“Responsável” é a sua avó.

por Marília DUQUE

Esse texto tem como ponto de partida o vídeo “RESPONSÁVEL”, publicado em 11 de janeiro de 2021 no canal do YouTube do coletivo de humor Porta nos Fundos (veja aqui). No episódio, a videoconferência de trabalho é interrompida pela mãe de um dos participantes, personagem de Fábio Porchat. Para “entretê-la”, o filho oferece o celular para a mãe “brincar” e é alvo das duas colegas que consideram que é perigoso deixar a “idosa” de 57 anos com o dispositivo “sem supervisão”. O vídeo foi alvo de inúmeras críticas, principalmente por colaborar para o idadismo, reforçando os preconceitos de que idosos são incapazes, de que possuem dificuldade na adoção de tecnologia e de que são disseminadores de Fake News, entre outros.

Há quatro anos estudo o impacto de smartphones para idosos em São Paulo, principalmente no que diz respeito à saúde e à própria experiência de envelhecimento. Durante 16 meses, realizei meu trabalho de campo, quando participei de diversas atividades dirigidas à Terceira Idade em um distrito de classe média de São Paulo que, pela concentração de serviços de saúde e dessas oportunidades, recebe idosos de outras regiões de São Paulo e de outras classes sociais. Participei de grupos de ioga, meditação, empreendedorismo, fui voluntária como professora em um curso de WhatsApp e assistente em um curso de smartphone, além de acompanhar esses idosos nos grupos de WhatsApp e em suas redes sociais. Por conta disso, desde o lançamento do vídeo, foram muitas as pessoas que me perguntaram se eu também concordava que, além de absurdo e caricatural, tratava-se de um desserviço para os idosos e para todos os esforços feitos no sentido de destituir-lhes dos estigmas associados ao idadismo. Concordo, de fato o vídeo se baseia nesses estigmas. Meu intuito aqui é, entretanto, apresentar uma outra perspectiva para sua análise.

No vídeo, a mãe idosa é a personagem ridicularizada, certo?

Se você respondeu prontamente que sim, talvez você também tenha sido capturado pelo idadismo, quando a posição mais frágil, dependente e limitada é sempre ocupada pelo idoso. Pois o convite que faço a você é que inverta a sua posição, ainda que por um breve momento. Coloque o filho e suas colegas de trabalho como aqueles que são ridicularizados, sendo eles os alvos da sátira que denuncia a infantilização e exploração dos pais idosos pelos filhos adultos, com efeitos não só para a auto-estima na velhice, mas (e isso é o mais grave) para o cerceamento de suas liberdades. Se você consegue fazer esse exercício, mesmo que em caráter provisório, essa leitura fará sentido pra você.

A quebra do pacto intergeracional.

Os idosos com quem convivi durante minha pesquisa de campo não têm expectativas de que seus filhos cuidem deles na velhice. Segundo eles, “os tempos são outros” e a atenção dos filhos está voltada para o trabalho. Esse motivo é particularmente bem aceito por esses idosos que associam trabalho a caráter e, por isso, vêm na dedicação dos filhos à carreira um indicativo de seu sucesso como educadores. Isso significa que, para esses idosos, ainda que muitos deles continuem cuidando dos próprios pais, o pacto intergeracional,[1] que culturalmente estabelece que os pais cuidarão dos filhos até que demandem cuidados e essa posição se inverta, está rompido. Por conta disso, eles se dedicam à adoção de hábitos saudáveis visando o prolongamento da autonomia e já organizam, eles mesmos, alternativas para o final da vida, que incluem a poupança para arcar com um cuidador ou uma clínica ou a perspectiva de envelhecer contando com o suporte de amigos em um sistema de habitação compartilhada. Os amigos já são, inclusive, acionados para as demandas diárias de saúde, como no acompanhamento a consultas e exames, por exemplo.

A realidade vivenciada por eles não é, entretanto, a desobrigação dos filhos apenas, mas a extensão sem limites de suas obrigações como pais, mesmo que já idosos. Talvez o jeito mais fácil de resumir essa assimetria seja a partir do conceito de geração canguru [2], quando jovens, motivados pela crise econômica e pela falta de empregos, pelo investimento na carreira ou mesmo pela conveniência, voltam ou nunca saem da casa dos pais. No Brasil, por exemplo, mesmo empregados ou com algum tipo de atividade remunerada, um em cada quatro filhos entre 25 e 34 anos mora com os pais[3]. Além disso, cabe lembrar que, em 2018, nos 60,8% dos domicílios brasileiros com idosos (o equivalente a 20,6% do total de domicílios), a renda do idoso respondia por mais de 50% da renda total nessas residências[4]. É da perspectiva dos participantes da minha pesquisa com filhos “cangurus” que proponho ser o filho o personagem exposto ao ridículo no vídeo da Porta dos Fundos.

