Sorria: você do reconnecting também está sendo vigiado

por Lucas BAUMGARTNER

Tempo de leitura: 4 minutos

Ao se falar sobre vigilância, a imagem mais recorrente provavelmente seja a do livro 1984, de George Orwell. Nele, o protagonista Winston Smith vive em uma sociedade distópica em que todos são vigiados a todo momento, inclusive – e talvez especialmente – em seus lares. A figura central dessa sociedade é o Grande Irmão, cujo rosto está estampado em todo canto, sempre com os dizeres “Big Brother is watching you”.

Em 1984, comportamentos e até pensamentos desviantes são passíveis de punição. A vigilância extensiva cumpre o papel de assegurar que ninguém pratique nenhum ato “rebelde”. É importante notar que, sobremaneira, nessa sociedade fictícia, o vigia é apenas um: o Estado, praticamente onipresente e onisciente.

Mas por que falar de 1984 para discutir as aulas onlines que ocorrem durante a pandemia? Esse livro é frequentemente utilizado como exemplo para falar sobre a vigilância – sobretudo a online – que vivemos hoje. Contudo, pesquisadores como Zuboff (2018) ou Lyon (2018) apontam que essa analogia já seria ultrapassada.

O que teríamos hoje, ao contrário da ficção orwelliana, é uma descentralização da vigilância. A presença de um Grande Irmão observando tudo e todos não se faz manifesta, pelo contrário, temos diversos agentes – sejam pessoas físicas ou jurídicas – que acabam desempenhando, ao mesmo tempo, o papel de vigilantes e de vigiados. David Lyon (2018) atribui essas como algumas características do que ele chama de “cultura da vigilância”.

Faz parte dessa nova cultura, também, o compartilhamento voluntário de seus dados pessoais. Para Lyon, ele “[…] também pode ser pensado como um aspecto da exposição, em que as pessoas são tornadas mais visíveis por outros e – este é o sentido relevante – deliberadamente se fazem mais visíveis” (LYON, 2018, p. 163). As pessoas, então, vigiam umas às outras, são vigiadas por seus pares e, ainda, expõem-se, para que mais pessoas consigam vê-las.

Cultura da vigilância e o caso reconnecting

É interessante como todos esses fenômenos descritos por Lyon (2018) estão presentes no caso que ocorreu numa aula online da ESPM e em muitas outras, seguindo um desafio do Tik-Tok. Vemos, em primeiro lugar, que a grande maioria da turma participou da brincadeira. Não quero tirar a responsabilidade de ninguém, mas vale dizer que cada membro da turma estava sob o olhar de seus colegas: como era necessário que eles trocassem a foto de perfil, todo mundo saberia quem foi o “estraga-prazeres” que boicotou o resto do grupo.

Além disso, a brincadeira foi gravada e publicada nas redes sociais, seguindo a lógica do compartilhamento, tomando, como dito anteriormente, proporções inesperadas. Novamente, não quero tirar a responsabilidade de ninguém, mas é possível pensar que o ato de compartilhar tenha sido feito de forma quase automática: imersos na cultura do vigilância, em que o tornar-se visível é padrão, a ação pode ter sido feita sem um pensamento crítico.

Por fim, há mais um ponto sobre a cultura da vigilância que pode ser discutida a partir do caso. Antes, vale voltarmos ao que o sociólogo David Lyon trata como “cultura da vigilância” novamente para entender o que ele chama de “dataísmo”. Essa seria uma crença na proteção de dados, ou seja, que seus dados estão sempre seguros. Basta pensar na quantidade de tecnologias que você utiliza todos os dias e quantas vezes você se preocupou em utilizá-las.

Facebook? Instagram? WhatsApp? YouTube? Google? Google Drive? E-mail? Netflix? O sistema operacional do seu computador? O próprio Zoom, plataforma onde foi feita a aula? De forma geral, todas essas plataformas coletam seus dados de alguma forma, muitas delas, a princípio, para oferecer uma experiência melhor ao usuário. Basta comparar seu perfil da Netflix com o de outra pessoa para notar que os filmes e séries recomendados são completamente diferentes.

Por que essa discussão é importante? Ora, a suposta brincadeira ocorreu em grande medida em plataformas como o Google Meet e o Zoom. Especificamente, esta última é uma ferramenta que possuí diversos problemas de segurança, que vão desde itens nos termos de uso, que permitiriam práticas invasivas por parte da plataforma de videoconferências, até a praticas abusivas no tratamento de dados que, entre outras coisas, fizeram com que o Zoom fosse investigado nos Estados Unidos.

Mesmo com essas “invasões” de privacidade, os alunos que seguiram com essa “brincadeira”, adicionaram mais uma camada na vigilância ao se filmarem. É fato que muitos pensam já estarem tão imersos numa “religião dataista” e que, portanto, pensem que essa “brincadeira”, mesmo exposta publicamente, ainda lhes asseguraria alguma forma de proteção. Esse caso, contudo, é um ótimo exemplo do que é a cultura da vigilância nos moldes proposto por David Lyon. Nesse caso, podemos observar a cultura da vigilância em ação, já naturalizada naqueles que estão inseridos nela.

Referências

LYON, David. Cultura da Vigilância: envolvimento, exposição e ética na modernidade digital. In: Bruno, FERNANDA, et al. (org). Tecnopolíticas da Vigilância. São Paulo: Boitempo, 2018. p. 151-179

ZUBOFF, SHOSHANA. Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma civilização de informação. In: Bruno, FERNANDA, et al. (org). Tecnopolíticas da Vigilância. São Paulo: Boitempo, 2018. p. 17-68.