadas para o público externo das organizações tem diminuído, sobretudo em termos do contato físico entre as pessoas, nota-se a ampliação do uso de campanhas e ações usando a internet para expandir a exposição das marcas. Percebemos adicionalmente que os profissionais têm sido convocados a gravar vídeos individuais, organizar webinars nas páginas corporativas e divulgar seu conhecimento técnico nas redes sociais para aumentar a exposição das instituições para as quais trabalham. Por conta disso, a percepção digital da imagem destas pessoas se tornou mais relevante e mais preocupante para os profissionais e para as organizações. 

Neste sentido, a exposição da imagem de profissionais nas redes sociais tem sido cada vez maior e muitos vem sofrendo as consequências dessa ampliação. Tal fato aponta para uma preocupação dos profissionais em: executar as suas atividades cotidianas; em manter o seu emprego diante desta situação crítica atual e de evitar uma potencial gafe virtual. Em outras palavras, os profissionais que estão cumprindo trabalho remoto se veem diante do desafio de manter a visibilidade do seu desempenho, além da capacitação técnica para as suas atividades corriqueiras, sobretudo diante desta condição de distanciamento social. Primeiramente, notamos uma movimentação deles para reforçarem a sua utilidade perante colegas e chefia. Depois, uma mobilização forte no sentido de compartilharem as suas habilidades e conhecimento técnico nas redes sociais corporativas, por meio de vídeos, para mostrarem a sua competência e os diferenciais competitivos da empresa. E somado a estes aspectos, notamos diversas tentativas para reforçarem o seu vínculo com as organizações ao se tornarem a “cara e a voz da empresa” nos perfis corporativos delas no Facebook ou LinkedIn. Contudo, ao mesmo tempo, os profissionais se encontram diante do risco de ter a sua imagem exposta de maneira inadequada.

Uma nova tendência: o compartilhamento de vídeos, fotos e telas de reuniões e aulas

Neste contexto, alguns profissionais com os quais conversamos pensavam no início da quarentena que se tratava apenas do uso de ferramentas tecnológicas para comunicação com um grupo restrito. No entanto, o que tem acontecido é que estas ferramentas possibilitam a gravação de aulas, seminários e reuniões e consequentemente a veiculação destes conteúdos e imagens. Tal capacidade proporciona um segundo momento que é o de compartilhamento de vídeos gravados e “prints de telas”. Estes quando são compartilhados por membros que estavam naquele ambiente restrito, extrapolam as margens do grupo inicial. Estas situações passam a ser comentadas por membros de uma audiência maior.

A imagem do profissional, a partir desta divulgação indesejada e ampla, se torna conteúdo, combinados com outros e ressignificados, “vazados” por outras pessoas e influenciadores nas redes sociais digitais. A partir daí, cria-se um efeito dominó, no qual a imagem destes profissionais se confunde com a sua imagem pessoal e a sua conduta fica disponível para avaliação no imenso tribunal de valores que é formado pelos usuários da internet.  Deste modo, a repercussão da imagem profissional oscila entre dois opostos: ora o conhecimento técnico é valorizado, ora ele é ridicularizado, sendo o comportamento pessoal do profissional sempre passível de julgamento.

Isso se dá porque o protagonismo profissional destes indivíduos extrapola a zona de conforto habitual na qual as pegadinhas eram permitidas, eram contornadas e, até certo ponto, bem administradas por eles. Estamos nos referindo àquelas situações desconfortáveis que os profissionais estão acostumados a enfrentar no âmbito privado das relações profissionais, mas que ganham outra leitura quando expostas nas redes sociais digitais. A sua atitude profissional passa a ser compartilhada para um grupo maior de pessoas, clientes, colegas ou mesmo alunos, no caso dos professores e profissionais palestrantes. Esta imagem passa a ser admirável, passível de ser risível, combatível, revelada em ambientes dos mais diversos. 

O grau de complexidade do que se apresenta para os profissionais em termos de reputação digital é enorme porque, além do mais, estas situações acontecem dento de outro ambiente, que é o da sua vida privada. Situações como a participação em chamadas de vídeo vestindo pijamas, assistir séries e filmes no computador da empresa durante o horário de trabalho, deixar o microfone ou a câmera ligados expondo situações de intimidade, ou permitir os filhos usarem o equipamento de trabalho para as aulas on-line deles são algumas atitudes que começaram a incomodar empresas e profissionais.