Minha mãe mora comigo.

Para começar essa conversa, se a mãe idosa retratada no vídeo do Porta dos Fundos fosse uma das mães que entrevistei, seria o filho quem mora com ela, não o contrário. Muito provavelmente esse filho não paga nenhuma conta (talvez a da internet porque faz questão de conexão de qualidade). Provavelmente também não dá conta de seu almoço, nem de seu jantar. Provavelmente não lava suas roupas, nem troca seus lençóis – achei de bom tom não mencionar as cuecas. Esse trabalho é, entre os participantes da minha pesquisa, realizado pela mãe. E, não raro, cabe ao pai arcar com despesas pessoais do filho como o seguro saúde ou o seguro do carro, isso quando não assume o papel de seu motorista (principalmente no caso das filhas). Se o fazem, é em parte pelo afeto, mas também pelo desejo de se sentirem úteis. E são.

É esse filho retratado no vídeo, um homem adulto capaz de analisar um relatório, que vejo infantilizado, sendo ele aquele que ainda permanece sob responsabilidade da mãe. É sua dependência mascarada de prepotência que é, a meu ver, uma ironia sutil, digna de riso. É verdade, entretanto, que a tecnologia não ajuda no flagrante da dependência dos filhos em relação aos pais. Ao contrário, como observado entre os participantes da minha pesquisa, ela é usada como poder. Daí a falta de paciência dos filhos para auxiliar os pais no aprendizado dos smartphones, por exemplo. “Vê se aprende, hein!”, “Só vou te explicar uma vez!” são exemplos de respostas dadas pelos filhos e relatadas por esses idosos. Educar significa empoderar e é na manutenção das dificuldades dos pais com a tecnologia que os filhos cultivam sua dependência e iniciam sua infantilização. Retornaremos a esse ponto logo adiante quando trataremos da sugestão das colegas do filho de que haja “supervisão” da mãe no uso do smartphone e também nos programas assistidos por ela pela televisão. Antes disso, quero compartilhar outra conclusão do meu estudo.

O impacto da aposentadoria sobre a adoção de tecnologia.

Entre os participantes da minha pesquisa, o fator que se mostrou mais determinante na adoção de novas tecnologias, como os smartphones, não é a idade, mas o tempo de aposentadoria. O ambiente de trabalho é o local aonde a tecnologia chega primeiro, de forma gratuita e com demandas aplicadas que facilitam o aprendizado. Esses idosos se aposentaram muito cedo, motivados ou por uma iminente reforma da previdência ou porque foram alvo de idadismo. A consequência dessa saída precoce pode ser ilustrada por três participantes da minha pesquisa. Um tem 70 anos, está aposentado há 20 e vai pessoalmente à agência de seu banco. Outro tem 62 anos, está aposentado há 10 e faz todas as transações bancárias via aplicativo do banco. Outro tem 63 anos, está aposentado há 2 anos e usa o smartphone melhor que eu. Além das transações bancárias, faz cotações e compras, faz investimentos e possui um aplicativo para transferências internacionais (para quando o filho que mora fora tem alguma emergência).

Fake News: estudo explica?

Além da incapacidade para uso de tecnologia, a questão da disseminação de Fake News retratada no episódio de Porta dos Fundos é outro estigma atribuído aos idosos. E o desserviço em relação a isso fica a cargo da mídia. Em janeiro de 2019, Guess e outros autores[5] publicaram o artigo “Less than you think: Prevalence and predictors of fake news dissemination on Facebook”, quando apontaram que, na época da eleição de Trump, americanos com mais de 65 anos compartilharam sete vezes mais Fake News que o grupo mais jovem avaliado no estudo. Quem trabalha com pesquisa científica sabe o quão irresponsável seria generalizar a observação feita na sociedade norte-americana como uma verdade para todos os idosos em todos os lugares do mundo. Além disso, o estudo se concentra no Facebook, que no Brasil ocupa o quarto lugar como fonte de informação do brasileiro, estando o WhatsApp como sua fonte prioritária[6].