Sabemos que nos primeiros dias de quarentena, não foram estabelecidas as regras claras sobre o monitoramento dos empregados por meio da câmera do computador, da fiscalização do horário de login, ou sobre o fluxo de rede e de sites visitados. Também não foram estabelecidas as formas de contabilização de horas extras que são requeridas para a preparação e enfrentamento desta exposição potencializada. E não foram discutidas as questões éticas para a boa convivência entre os agentes diante destas novas condições de exposição nas mídias digitais.

É neste contexto que notamos como situações que ocorriam na vida profissional privada, restritas ao ambiente de trabalho, passam a se tornar temas de chacotas coletivas que são replicáveis nas mídias sociais. Os pequenos deslizes, as pegadinhas, as piadinhas tornam-se temas de discussões públicas nas redes sociais e que podem tomar proporções jurídicas, impactando a carreira destes indivíduos. Estes profissionais enquanto vítimas destes compartilhamentos sofrem pressões psicológicas. Se sentem na posição de tomar medidas judiciais. No entanto, estes acontecimentos têm consequências nas relações de trabalho, na medida que as atividades profissionais continuam depois do fato. Como ficam as relações deste profissional com seus contratantes, pares, chefes e subordinados?

A exposição pública de relações privadas

Não apenas isso. A classe inteira das chamadas profissões são passíveis do julgamento moral da conduta diante desta exposição. Vemos estas exposições ganharem adjetivações a partir do olhar do público geral e as condutas rotineiras dos seus partícipes passam a ser julgadas na e pelos usuários da internet. Condutas cotidianas reprimíveis, ou engraçadas de profissionais passam a servir de base para critérios de avaliação de comportamentos considerados aceitos ou inadequados para a totalidade dos profissionais do seu campo de atuação. Mas este julgamento conta com a atuação daquela pessoa específica que foi exposta. Esse profissional se torna o “gancho” para a avaliação coletiva da conduta. São exemplos as seguintes situações disponíveis nas redes sociais:  “aulas online que passaram do limite”, “procurador solta puns durante conferência”, “cenas engraçadas durante reuniões online na quarentena”, “como trollar um professor nas aulas online” . Além de várias situações de profissionais que esqueceram a câmera ou o microfone ligados durante webinars.

Que a exposição de temas internos das organizações (ou de situações desagradáveis que afetam a sua marca ou os seus negócios) nas mídias sociais é caso para demissões de empregados não é nenhuma novidade. Que existem plataformas específicas para os profissionais exporem seus currículos e realizações profissionais, também não é. Que existe uma etiqueta corporativa de como os profissionais deveriam se comportar nas redes, igualmente não é inovação. No entanto, o que a pandemia está intensificando é a convocação acelerada e forçada para a exposição virtual e para o gerenciamento da sua imagem profissional nas plataformas digitais. Neste sentido, podemos analisar o consumo de uma habilidade que é a administração da marca pessoal, que opera enquanto capital simbólico dos profissionais, para conferir distinção aos mesmos e suas respectivas organizações neste processo. A vida privada profissional é confundida com a vida privada pessoal e é exposta em conjunto com a vida pública virtual compartilhada. Vidas submetidas ao julgamento externo do profissional e de sua classe de profissionais.

 Construir uma reputação profissional teria o objetivo de criar uma narrativa capaz de “vender-se” a si mesmo, não mais pelo valor moral atribuído a uma conduta, mas ao valor imagético negociado com o coletivo (os outros). Também é atravessado pelo valor moral atribuído a uma conduta partir da exposição e do consumo simbólico da competência diante destes novos contextos de exposição. Cabe neste momento uma discussão mais profunda sobre as questões éticas decorrentes desta transformação. Afinal para a boa reputação digital do profissional o que tem mais valor: a habilidade do profissional, o conteúdo a ser compartilhado ou a revelação do compartilhamento da sua (per) forma?

Para saber mais, assista o vídeo “Reputação nas redes”: https://eticadebolso.com.br/video-reputacao-nas-redes/

Referências

BARROS FILHO, Clóvis de; PERES-NETO, Luiz. Reputação: um eu fora do meu alcance. São Paulo: HarperCollins, 2019.

PERES-NETO, Luiz. Ética, comunicação e consumo: um mapa para pensar os desafios da privacidade em rede. In: PERES-NETO, Luiz; CORRALL, J. B (orgs). Éticas em Rede: políticas de privacidades e moralidades públicas, São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2018.