Ainda assim, a imprensa brasileira reproduziu amplamente o achado do estudo mas já descontextualizado em manchetes que afirmavam que “Pessoas mais velhas compartilham mais fake news, revela estudo”. Nem todo mundo chega ao texto e o que “colou” foram as manchetes, como essa acima, que foi divulgada pelo Estadão em 28/02/2019[7]. Construção semelhante foi disseminada por diversos veículos, sendo reaplicada ao contexto brasileiro como verdade. As manchetes faziam alusão à autoridade científica (“estudo”) em uma estrutura que, ela própria, reproduz o acionamento de autoridade, algo muito comum às Fake News. Esse é um ponto importante. Porque valorizam o investimento no trabalho e na formação, os participantes da minha pesquisa valorizam títulos e autoridades. É verdade que isso dificulta a identificação de Fake News. Além disso, parte dos compartilhamentos é feito não com base na reputação da fonte da notícia, mas com base na reputação da pessoa que a compartilhou em primeiro lugar.

Esse comportamento não é, entretanto, exclusivo dos idosos. Pesquisa DataSenado (2019) mostra que 24% dos brasileiros consideram a pessoa que compartilhou a notícia como o fator mais importante para decidir se uma informação é confiável. Além disso, a pesquisa aponta para uma relação profunda entre desinformação e escolaridade. Neste sentido, é possível novamente argumentar que a disseminação de Fake News, mesmo quando relacionada à idade, seja reflexo desse aspecto, já que a população idosa é a população no Brasil com maior taxa de analfabetismo e menor escolaridade[8].

Infantilizar ao invés de capacitar.

A falta de escolaridade poderia ser compensada pela educação para os meios, visando a literacia digital. Entretanto, os participantes da pesquisa reportam a falta de disponibilidade e paciência dos filhos para auxiliá-los nesse aprendizado, postura que é reproduzida pelo filho e por suas colegas de trabalho no vídeo da Porta dos Fundos. Em nenhum momento se fala em aprendizado ou capacitação da mãe “idosa”. Em seu lugar, a sugestão que se faz são duas: ou a supervisão (no caso do uso do celular) ou a proibição (no caso da televisão). Na perspectiva dos participantes da minha pesquisa, isso talvez seja a questão mais cruel na relação entre pais idosos e filhos adultos. A liberdade dos pais está condicionada à sua autonomia e independência. O flagrante de uma dependência ou fragilidade deles pelos filhos torna os pais alvo de intervenção, que às vezes você ser total, mesmo que esses idosos se sintam perfeitamente capazes para administrar outras atividades e aspectos de sua vida.

Nesse caso, a infantilização dos pais é a forma de lhes imputar uma sentença mais grave: o cerceamento de suas vontades, de seus desejos e de sua liberdade para o exercício da ética enquanto ajuizamento sobre aquilo que consideram adequado para si mesmos. A independência financeira também é lastro para a liberdade na velhice. Entre as mulheres idosas que entrevistei, a autonomia financeira viabiliza, por exemplo, a vaidade – que é desaprovada pelas filhas mulheres que acreditam que suas mães já passaram da idade de fazerem investimentos na beleza. Enquanto há autonomia financeira, as mães asseguram suas liberdades. Como uma dessas idosas explica, referindo-se aos investimentos que faz em beleza, “eu gosto, eu quero, eu posso pagar”.

Apesar disso, são os declínios físicos e cognitivos aqueles mais usados pelos filhos como flagrante passível de intervenção. Por conta disso, observei entre os participantes da minha pesquisa um silenciamento de suas dores e demandas de saúde. Elas são ocultadas dos filhos para não demandar o tempo que eles dedicam ao trabalho, mas também para preservar a liberdade desses idosos. Outra consequência disso, como já mencionei anteriormente, é que os pedidos de ajuda são dirigidos para a rede de amigos, agora conectada nos grupos de WhatsApp.

“Filho não ajuda”.

A conclusão é de um dos participantes da minha pesquisa. No lugar dos filhos são os amigos aqueles que se prontificam a ajudar. Os grupos de WhatsApp onde eles se conectam, além restabelecerem a sociabilidade, estruturaram uma rede de solidariedade, que colabora para o resgate do próprio senso de utilidade na velhice. Isso porque, além da reciprocidade de favores, esses idosos se empregam na curadoria de informações que julgam relevantes a seus pares (seja no âmbito da saúde ou na divulgação de oportunidades abertas para aprendizado e autodesenvolvimento). No final do vídeo de Porta no Fundos, juntamente com os créditos do episódio, há ainda uma última sátira que é justamente a reprodução de mensagens de “bom dia” e “boa noite” e outros conteúdos atribuídos aos idosos. Esse é o último apontamento que faço: é preciso reconhecer o valor dessas mensagens.

Uma das conclusões que cheguei ao observar os grupos de WhatsApp partilhados pelos participantes da minha pesquisa é que mais importante do que o conteúdo é a manutenção da conexão. O que quero dizer com isso? Quando se falava ao telefone, a conversa se iniciava com um “Alô”, que era confirmado pela outra parte com outro “Alô”. Essa primeira troca não realiza uma comunicação, mas a checagem do canal (é o que se chama de função fática). É após a checagem do canal que a comunicação propriamente dita se inicia. Pois para esses idosos, nos grupos de família e de amigos, é extremamente importante cuidar da manutenção da conexão. É ela a garantia de que a comunicação com aquela outra ponta é possível. Neste sentido, enquanto a comunicação viabiliza a sociabilidade, a manutenção da conexão confere segurança porque atesta a disponibilidade do outro – o que no caso de acionamento dos amigos para emergências pode ser particularmente importante. Grosso modo, o “bom dia” e “boa noite” substituem a função desempenhada anteriormente pelo “alô”. E, se essas mensagens são ridicularizadas no vídeo Porta dos Fundos e pelos parentes, é por falta de empatia, mas principalmente porque não sabem lê-las em todo seu sentido, nem decifrar seu impacto para a qualidade de vida na velhice.

Quem ri por último é por constrangimento.

É pelos pontos que apresentei aqui que, quando assisti ao episódio do Porta nos Fundos, não consegui conter o riso. Entretanto, meu riso não se dirigia à mãe “idosa” reduzida à posição de criança. É, na ignorância de sua própria dependência, que seu filho adulto se mostrou pra mim como uma piada pronta. E confesso que também rio, de nervoso e constrangimento, quando vejo adultos infantilizarem a voz para se dirigirem a uma criança ou animal de estimação. No caso do episódio “RESPONSÁVEL”, preciso dizer ainda que cheguei a imaginar alguns dos participantes da minha pesquisa rindo comigo. Um deles, por exemplo, compartilhou comigo o diálogo com seu filho. Ele disse “nós somos uma geração mais inteligente”, ao que o pai retrucou com ironia: “sim, com certeza. Mas quando eu tinha 29 anos eu já tinha uma casa. E você, você tem o quê?”. 

Dito isso, endosso toda crítica a qualquer conteúdo que colabore para o idadismo. Também não quero, com esse texto, colaborar com generalizações sobre uma geração ou outra ou incitar qualquer conflito entre elas. Vale ressaltar ainda que não tenho como afirmar se a intenção do Porta dos Fundos foi satirizar a “idosa” ou o filho “canguru”. De qualquer maneira, essa é minha leitura. Uma leitura propiciada pela convivência que tive com esses idosos, cuja confiança me permitiu o acesso a outras esferas, doméstica e privada, onde alguns deles continuam desempenhando o papel de “RESPONSÁVEL” (responsáveis) pelos filhos e pela própria família brasileira.


Referências:

[1] WHYTE SR. Epilogue: In: LAMB S, ed. Successful Aging as a Contemporary Obsession. Global Perspectives. Rutgers University Press; 2017:243-248. Disponível em www.jstor.org/stable/j.ctt1q1cqw5.21

[2] Kublikowski I, Rodrigues CM. “Kangaroo generations”: New contexts, new experiences. Estud psicol (Campinas). 2016;33(3):535-542. doi:10.1590/1982-02752016000300016

[3]https://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/05/politica/1496687911_980154.html

[4] Camarano AA. Os Dependentes Da Renda Dos Idosos e o Coronavírus: Órfãos Ou Novos Pobres. Ipea; 2020:20. Accessed August 7, 2020. https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/200724_nt_disoc_n_81_web.pdf

[5] Guess A, Nagler J, Tucker J. Less than you think: Prevalence and predictors of fake news dissemination on Facebook. Sci Adv. 2019;5(1):eaau4586. doi:10.1126/sciadv.aau4586

[6]Pesquisa DATASENADO (2019). Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade de Dados na Internet. https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado/arquivos/mais-de-80-dos-brasileiros-acreditam-que-redes-sociais-influenciam-muito-a-opiniao-das-pessoas

[7] https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,pessoas-mais-velhas-compartilham-mais-fake-news-revela-estudo,70002739103

[8] Pesquisa DATASENADO (2019). Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade de Dados na Internet. https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado/arquivos/mais-de-80-dos-brasileiros-acreditam-que-redes-sociais-influenciam-muito-a-opiniao-das-pessoas